quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Um Tarzan às avessas, por Paul Theroux

Acho este relato exemplar pelo absurdo naturalismo com que a narrativa põe a nu as contradições do colonialismo, os limites (às vezes impossíves de precisar) entre o Mesmo e o Outro. Não precisa ir tão longe. O atual interesse do grande público, que faz da periferia muitas vezes exótico objeto de deslumbrado interesse (saiu domingo um texto de Regina Casé sobre o assunto que rende uma boa discussão) é apenas outro exemplo.

Aconteceu há 40 anos, na África, e ainda hoje penso nisso: a oportunidade, o auto-engano, o sexo, o poder, o medo, a confrontação, a estupidez, o equívoco todo da situação. O incidente serviu de material para um de meus primeiros romances e também para vários contos. Teve um quê de Primeiro Contato, o clássico encontro inesperado entre o viajante e o nativo oculto, um encontro marcado por tamanha estranheza entre seus protagonistas que, enquanto um lado vê uma aparição, o outro pressente uma oportunidade. Nunca mais consegui tirar isso da cabeça. Eu havia partido da América rumo à África e fazia quase um ano que estava naquele lugar: Nyasaland. Veio a independência e, com ela, um novo nome, Maláui. Eu era professor em uma pequena escola. Falava a língua local, o chicheua. Tinha uma casa e até mesmo um cozinheiro, um muçulmano yao chamado Jika. Meu cozinheiro tinha seu próprio cozinheiro, o garoto Ismail. Vivíamos satisfeitos no sertão, num canto das montanhas do Sul, entre poeira vermelha, estradas ruins e maltrapilhos. Tirante o frio úmido que fazia de junho a agosto, nada disso me parecia estranho. Era essa a África que eu contava encontrar, e ela me agradava. Costumava dizer: vou levar um choque cultural quando voltar para casa. Pouco antes do Natal, fui para a Zâmbia. Segui por estradas secundárias e, no dia 24, parei para tomar uma cerveja num bar esquálido nas cercanias de Lusaka [a capital]. O lugar estava quase vazio e entabulei uma conversa com os dois únicos fregueses que havia ali além de mim: um homem e uma mulher. "Isto é para você", disse eu, oferecendo ao homem uma garrafa de cerveja. "E isto é para a sua mulher. Feliz Natal." "Feliz Natal", disse o sujeito. "Mas ela não é minha mulher. É minha irmã. E gostou muito de você." Quando o bar fechou, os dois me convidaram para ir à casa deles. Isso implicou uma longa corrida de táxi pelo sertão. "Feliz Natal. Você paga pra ele." Paguei. Levaram-me a um casebre. Mostraram-me um cômodo acanhado, onde entrei acompanhado da mulher. Pisei numa criança adormecida -ouviu-se um berro. Era um menino. A mulher o acordou, arrancou-o de seu cobertor e enxotou-o para o aposento ao lado. Então me mandou sentar, tirou minha roupa e fizemos amor em cima do pedaço de cobertor ainda aquecido pelo corpo do menino.

Foi muito agradável. Já andava cheio das malauianas, aquela coisa morna, entremeada de sorrisos e gracejos; sem contar as gozações do Jika, os olhares de soslaio do Ismail. Mas, de manhã, quando eu disse que precisava ir embora, que tinha de ir para o meu hotel em Lusaka, a mulher, Nina, retrucou: "Não, hoje é Natal" e armou um pampeiro.

George, o irmão, deve ter ouvido o queixume dela, pois entrou no quarto e disse que estava na hora de ir para o bar. Ainda não eram nem oito da manhã, mas mesmo assim fomos e passamos o dia inteiro bebendo, e, sempre que pedíamos uma cerveja, eles diziam: "Mzungu", o homem branco paga, e eu pagava. No meio da tarde estávamos os três embriagados. Escarneceram da mulher por ela estar com um homem branco. Ela respondeu com uma insolência de bêbada. O irmão impediu que alguns sujeitos enfurecidos batessem nela. Espoucaram brigas alcoolizadas no bar.

Voltamos para o casebre no vilarejo e, com um princípio de enjôo, deitei-me no cômodo fedorento. Nina despiu-me, sentou em cima de mim e pôs-se a rir e a caçoar de mim.
Na manhã seguinte, quando estava me vestindo, ela perguntou aonde eu ia. Tornei a dizer que precisava ir embora.

"Não. Hoje é "Boxing Day" [feriado de origem britânica celebrado no primeiro dia útil após o Natal]." E chamou o irmão.

"Vamos", disse George, dando um tapinha nas minhas costas e sorrindo. O significado do sorriso era: trate de me obedecer. Passamos o "Boxing Day" da mesma maneira que havíamos passado o Natal: o bar, a cerveja, as brigas, os insultos e, por fim, a atordoante e nauseabunda sensação de embriaguez no meio da tarde. Mais uma noite, as risadas de Nina ao chegar ao orgasmo e, pela manhã, o lembrete de que eu estava encarcerado. "Você fica!"

Em sua recusa a deixar-me ir embora havia, além de lubricidade, um quê de ameaça. E o irmão a apoiava, por vezes me acusando de não ter consideração por eles. "Você não gosta da gente!"
Quando eu retorquia, dizendo que gostava, claro que gostava, eles sorriam. Então comíamos ovos cozidos ou pedaços frios de mandioca ou um mingau esbranquiçado e lá íamos nós para o bar, a fim de nos embebedar de novo naquele lugar imundo. À medida que ia ficando alta, Nina começava a me bolinar e prometia sexo -a essa altura uma idéia quase aterrorizadora. Passou-se mais um dia e me dei conta de que não fazia a menor idéia de quem eram aquelas pessoas. A comida era nojenta. O casebre, medonho. As pessoas do vilarejo não pareciam muito amistosas; no bar eram francamente hostis. Aquela cerveja toda estava acabando comigo. Eu era o único "mzungu" no lugar e, tanto quanto sabia, o único também num raio de vários quilômetros.

Afora meu desejo sexual inicial, minha curiosidade, não tínhamos nada para compartilhar; tudo se resumira à intenção de nos explorarmos mutuamente

A língua que eu falava, chicheua, não era a deles, embora a conhecessem. Sua língua -devia ser bemba- era-me incompreensível, e eu sabia que tramavam contra mim quando se punham a conversar nesse idioma, trocando palavras rápidas a meia voz, de modo a não me dar a menor chance de entender o que diziam. Eu lhes pertencia, era como um animal valioso que houvessem caçado. Sempre que precisavam de dinheiro para comprar cerveja, petiscos, presentes ou o que quer que fosse, pediam para mim. Quando eu dava o dinheiro, tornavam-se excessivamente afáveis, a mulher me beijava, lambia meu rosto, fazia-se de submissa; o irmão e os outros beberrões elogiavam-me, louvavam a América, diziam que a Inglaterra era uma merda, pediam que eu os deixasse usar meus óculos escuros.

Na primeira noite eu trajava um terno claro. Agora o terno estava todo amarrotado e sujo; minha camisa vivia empapada de suor. Eram as únicas roupas que eu tinha.

Eles diziam que eu era um amigão, mas não me enganavam: eu era seu prisioneiro. Estavam sem dinheiro. Meus vezos e minha arrogância haviam me transviado do meu mundo e me conduzido ao deles. E eu representava algo para eles: dinheiro, sem dúvida; prestígio, talvez; estilo, quem sabe. Depois da primeira noite, não tivemos mais diálogos sóbrios.

Eu era uma cor, um homem branco, um "mzungu". Eles haviam me capturado e não queriam abrir mão de sua presa: eu era uma posse útil. Quando diziam: "Você não sai!", como amiúde faziam, empregavam um tom tão irritantemente alto e ameaçador que eu me enchia de medo. Aquilo que havia me atraído em Nina, seu despudor, agora me assustava pelo que tinha de feroz e selvagem. A bebida a ensurdecia e a transformava numa rufiona tão cruel quanto o irmão. George escrutava-me com olhos estranhamente injetados, como se eu fosse um inimigo.

Às vezes, durante a noite, eu era despertado pela fedentina humana que pairava no casebre.

Acho que era meu quarto dia ali. Estava tão apavorado e os dias eram tão iguais uns aos outros que havia perdido a noção do tempo. Fomos para o bar de manhã e ao meio-dia eles continuavam bebendo -quanto a mim, assim como sucedera com o sexo, já não sentia prazer na bebida. Permanecia sentado ao lado deles, pagando tudo o que pediam com meu maço cada vez menor de notas de "kwacha". Então disse: "Vou até o chimbudzi".

"Vai com ele", determinou Nina a um dos valentões que adejavam à nossa volta. Protestei.

"Ele não volta", disse ela, e percebi como era ladina. Lera meus pensamentos, mais uma indicação de sua perversidade. Tirei o paletó e o coloquei em cima do balcão.

"Eis o meu paletó, tomem um pouco de dinheiro. Peçam uma cerveja para mim e mais algumas para vocês. Quando eu voltar, vocês me devolvem o paletó." O "chimbudzi" ficava do lado de fora do bar, nos fundos da construção coberta com folhas de zinco. Era um cubículo sem telhado, feito de bambu e estacas de madeira. Larvas se contorciam no buraco raso da latrina. Permaneci em pé, sentia-me tão enojado que não tive coragem de abrir a braguilha.

Saí após alguns instantes, olhei em volta e, não vendo ninguém, comecei a correr; a princípio com cautela, depois desabaladamente, até alcançar a estrada e acenar para que um carro parasse. É claro que o sujeito parou. Era africano, eu era branco, estávamos no Natal e ele precisava de dinheiro para a gasolina. Levou-me ao meu hotel -eu não havia dormido nem uma noite lá. Pedi ao motorista que aguardasse por mim, paguei minha conta, entrei novamente no carro e quando ele perguntou "para onde?", mandei que seguisse sempre em frente. Deixou-me a uns 30 quilômetros da cidade, junto de um hotelzinho de beira de estrada, onde passei uma noite insone.

Que idiotice a minha, invadir o território dos outros. O tempo que passei com eles não me ajudou a compreendê-los. Afora meu desejo sexual inicial, minha curiosidade, meu atrevimento, não tínhamos nada para compartilhar. Tudo se resumira à intenção de nos explorarmos mutuamente. Eles me lembraram de quem eu de fato era: um americano presunçoso. A despeito de minhas posições políticas e de meu trabalho na escola no sertão, eu era pouco mais que um turista aproveitador. E, para mim, eles eram uns africanos desesperados agarrando-se à oportunidade de me possuir. Fora como um Tarzan às avessas, redefinindo a si mesmo. Isso foi tudo o que consegui vislumbrar.

Sentira medo deles e tratara de dar um jeito de sair de lá. E o incidente continuou a repercutir dentro de mim, dizendo-me quem eu era. Passei por situações muito mais perigosas na África: brigas sérias, deportações, tiroteios -há coisa mais perturbadora do que se ver sob a mira de uma arma? Contudo essa foi a primeira vez que experimentei para valer um cativeiro, meu primeiro contato real com a diversidade, uma situação memorável devido a seu caráter horrivelmente grotesco. Foi algo que me deixou aturdido e fez com que eu me sentisse americano.

Paul Theroux (1941) é escritor e roteirista americano, autor de "Minha Outra Vida" (Record) e "Morte em Chicago" (L&PM). Este texto foi publicado originalmente na revista britânica "Granta", e sua tradução, por Alexandre Hubner, na Folha de São Paulo de 18/04/2004 (link para assinantes)

sábado, 22 de dezembro de 2007

Satélites


Para o Jeff, autor da foto


Como satélites livros se lançam
Seguem rotas exatas-imprecisas
Viajam no limite entre o caos e o cálculo
Entre o Deus e o Nada

Se acertara Pound e os poetas são antenas
Como satélites livros refletem
A raça que ora agônica ora eufórica
Olha em si, ora ou cala

Pairam bem acima do que recebem
Ou do que transmitem, olhos de um totem
Como satélites livros têm órbitas
E eixo de acrobata

Mesma é a mão que os cria ou os queima
Que os desvia ou os lança na circular danação
De invisíveis sinais que como satélites
Livros emanam

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O sol, o Sol


Sempre disse pros alunos o contrário do que é (de acordo com o Rui Castro que a Maura recortou pra mim). Mas não fui único. Já li que "o sol nas bancas de revista" era uma referência ao tablóide em mais de uma fonte. Mas não as vou sair caçando agora.


quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Sericícola do Ponto

A Fernanda viu a casa do Lima e se lembrou da sericícola do Ponto. Agradeço e colo aqui:


PS: Fico devendo um post sobre o ponto.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

É só uma foto na camiseta...

Achei num livro, fiz transfer e soldei numa camiseta branca. Ando por aí e me divirto:

- Era do meu avô! - e rio.

Não é Itabira. É Ilha do Governador. Mas também dói.
Só que o COMO é de modo, não de intensidade:

- Mas como dói? OU SEJA como pode doer isso que não é pra doer OU SEJA dói não como eu sinto, que não sinto. Minto muito.

Cena 2:

Rua Treze de Maio. Me invento no botequim que ficava (hoje não existe mais) quase na esquina com Evaristo da Veiga (hoje acho é o Banco do Brasil).

Tomo outra cachaça e lamento a fiscalização da saúde pública: são saudades do sanduíche grego (ou de grego?).

Vejo o Lima sentado ao balcão. Mão no copo, outra sobre o joelho. Olhar molhado para longe, a Biblioteca Nacional feita de vidro.

O gerente do banco sai do Bola Preta. Trazia na mão esquerda o ladrão, na direita o polícia. Ambos armados. Dentes de ouro. Angelus Novus, o corretor de seguros, caminhava-contra-o-vento da passagem desse cordão pé-bola-de-meia.

Entraram no boteco e foram gritando:

- Mãos na cadeira, mulata!

E o Lima voltou-se e me disse que nunca acreditara que nossa cidade chegasse a esse ponto.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Oculto óbvio

"Como poderia ser remapeada a cartografia do crime na cidade, de forma a desfazer preconceitos quanto à ocupação sócio-econômica do espaço urbano?
ou, parafraseando Caetano Veloso: Como surpreender a todos dizendo (que sempre esteve oculto) o óbvio?"

São perguntas com que terminei um texto apresentado no Seminário Nacional - Região metropolitana: Governo, sociedade e território, na FFP/UERJ, São Gonçalo - RJ, 2003.

E o conto Cidade de Deus, de Rubem Fonseca.

Guerra particular?

Certas guerras são menos fato do que argumento.

Bato na mesma tecla: não há uma guerra, a despeito das armas e do medo. Colo abaixo um pedaço de O Brasil presente: construções-ruínas do imaginário nacional contemporâneo, minha tese de doutorado (2002):

Umberto Eco, em ensaio que comentava a Guerra do Golfo (1991), leva em consideração algumas condições de impossibilidade da guerra após experiências como a da energia atômica, da televisão, dos transportes aéreos e com as várias formas de capitalismo multinacional. Recordando Foucault, o ensaísta italiano argumenta que o poder não é mais monolítico e unidirecional, mas difuso, parcelado, feito de uma contínua aglutinação de consensos:

A guerra não põe mais duas pátrias frente a frente. Coloca infinitos poderes em concorrência. Nesse jogo, alguns centros de poder saem lucrando, mas à custa dos outros. Se a velha guerra engordava os comerciantes de canhões, e esse lucro colocava em risco a suspensão provisória de algumas trocas comerciais, a nova guerra, se enriquece os comerciantes de canhões, coloca em crise (e em todo o globo) as indústrias de transportes aéreos, de entretenimento e de turismo, as indústrias da própria mídia (que perdem publicidade comercial) e, em geral, toda a indústria do supérfulo – ossatura do sistema – do mercado da construção civil ao automóvel. (...) Na guerra, alguns poderes econômicos entram em concorrência com outros, e a lógica do conflito entre eles supera a lógica das potências nacionais. [ECO: 1998, p. 20]

Neste mesmo ensaio o autor adverte sobre o silêncio do intelectual, em tempos de guerra, por não encontrar um campo neutro para expressão, uma vez que a mídia é uma das armas da própria guerra. Mas deixa bem claro que é dever do intelectual declarar que a guerra, hoje, anula qualquer iniciativa humana e, inclusive, seus objetivos aparentes (e a vitória aparente de alguém) não podem impedir o jogo autônomo dos poderes econômicos. [IDEM, p. 17]

Quanto à Guerra deste início do século XXI, é produtivo mencionar dois ensaios produzidos “no calor da hora”, mas diametralmente opostos no que tange à atitude intelectual e à visão política do evento. Destacamos dois fragmentos de artigos de Susan Sontag e de Hans U. Gumbrecht, publicados o caderno “Mais!”, da Folha de São Paulo de 23 de setembro de 2001, que vão permitir algumas considerações:

Para esta americana, nova-iorquina, triste e horrorizada, a América nunca pareceu mais distante de um reconhecimento da realidade do que diante da monstruosa dose de realidade do último dia 11. A desconexão entre o que aconteceu e o modo como poderia ser compreendido, além do falatório hipócrita e as francas ilusões sendo vendidas por virtualmente todas as nossas figuras públicas e analistas da TV;é surpreendente, deprimente. As vozes autorizadas a acompanhar o evento pareciam ter se unido em uma campanha para infantilizar o público.
Onde está o reconhecimento de que isto não foi um ataque “covarde” contra “a civilização” ou “a liberdade” ou “a humanidade” ou o mundo livre, mas um ataque contra os Estados Unidos, a autoproclamada única superpotência mundial, ataque que foi praticado em conseqüência de certos interesses e ações norte-americanos? Quantos cidadãos norte-americanos têm consciência do corrente bombardeio do Iraque por parte dos EUA? E, se for para usar a palavra “covarde” ela poderia ser aplicada de maneira mais adequada aos que matam fora do alcance de retaliações, das alturas do céu, do que àqueles que se dispõem a morrer eles mesmos para matar outros. Em termo de coragem (uma virtude moralmente neutra), pode se dizer qualquer coisa sobre os que perpetraram o massacre, mas eles não eram covardes. [SONTAG: 2001, p.11]

Essas bombas nos acertaram e não só nos afetaram, fazendo-nos vítimas, porque não são dias para declarações enfáticas de solidariedade. Pois a que se deveria ser solidário, sem parecer ridículo com as óbvias declarações enfáticas? Poder-se-ia ser solidário à condenação desses insanos, mas dizer só isso e nada mais é quase uma ofensa aos mortos. Essas bombas acertaram nosso país, tememos num descuido aspirar o cheiro de nossos mortos queimados, e espero que ninguém tenha a paciência de negociar com os que estão ávidos em tranformar-se eles próprios em tais bombas.
Conhecer sentimentos de patriotismo, sentimento de vergonha nacional e a esperaça de uma vingança violenta em, apenas dois dias, no rápido transcorrer do acontecimento objetivo, por assim dizer, tudo isso me subjugou, me deixou orgulhoso e despertar agora, do distanciamento intelectual que exercitei durante décadas, um certo medo de minhas fortes novas reações.
[GUMBRECHT: 2001, p.12]

Os dois fragmentos se tornam mais contrastantes ainda quando se sabe tratar-se o primeiro de uma americana e o segundo de um estrangeiro recém-naturalizado. A visão crítica da ideologia que subjaz ao discurso hegemônico por parte de Susan Sontag esvai-se totalmente na apologia daquele mesmo discurso, através da estratégia de negação do distanciamento crítico, em nome de um sentimento nacionalista expresso por Gumbrecht. Demonstrar um partidarismo emocional a favor da guerra e da retaliação é afastar-se sobremaneira da função que cabe ao intelectual. O título do artigo de Gumbrecht – “Nota sobre uma guerra nada particular” ‑ ainda alude (não quero crer que involuntariamente) ao já polêmico documentário de João Sales – Notícias de uma guerra particular (1998). A indagação, ainda que involuntária, de muitos brasileiros, seria: tendo em vista a globalização do crime, especialmente através das redes internacionais de tráfico de drogas, por que só a guerra dos americanos não é particular? Sem dúvida a relação do intelectual com a mídia é complexa e perigosa, como alertara Umberto Eco.

O jogo promovido pelo mercado e pela mídia lançam as questões em torno da guerra também em uma superfície discursiva e ideológica. Embora não se trate de uma guerra que tenha o valor simbólico da antiga Guerra Fria, pois nesta guerra mata-se o “inimigo”, permanece, conforme constata Susan Sontag, permanece a distância do reconhecimento da realidade. O jogo discursivo se impõe ideologicamente e oblitera o óbvio: trata-se de uma guerra entre a intolerância fundamentalista islâmica e outra forma de fundamentalismo, que é a covardia presunçosa norte-americana, ou seja, uma guerra tão particular quanto qualquer outra que se possa declarar nesta era de individualismo e globalização. Fazem parte de um predicado que oculta a verdadeira aparência do sujeito desde a massificante transmissão mundial da imagem das torres desabando, ao crescente aumento das vendas bandeirolas americanas (além das máscaras protetoras) entre os nova-iorquinos.

As fronteiras, os espaços-duplos, o entre-lugar são instâncias que não só permanecem, como sempre existiram. O confronto com a alteridade processado como descoberta/redefinição do mesmo faz parte da experiência humana, não é à toa, que Silviano Santiago inicia seu ensaio sobre o discurso latino-americano, remetendo a Montaigne, que, pensando os canibais, remete ao rei Pirro diante dos romanos. Bárbaros são todos e ninguém. Bárbaros que hoje tendem a abandonar o sedentarismo de suas tribos e circular pelo planeta de forma livre, pois não se vai mais do mesmo ao outro, mas do mesmo ao mesmo.

Uma possível saída para esta bárbara mesmidade (ou para esta mesma alteridade), patrocinada pela mídia e pelo consumo, pode estar no que Michel Maffesoli propõe como uma deontologia, em seu Elogio da razão sensível: uma consideração das situações naquilo que elas têm de efêmero, de sombrio, de equívoco, mas também de grandioso:

Em vez de continuar pensando segundo um racionalismo puro e duro, em vez de ceder às sereias do irracionalismo, talvez seja melhor pôr em prática uma “deontologia” que saiba reconhecer em cada situação a ambivalência que a compõe: a sombra e a luz entremeadas, assim como o corpo e o espírito interpenetram-se numa organicidade fecunda. [MAFFESOLI: 1998, p. 19]

Tal deontologia leva à substituição da representação pela apresentação. Se a primeira foi o mecanismo de mediação típico da modernidade, que sempre tencionou representar o mundo em toda sua essência e pureza, a segunda consistiria em permitir ser aquilo que é, deixando sobressair o amor fati, o sim dito ao não. Maffesoli adverte, ainda, que a apresentação não é um “deixar-correr” intelectual, mas pelo contrário:

Ela requer uma ascese, a de não se fazer o jogo do demiurgo que manipula, ao seu bel-prazer, aquilo que convida a ser visto, em favor daquilo que se desejaria que fosse. (...) A apresentação é mais escrava do que senhora da realidade social ou natural. Está a serviço do dado mundano, mais do que exerce domínio sobre ele.
É em função de tudo isso que se pode propor a substituição da representação pela apresentação das coisas. Com efeito, a representação foi, em todos os domínios, a palavra mágica da modernidade. Assim para indicar brevemente, ela está na base da organização política, daquilo que se convencionou denominar ideal democrático, e justifica através desse fato todas as delegações de poder. Também a encontramos nos diversos sistemas interpretativos, procedendo por mediações sucessivas e tendo por ambição representa o mundo em sua verdade essencial. [IDEM, p. 21]

Em O Brasil presente construções-ruínas do imaginário nacional contemporâneo pretendeu-se empreender uma leitura das obras através do deslocamento da interpretação (que é ato de quem aborda representações), para tomá-las como apresentações, discursos que não são apenas portadores de uma mensagem racionalmente decifrável, mas que permitem um diálogo com a cultura e o imaginário, numa tentativa de descrever mais o continente que o conteúdo. Dessa forma, acredita-se que através da crítica literária e cultural seja possível verificar esta presença do Brasil, enquanto significante que aflora na apresentação dos discursos.

Na coxa flava do Rio de Janeiro



Fiz essa montagem em 2002. Fragmento de Carlos Drummond sobre foto de Ricardo Azoury. Para ler é só clicar e ampliar.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Tropa de elite

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
(Carlos Drummond de Andrade)

Finalmente assisti ao filme. Mas não me animo a entrar no debate, que logo fica velho e esquecido. Acompanho a discussão sobre violência policial, favela e narcotráfico, especialmente no Rio, desde os anos 80. Avançou. Mas, lamentavelmente, o avanço dos debates foi proporcional ao aumento da truculência da polícia, da hostilidade do bandido, da fragilidade dos governos e... dos lucros com o tráfico.

Sobre o filme há posições lúcidas e rigorosas, outras oportunistas (Idelber Avelar, blogueiro exemplar, listou várias). Talvez eu só esteja também aproveitando a oportunidade para publicar estas notinhas pouco rigorosas, mas sem abrir mão da lucidez:

1 - Terminei de assistir ao filme de José Padilha e, antes de ir para casa, resolvi passar na locadora e alugar Amen, de Costa-Gavras. Nada melhor para entender porque o Bope invade a favela em nome da Santíssima segurança.

2 - Depois resolvi folhear um livrinho muito útil. Para quem ainda não leu, recomendo: O narcotráfico, de Mário Magalhães, da coleção Folha Explica. Recorto trechos e acrescento uma pergunta a cada:

  • "No Brasil, comprovadamente, o narcotráfico lava dinheiro assim: nas Bolsas (o investidor não aparece, opera por intermédio de corretoras); com empresas de diversas naturezas (construtoras, táxi aéreo, comércio); casas noturnas, boates, restaurantes (especialidades das máfias italianas); companhias seguradoras; casas de câmbio; negócios com jóas, metais preciosos, objetos de arte."
Então, dá para concordar com uma idéia freqüente no filme, e achar que um "vapor" morre por causa do dinheirinho do "viciado"?
  • "É o UNDCP [Programa das nações Unidas para para o Controle internacional de Drogas], e não um grupo anticapitalista, que afirma: 'As organizações criminosas envolvidas com drogas ilícitas responde às oportunidades criadas pela globalização da economia de mercado'[...] Na prática isso significa o seguinte: ao mesmo tempo que gastam saliva para condenar e fortunas para enfrentar as ações e as conseqüências do narcotráfico, as grandes potências mundiais organizam, consolidam e aprofundam o sistema que permite à cadeia produtiva do crime organizado não só operar com desenvoltura como também se ampliar incessantemente."
Será que alguém que começou a vida do crime há uns 20 anos, como "olheiro", estará hoje diante de um teclado de computador só administrando os seus investimentos via internet?

  • "Os Estados Unidos têm incentivado a militarização do combate ao narcotráfico..." "Os governos nacionais são avaliados como tendo ou não atuação contrária ao narcotráfico. Os reprovados perdem direito a todo tipo de colaboração com os EUA, que retaliam com proibição de importações e exportações, empréstimos de organismos financeiros internacionais e penas complementares."
O ano em que meus pais saíram de férias é ótimo, mas será que escolhemos o filme certo para concorrer à indicação do Oscar?

3 - Já fui bancário muitos anos; nunca ninguém me chamou de banqueiro. Se eu fosse comerciário, quem ia me confundir com um comerciante? Preciso urgente de um especialista em língua portuguesa, para saber porque o sufixo -ANTE, passou a funcionar para traficários, uns pobres rastaqüeras, sem muita oportunidade na vida, mão-de-obra barata para investidores da bolsa, donos de empresas, donos casas de diversão, enfim, toda essa gente rica e transnacional que costuma circular habilmente entre nossos políticos?

4 - Toda a discussão partida do filme, então, sofre um desvio grave de foco. Não há problemas com o tráfico de drogas, pelo contrario, ele vai muito bem e ajuda a incrementar parte considerável da economia mundial. O problema é a existência de pobres. Pobres favelados vendedores de pó. Pobres agricultores plantadores de coca. Pobres desassistidos, que podem ser esculachados por outros pobres, milicos psicopatas ou cínicos.
Até os que roubam, muito pobres. Mas todos inocentes. Nas nas favelas e no senado, todos inocentes. Ainda ouvimos o eco da voz de nosso primeiro cronista: "Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior". E com tamanha inocência, acabamos por prescindir da justiça. Este é o problema do oculto óbvio, como aponta o meu companheiro de ofício, correspondente de Macondo, Parangolé.

5 - Prezado capitão Pimentel, em respeito à sua coragem de trazer à tona a discussão e romper com o VÍCIO do "manda quem pode e obedece quem tem juizo", ou do "quando um burro fala o outro abaixa as orelhas", das instituições brasileiras, gostaria de contradizer-lhe. Não é uma guerra particular. É uma guerra de todos. Particular é a guerra em que um império capitalista se lança às cegas contra terroristas que lhe explodiram um símbolo, que lhe expuseram a fraqueza. A guerra contra a miséria e a injustiça, prezado capitão Pimentel, não pode ser particular. E nela devemos discernir quais armas usamos. E contra quem. O cinema é uma arma forte e, às vezes, devastadora ( Hollywood que o diga!).

6 - Se bem acerto nas lições de teoria da literatura, herói se define pela identidade entre um personagem e o conjunto de valores e ideais de uma sociedade. Mas se o herói de Luciano Huck não é o mesmo herói de Ferréz, isso é sintoma de que a sociedade está partida, talvez estilhaçada. É evidente que os roteiristas, o diretor, ou o ator Wagner Moura, não construíram um herói. As críticas ao filme estão sendo apressadas, ou comprometidas, ou confundem ficção e documentário. O melhor que se pode fazer contra elas é divulgar o Ônibus 174. Desejar que esse filme seja visto pela mesma quantidade de pessoas que já viu Tropa de elite.

7 - Se o público se identificou tanto com o filme -- e isso precipitou que os camelôs vendessem por aí Tropa de Elite II e III (ao que me consta o segundo foi o título dado pelos piratas a Notícias de uma guerra particular e o terceiro, um documentário amador, que acompanha a rotina de policiais em suas investidas contra os traficários da favela -- se o público está se identificando tanto com tais filmes, eu dizia, se hoje as mães se reconhecem no medo da polícia e do bandido, é porque talvez não seja mais possível cantar uma canção, que, perto do começo dessa história toda, nos anos 80, ilustrava as notas de 50, primeiramente raras, depois surradas e hoje esquecidas.
Tropa de elite, Ônibus 174, Carandiru, Notícias de uma guerra particular, Cidade de Deus (entre outros filmes, livros e discos) são canções inimigas. Necessárias, mas inimigas: podem fazer acordar os homens, mas não deixam adormecer as crianças.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Quem somos nós? (What the Bleep Do We Know!?)

O filme me foi recomendado (é terna a lembrança de Catarina) há pelo menos uns dois anos. Meu ceticismo (ou seria cinismo?) me afastara dele. Perdi tempo.
Ou não.
Por outro caminho, mais científico, já experimentara a idéia (certeza?) de que as palavras movem e os pensamentos criam realidade. O da ficção.
Um pedaço do Anacrônicas, para os mais céticos, ainda:

Nilton não se comoveu diante de minha impotência. É simples, respondeu, enquanto descobria um quadro negro na parede ao lado da mesa, no qual desenhou três bolas. Toque nesta bola, e meu instrutor começou a traçar linhas inventando trajetos no fundo negro do quadro:

Após concluir o desenho, olhou-me com o mesmo sorriso de sempre. E então? Ofereceu, desta vez mais enfático, o taco. Olhei as bolas inertes sobre a mesa e imaginei novamente os corpos em movimento. Já não tinha certeza se devia acreditar no atestado que o Doutor me dera. Meu desejo era inventar outro jogo a partir daquele. Abandonar os tacos, deixar as bolas sobre a mesa e falar. Tinha certeza de que várias carambolas se reproduziriam quando o jogador falasse a palavra certa. Como convencer nilton a jogar este novo jogo?

Não sei se posso compartilhar minhas agulhas, respondi, e o meu pau, tantas vezes erguido em nome da paz e do amor, agora tem que se cobrir com escudos de borracha. Nilton ficou sério: como assim? indagou.

Agora eu ditava as regras: largue o taco, moveremos tudo com palavras, diga a palavra certa e as bolas começarão a se tocar. Nilton, mais sério ainda, talvez com medo, resolveu entrar no jogo. Nos posicionamos em volta da mesa.
Falávamos. Eu comecei a circular, me aproximando de meu adversário e ele se afastava de mim. Rodávamos em volta da mesa falando. Falávamos tudo, palavras somente, sem sintaxe: anda vai move paga bate voa fala cruza salta queima – o bilhar foi proibido na Idade Média – nilton me informou; não dei ouvidos, era minha vez de jogar: singra corta encosta beija lambe fela grita urra – e urrávamos diante das bolas paradas. Abandonei os verbos: ação – e ele me imitou: vento.

Caldo quente quando peixe sonho vida ano campo cria muda paralelepípedo desencontro morte diva condado ás hipócritas tróia eco frio charme lenço deus dama xadrez puta tempo – interrompemos a ciranda alucinada em torno da mesa e nos olhamos cansados. Ele queria que eu estivesse decepcionado, acreditando que as palavras não moviam nada, mas continuava sério. Sei que as palavras não movem, respondi com meu olhar, mas ainda assim falamos. E aguardei a sua tacada: rosa – será que ele se referia ao meu conto? Fiquei sem palavras por alguns segundos e revidei: fim.

Não sim – me olhou, meu lance foi de um taco-forte, ele ficou em sinuca e repetiu a tacada: não – e eu: léu.


– Boa noite. Outra luz se acendeu na sala de jogos.

Tudo parou.

Nilton voltou-se para mim, para a mulher que entrava, para mim novamente e disse esta é ana, minha mulher.
Ana não me reconheceu, mas nilton percebeu que só recuperaria o sorriso quando eu não estivesse mais ali.

Eu iria apertar a mão de ana, mas resolvi dizer outra palavra. E ele me olhou cego, falou-me mudo, ouviu-me surdo, até perder todos os sentidos, quando eu disse a palavra que não existia em nenhum dicionário do mundo e as esferas sobre a mesa se deslocaram, se buliram suavemente, e a bola vermelha inventou uma caçapa por onde caiu como
uma maçã.

sábado, 14 de julho de 2007

quinta-feira, 21 de junho de 2007

La vie c'est comme une dent

É a segunda tradução de faço desse poema de Boris Vian:

La vie, c´est comme une dent
D´abord on n´y a pas pensé
On s´est contenté de mâcher
Et puis ça se gâte soudain
Ça vous fait mal, et on y tien
Et on la soigne, et les soucis
Et pour qu´on soit vraiment guéri
Il faut vous l´arracher, la vie.

A vida, isso é como um dente
No início a gente nem liga
Come contente e mastiga
Depois se gasta de repente
A dor vem, mas não é urgente
A gente cuida, busca uma saída
Até que ela volta mais aguerrida
Aí preciso arrancar isto, a vida.

Acabei mexendo nele de novo por causa de uma invenção para a Oficina Literária do Texto Território. Digam aí o que acharam.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Página em construção

Estou tentando montar uma página pessoal. Digam o que acharam.

Poesia - anos 70

Fiz semana passada uma resenha do livro Noite Americana Doris Day by Night, de Ronaldo Werneck. Logo será publicada e eu mando notícias. Este é só para colar pedaço que sobrou. Idéias a se discutir:

A poesia doa anos 70, especialmente a dos pós-tropicalistas e a da chamada geração mimeógrafo, ainda carece de uma avaliação crítica que supere um tradicional procedimento comparativo e dicotômico, insuficiente para compreendê-la e largamente difundido entre o senso comum. Segundo essa tradição crítica, a poética de então abandona a dureza do verso, herança cabralina, ou recusa o rigoroso exercício experimental que tem na poesia concreta apenas uma (a de política literária mais influente) das tendências que antecederam aquela década. Ao contrário dessa leitura, pode-se entender que há outra espécie de rigor e esmero no verso que escolhe andar junto ao acaso, como se fosse a única forma (a mais verdadeira pelo menos) de a poesia mimetizar a vida. Contrariamente ao que se pode pensar de uma poética de vocação menos formalista, o verso que está à mercê do acaso é a forma mais original, porque primeira, de realizar aquela utopia poética do distante Beneditino bilaquiano: a trama que disfarça o emprego do esforço (paradoxalmente, para alguns poetas do período, realiza-se como o fingimento da dor pessoana, ou seja, disfarça tanto o esforço que de fato não emprego o esforço). Formas (e não fórmulas) constituem o diferencial que faz com que a poesia dos anos 70 reate com o modernismo de 20, unindo as duas pontas de um período que, então, apontava para o esgotamento. Depois disso, o ascetismo – o poeta abandona as ruas e vai direto para as Faculdades de Letras do Brasil.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Máquina de escrever

Criança, ainda, ia para o trabalho de meu pai. Uma seção burocrática do há muito extinto MIC - Ministério da Indústria e Comércio. 6, 7 anos e nada a fazer naquela sala enorme. Até que descobri a máquina de escrever. Catamilhava as teclas e escrevia meu nome. Depois passei a atacar a remington 22 de minha irmã, que na época fazia curso de datilografia. Ali nasceram algumas histórias que não lembro mais se aconteceram ou não.

Sinais

O que Diderot e d'Alembert não sentiriam se navegassem na Wikipedia? A utopia do conhecimento geral parece estar se realizando. Enciclopédia ciclóptica.
E Thomas Morus, entraria para o Orkut? O espaço virtual parece manifestar-se como utopia literal. Ágora plena, que contraditoriamente esvazia a praça dos corpos. Compartilhamento ensimesmado.
Uma espécie de flash mob nem tão recente assim: no memsmo dia todos vão esquecer discretamente um livro nalgum banco de praça, praça de shopping, mesa de fast food, assento de ônibus, balcão de crediário, ou outro lugar que os iguais possam compartilhar sem se conhecerem. Sintoma do tempo em que emprestar livros era uma forma de afeto. Ou de antes ainda, quando as letras precisavam de pedras ou paredes de gruta para se gravarem. Agora elas andam por aí, demoduladas e moduladas. Sinais.

Literatura Marginal

- para o Renato Bruno -

Vejo a outra margem se aproximar. Não a curtição arembepe woodstock posto nove navilouca. Também não a onda viagem bode dos que souberam fazer bom uso do desejo do excesso do sexo e já quase todos não estão aqui para perder mais. Modernidade, nada melhor que ser maldito.

Vejo a outra margem se aproximar. Não os que souberam rezar na cartilha da maldição inventores diluidores lançadores de moda gladiadores da doxa poundiana.

A outra margem. Não a de malditos. A que não cabe no centro a vergonha o gregório o pataca e o vidigal o lima bem bêbado o meio fio travesseiro último do geraldo na lâmina-mão da satã e o roberto sem erasmo e os filhos do francisco e os netos do buarque as relíquias do brasil de novo e sempre, que o recalcado nunca pára de assombrar. E o lulalá.

A outra margem. A que os bons malditos fizeram por onde banir a da vergonha a apagar da história a dos que conjugam por cima dos panos e abaixo do equador todos os modos e tempos do furtar e do foder os que descobrem a si e desnudam as nossas vergonhas.

Vejo a outra margem se aproximar. E não há de se vender e não há de senquadrar e não há de sembonecar república temporã com o perfume das francesas e não há de se lapababelizar numa esquina esquiva da joaquim silva.

Vejo a outra margem se aproximar. Escreve aí, galera, e grafita e publica põe as idéias no lugar que a musa topa traz o bodum a bíblia no sovaco traz a metraca a larica a merda a céu aberto trava o cão crava os dentes come os homens. E vê se escapa da manchete assustada do jornal nacional.
(27/05/2006)

Carioca - faixa 1

- para a Vand -

Gostei de ouvir os acordes do choro-canção. Também os queria. Mas não deixa, da mesma forma, de ser foda e falso ainda pensar a cidade assim dividida em duas. A cidade partida ficou estilhaçada e (re)parti-la em dois só é vocação racionalista e ordeira. Dessa ordem binária que se nos entranhou desde a canção do exílio: vamos mapeando nossos cá e lá internamente, como se pudesse ser saudosa a velha belíndia.

Não me parece ser mais assim. Há segregação dentro da segregaçãodentrodasegregação. E está tudo aí: enumeração aleatória produzidas em retinas arrombadas mais para carioca do que para subúrbio. Mas manteremos a circunspecção enquanto as balas do exílio mandam para o outro lado policiais, favelados e o vizinho. Repetiremos ainda não é comigo, como naquele filme de Mathieu Kassovitz, O ódio. São Paulo, por exemplo, de novo na vanguarda, armas na rua e celulares nas prisões. Dessa vez foi menor o silêncio sorridente. Mas os cariocas ainda podem dizer "até aqui tudo bem".

Mas volto aos acordes do choro-canção. Em busca do paraíso perdido, do tempo da delicadeza. Tenho uma amiga, chamada Amélie Poulain, que lançou a campanha "Amélie Poulain para a presidência" (não a minha amiga, mas aquela da Audrey Tautou, embora às vezes elas sejam as mesmas). Ótima idéia. Só falta chegarmos ao consenso de que a vocação humana não é sonhar só, mas realizar os sonhos coletivamente. Há outros sonhos na faixa 2.
(30-05-2006)

Rosebud

Balbucio. Toda última palavra de moribundo.
Lembro um trecho de Roland Barthes: "Ao falar, não posso usar borracha, apagar, anular; tudo que posso fazer é dizer 'anulo, apago, retifico', ou seja, falar mais. Essa singularíssima anulação por acréscimo, eu a chamarei de 'balbucio'".
Ou das vantagens de só existir por escrito.

12 anos

Para o Pedro Miranda

Impasses que a obra de Chico Buarque não pára de impor.
Pensei bem e acabo concordando: pipoca é a melhor escolha, talvez a única. Diz mais com o que não diz. Diz da rima sugestiva, diz da história e da cesura, diz de um modo nelsonrodigues de lidar com o erótico-pornográfico, diz de dentro do modernoarcaico complexo que é o Brasil.

Queria escrever sobre "coisa com coisa", mas ouvi-lo é melhor que ler sobre ele. Só adianto: o melhor CD de samba que ouvi nos últimos tempos foi o "samba é minha nobreza". Acho que é aquele projeto a cartilha do "coisa com coisa", que vai ocupando o segundo lugar em mim. Tipo acertar na mosca do samba que eu quero ouvir/re(des)cobrir.

Salve Wilson das Neves e Paulo Cesar Pinheiro!
(21-06-2006)

Teresa Cristina e Grupo Semente cantam (e são) Chico Buarque

para Leinimar

Belíssimo show. O repertório afeta por si, mas a interpretação o transforma, redimensiona as canções, e afeta mais e diferente. Senti (e tento compreender agora) dois afetos: um, o da composição, já cristalizada no sistema nervoso, incorporada ao repertório do ouvinte, tipo alicerce do inconsciente (coletivo, no caso de Chico Buarque); outro, o das cores, do movimento e da emoção que surgem de dentro da voz de Teresa Cristina. Exemplos não faltam: a sobriedade com que toca as alturas e encorpa o refrão de “Estação derradeira” (nesta o arranjo das cordas é uma história à parte, de quem é o arranjo?); a dignidade com que sustenta a inocência da mãe do “Meu guri”; a divisão diabólica que ela e Pedro Miranda contracantam em “Biscate”, são só alguns dos pontos altos.

As melhores homenagens que se prestaram ao compositor foram as em que os intérpretes “falaram” sobre suas canções, sem cair na ingenuidade de achar que se pode deixar a obra falar por si (então não se deve perder também Cida Moreira e um pouco do Oswaldo Montenegro, coisas bem diferentes entre si, que falam de Chico). É nesse sentido que fragmento três imagens do meu afeto no show:

1 – Antes de provocar com uma interpretação sensual (como deve ser!) de “Sem fantasia”, ela conta com humor de quando não entendia bem a censura paterna se ela cantava, menina distraída, versos como “dia útil ele me bate, dia santo ele me alisa”. Habilmente, a cantora, com essa “despretensiosa” historinha, tira de si e de um lugar íntimo do Brasil (das mulheres do Brasil, dos subúrbios do Brasil), outra personagem buarquiana.

2- Mulher, negra e suburbana, à frente de pandeiro cavaquinho e violão de músicos escolados, todos com jeitinho zona sul. O grupo e a cantora são possíveis como personagens fortes da cena cultural brasileira, porque são de uma geração cujo imaginário foi também e bem nutrido pelas canções de Chico Buarque. E independentemente do show e da homenagem, “Teresa Cristina e o Grupo Semente” podem ser um evento de alguma utopia social brasileira que, se há desde Ismael/Noel, ou do Opinião, chegou até nós filtrada pelo cancioneiro de Chico Buarque.

3 – Finalmente: para pôr mais lenha na fogueira da discussão entre ser sambista x ser cantor de MPB, é obrigação de quem quiser entrar nessa briga, ouvir Teresa Cristina cantando “A história de Lili Brown”, de preferência com o sax especialíssimo de Marcelo Bernardes.

Quem não viu, veja!

Vai saber...

Para a Adriana e Marisa, agradecido

Trabalho: releio palestra do poeta Ferreira Gullar na UFJF, para livro que sai em breve. Transcrevo um trecho:

"Não havia o poema, mas ele foi feito e passou a fazer parte da vida das pessoas, passou a fazer parte do mundo. Existe o cosmo, as estrelas, os planetas, os satélites, mais o quadro que o Van Gogh acabou de fazer. Um poema de Drummond é uma coisa a mais na vida, com a diferença de que, enquanto a galáxia não fala nada, o poema nos fala, nos constitui porque fala de coisas humanas e ajuda a compor o universo humano, do qual necessitamos para viver."

Muito bom. Concordo porque sinto:

1 - É por isso que muitos poemas, quadros, canções alheios hoje são meus, porque integram esse universo humano que componho através deles.

2 - Minha última incorporação: "vai saber", de Adriana Calcanhotto, gravado pela Marisa Monte. Ficou melhor o universo ao meu redor depois desse samba.
(05-07-2006)

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Clarice

--- Para a turma de Português IX ---

E porque não cabe o mundo aqui, remanso. Decanto a leitura por fazer, queda sem chão, ânsia insignificância da única chance, solércia da letra, franja entre a fala e o canto, memento mori em que começa o cabelo branco, átimo entre a inércia e o câncer, trizquexaspera, o que não foi convidado mas fica e contenta e dispensa o que explica, o NÃO que se diz (que sempre se diz) ainda quando se dá a mão-esmola no sinal, ressurreição sem morte, certeza infame: ninguém sabe nem cala o que funda esse abismo poço sem fundo ímã de húmus, máquina de sonhos que esfarrapa o cogito e esgarça o svm.
E porque não cabe o mundo aqui, descanso. Deponho as armas onde explode o silêncio. (07/07/2006)

Detran

--- Para Maura ---

I

Sinal de apito
(Carlos Drummond de Andrade)

Um silvo breve: Atenção, siga.
Dois silvos breves: Pare.
Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna.
Um silvo longo: Diminua a marcha.
Um silvo longo e breve: Motoristas a postos.
(A esse sinal todos os motoristas
tomam lugar nos seus veículos para
movimentá-los imediatamente.)

II

E quebro porque impreciso. E requebro e danço e freto desatinos ao futuro.

Por que duro, por que neutro, por que impávido colo impassível osso o flerte com o destino?

Atravessa o ritmo domado. Desarma o istmo do medo. Arrisca mais, que o porvir não é um vermelhovintessete e só um grande NÃO pode abrir muitos sim-talvezes.

E duro porque quebro. E amarelo e agradeço e aconteço ao sonho do compasso. Por que preciso, por que incisivo canino na artéria da vida, corda no pescoço do verbo?

Vaga por desprecisar de fio. Sai do trilho, rapa do trânsito. Petisca o de dentro do mistério, que é sincero o amparo dos vãos e afeuosos os braços que esperam

do outro lado do salto.

Mário Quintana

Umas coisas que disse ao telefone para a Fernanda Fernandes fazer matéria na Tribuna de Minas (30/07) por conta do centenário do poeta:

Em textos do próprio Quintana, a poesia é colocada como algo dramaticamente emocional. Ele se destaca em formas como o hai cai e o epigrama, que funcionam como explosões dramáticas.
Antes de conversar com a reportagem, Alexandre questionou seus alunos sobre o poeta e constatou que muitos sabiam de cor poemas de Quintana. O professor acredita que muito desta popularidade se deve ao tom prosaico. No entanto, Alexandre pondera que o forte apelo nem sempre acerta na construção de uma linguagem poética. Para ele, há rigor poético nos versos de Manuel Bandeira, porém o mesmo não acontece em Quintana, cuja obra é estável, oferecendo o mesmo tipo de poesia do começo ao fim. “Acho que ele deveria ser mais lido em sua prosa, nas pequenas reflexões que produziu para a imprensa. No entanto, ele é quase sempre lembrado como poeta.”

Zuzu Angel no Cinema

Mais importante do que assistir ao Zuzu Angel, talvez seja prestar atenção à fala da garotada que sai do cinema.

Longe de ser uma obra de arte, o filme vale pela produção de memória. Há episódios vergonhosos de nossa história que merecem, a despeito do tratamento romântico e folhetinesco que sofrem, ser revistos sempre. Houve, há algum tempo, Olga e, agora, este Zuzu Angel parece padece do mesmo mal: a construção de uma imagem infantilizada do militante da esquerda. É a falta de jeito para o impulso erótico ou afetivo, para o pathos motor do personagem folhetinesco, que o desqualifica diante do público novelesco. No caso do filme que estreou neste fim-de-semana, um agravante: a forte imagem cazuza, que o ator Daniel Oliveira agregou e fez pouca questão de descaracterizar, sem falar do conflito mãe/filho que remete à também recente biografia filmada por Sandra Werenck e Walter Carvalho. Uma imagem compõe a outra na aparência, mas são no fundo bastante opostas: o projeto revolucionário dos 60/70 não pode ser comparado (nem subliminarmente) ao make it yourself dos 70/80. A abertura com "Dê um rolê" (Moraes e Galvão), cujo arranjo ficou deslumbrante, apenas comprova esse desajuste de foco histórico-cultural.

Mas nada disso me interessa agora. Pasmei foi com os comentários dos meninos e meninas que saíam do cinema: quase incapazes de distinguir o filme a que assistiram de um Batman ou qualquer outro justiceiro hollywoodiano. Não por se demonstrarem insensíveis à violência física, à da tortura e do assassinato, tão bem representadas no filme, isso já era de se esperar. O que é pior: estão ANESTESIADOS PARA A INJUSTIÇA e alheios aos engodos do poder - a cena chave do filme é a do julgamento que o tribunal militar faz de um morto.

Queria agora poder contratar uma pesquisa para catalogar por faixas etária e sócio-econômica a reação que os espectadores de Zuzu Angel manifestam diante das atrocidades políticas que o filme recorda. Na falta disso, intuo, sem perder da memória um artigo de Karel Kosik (O século de Grete Samsa: sobre a impossibilidade do trágico no nosso tempo - http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/arquivo03.htm),
intuo a indiferença e o cinismo com que Grete Samsa varre da memória o inseto-irmão morto. Prestemos atenção no que dizem, que pensam, que falam, o fãs do Big Brother e analfabetos da novilíngua. Talvez isso nos leve à intranquila conclusão de que a hegemonia do capitalismo neo-liberal e "democrático" não deixa nada a dever ao nazi-fascismo. E que faz pouca diferença se as ALTERNATIVAS são minimizadas como caprichos de um filhinho-de-mamãe ou caladas na escuridão do mar.

Ato falho da professora de grego

Letícia cadastrou
Sua alegria no Letes.

Virem video

Não saio do silêncio como deixam a casa as coisas furtadas. Perdi o susto e atabalhoei a língua, gago infinito.
Sempre fica noutro lugar o edifício demolido.
Emprenham a memória os posts que não postei:
e férias em paraty-trindade e colóquio e teses e reuiniões e arguições e bancas e revisões que pensem que digam que falem que fui seguido por tantos olhos num só, oswaldo felipe bárbara daniel, que talvez virem vídeo esses meses em branco. (09/11/2006)

Banca

- para André Rangel Ramos -

E não saber o que se sabe. Aprender sempre. Duro este sempre sem magister - só a vida pela frente e os companheiros de liberdade (o regime é semi-aberto): sair de si para ir ao trabalho - compartilhar o pão do ensimesmamento, uma vígula aqui, uma rima acolá - lágrima maldisfarçada. Além o riso dos padres e a desconfortável sensação de que nunca me abandonou a escolástica (ou nunca a abandonei?). Meio ossos do ofício quando não vem à tona louco a se (in)dispor - mão no caldeirão da cultura - a dizer que não se sabe. E cantar e pular e dançar como um Deus. Não estes que, ex-machina, sobem à cruz, põem banca. E nos condenam ao amor agradecido e rancoroso dos maus fiéis.
Não saber o que se sabe. Aprender sempre. Dura este sempre.

PS: Este tirei do caderno, datado 30/08/2006. Não sei porque não passei antes. Depois li Kant em coma . Quem não leu, deve. Achei que tinha alguma coisa a ver. Daí dedico. E logo vira senha.

Monsuetudine

- para o Oswaldo e a Wal -

assim mesmo
sem curvas metafóricas
filosofia mera rasa alcova. educação começa entre as
pernas. evitar a dor, jamais. evitar a rima é muito mais

assim mesmo
sem retrato do cabral
cura epicurista nó molhado. certeza de dar o beiço no
morfeu. se há samba foi a vida quem nos deu.

assim mesmo
sem pesar na peneira
cosmogonia de cabras. é dar no couro e salvar a
tela. no batuque do silêncio o farrapo da intriga

assim mesmo
a negra lira
a entrega sem emprego. sonho de comer boceta de óleo sobre
pele. o solo da batucada nó na madeira
dó de peito
nó na garganta
espécie inofensiva de de toma que o filho é seu de cócoras

assim mesmo
sem logos
assim mesmo
sem mitos
assim mesmo
sem epos
assim mesmo
no pau
assim mesmo
no pé
assim mesmo
essa mulher

assim mesmo (abocanhada)
assim mesmo (descacetada)
assim mesmo (desintegrada)
assim mesmo (naviloucada)
assim mesmo (atomizada)
assim mesmo (esfomeada)

cosmicaos

não se apavore
é só morar na jogada


Aquecimento Global

Os mais preocupados hoje indagam: "Como se conservará o homem?" Zaratustra, porém, foi o primeiro e único que indagou: "Como se superará o homem? (Nietzsche)

Demasiado Humano

Se aquela coisa tivesse durado mais um segundo, o polícia estaria morto. Imaginou-o, assim, caído, as pernas abertas, os bugalhos apavorados, um fio de sangue empastando-lhe os cabelos, formando um riacho entre os seixos de vereda. Muito bem! Ia arrastá-lo para dentro da caatinga, entregá-lo aos urubus.

Ainda faltava, então, um golpe final. Um golpe a mais? Eu não a olhava, mas me repetia que um golpe ainda me era necessário – repetia-o lentamente como se cada repetição tivesse por finalidade dar uma ordem de comando às batidas de meu coração, as batidas que eram espaçadas demais como uma dor da qual eu não sentisse o sofrimento. E não sentiria remorso. Dormiria com a mulher, sossegado, na cama de varas. Depois gritaria aos meninos, que precisavam de criação. Era um homem, evidentemente.

Até que – enfim conseguindo me ouvir, enfim conseguindo me comandar – ergui a mão bem alto como se meu corpo todo, junto com o golpe do braço, também fosse cair em peso. Fixou os olhos nos olhos do polícia, que se desviavam. Um homem. Besteira pensar que ia ficar murcho o resto da vida. Estava acabado? Não estava. Mas para que suprimir aquele doente que bambeava e só queria ir para baixo? Foi então que vi a cara da barata. Ela estava de frente, à altura da minha cabeça e de meus olhos. Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira e insultava os pobres! Não se inutilizava, não valia a pena inutilizar-se. Guardava a sua força. Por um instante fiquei com a mão parada no alto. Depois gradualmente abaixei-a.

Vacilou e coçou a testa. Havia muitos bichinhos assim ruins, havia um horror de bichinhos assim fracos e ruins.

Interações

Dependência total da escrita. Por outro lado, ainda aprendo a lidar com o suporte digital. Blog em especial. Já abri alguns e abandonei todos.

Acho que agora começo a entender. Nunca gostei de diários, mas sempre tive cadernos de notas. Algumas impublicáveis de tão... furiosas, ruins?. Talvez eu abandone de vez o caderno e aprenda a acalmar de primeira as notas furiosas. Ou não. Além do mais, hospedado no TextoTerritório, as coisas ficam mais do meu jeito.

Aqueles textos iam direto pra gaveta ou viravam poemas e contos que tinham o mesmo destino, depois de lidos por dois ou três amigos, no máximo. Hoje em dia, um texto mal se acaba e já vai para o blog, já é público. A noção de acabamento que orientava a publicação impressa foi muito transformada. Fica tudo rápido demais, e transitório quase sempre. As interações com o leitor também são outras. Às vezes penso que post pode se tornar um novo gênero literário.