segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Os acordes dissonantes e os imbecis

Que os intelectuais fossem os vigilantes, que alertassem, que interviessem no fórum era fundamental nas sociedades dos séculos XVIII e XIX, quando o fórum era muito pequeno, quando a liberdade de imprensa era reduzida. Voltaire tomar a palavra era decisivo. Quando o sufrágio universal não se realizava, que um escritor de renome falasse em nome dos esquecidos, dos sem voz era decisivo; (hoje) existem muitos grupos que tomam a palavra. Não há déficit de tomada de palavra em nossa sociedade. Existe, sim, déficit de compreensão. Ora, a vida intelectual concebe-se sempre como se ela fosse definida pela função de resistência, de tomada de palavra, de alerta. Mas ela se esquece de que seu verdadeiro trabalho é o trabalho da análise, de compreensão da realidade.

(Rosanvallon, Pierre. Le monde diplomatique, maio, 2006. Apud: Novaes, Adauto. "Intelectuais em tempo de incerteza" In: O silêncio dos intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 11)

Os livros ainda são mais cômodos?

"A indústria editorial distingue-se da de dentifrícios pelo seguinte: nela se acham inseridos homens de cultura, para os quais o fim primeiro (nos melhores casos) não é a produção de um livro para vender, mas sim a produção de valores para cuja difusão o livro surge como instrumento mais cômodo." (ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1998, p. 50.)

Pergunto: Os livros ainda são mais cômodos, ou nós os fazemos mesmo para vender e não para difundir valores?

terça-feira, 10 de junho de 2008

Ódio consolador

"Um padre que fora feito prisioneiro levou um órfão alemão para o centro. Ele o segurava pela mão, orgulhoso, explicava como o encontrara e que aquela pobre criança não tinha culpa de nada. As mulheres olhavam com maus olhos. Ele já se arrogava o direito de perdoar, de absolver. Indiferente à dor, à espera. Permitia-se perdoar, absolver, ali, imediatamente, ato contínuo, sem ter a mínima noção do ódio que imperava, terrível e bom, consolador como uma fé em Deus." (Marguerite Duras: A dor)

domingo, 8 de junho de 2008

15 anos da Adriana

Da esquerda para direita: Jandira, Padre Sebastião, Adriana, Sebastião, Izildinha e eu (Vand)

terça-feira, 13 de maio de 2008

Cosmologia do impreciso - orelha

É no próximo sábado, 17, o lançamento de Cosmologia do impreciso, o quarto livro de poemas de Oswaldo Martins (na verdade é o quinto, se contarmos o primeiro, e inédito, Lapa).

Escrevi-lhe, com muito gosto, a orelha:

Viver não é preciso. A poesia de Oswaldo Martins porta esse lema dos antigos argonautas por princípio. A partir daí o poeta provoca a percepção dessa imprecisa (e humana) condição, através de mapas afetivos e mordazes, poemas-instrumentos para a navegação do leitor em meio aos valores culturais e morais da herança ocidental, versos com a precisão digna dos cosmonautas de hoje, pois navegar é preciso.

Mas há que se compreender a natureza da precisão nesse intenso e sofisticado trabalho. O poeta recusa, também por princípio, certa tendência mais formalizante, que costuma associar a precisão e a contenção do verso ao ascetismo da poesia. Na mão de incautos, poesia acaba sendo “verso, noves fora zero”. E a vida, mote-mor do humano, e por extensão da poesia, fica menor. Contra isso, mas sem cair no panfleto nem no prosaísmo, prezando o melhor da condensação poética e o mais vital da existência, como um admirador confesso de Bandeira, Oswaldo Martins é provocador com seus poemas.

Desde seu primeiro livro, Desestudos, e reafirmado no segundo, minimalhas do alheio, o intenso jogo dialógico é motor para a poesia de Oswaldo Martins. É um desafio para o leitor desfiar os intertextos que cada poema instaura, não só com a literatura, mas também com a pintura, o cinema, a música, e toda forma de arte. E isso sem hierarquizar o erudito ou o popular, o nacional ou o estrangeiro. O que coloca o poeta num lugar ideologicamente privilegiado e intelectualmente livre.

Liberdade fundamental, pois, para além desse vasto diálogo com a cultura, o poeta vem também insuflando a inquietação dos metafísicos. Desde Lucidez do oco, seu terceiro livro, a aporia que cinde o humano em corpo e espírito (seja o santo ou o das luzes), é combatida em nome liberdade e da afirmação irrefutável da vida. Agora, Cosmologia do impreciso consagra e define a cosmovisão da poesia de Oswaldo Martins. A vida e a liberdade (como condição inevitável do homem, para lembrarmos Sartre), são reafirmadas através do erótico, em sua fortuitidade mais (ex-/im-)pulsiva: a buceta, sintomaticamente grafada com u, ratificando o gesto transgressor, a sedição da poesia. “Dobradura-porta/aberta ao absurdo”, como diz o a “antimetafísica das apreciações”, é a buceta, mas também são os quados e livros que “buscam/o que de buceta/são”.A imagem funda um jogo complexo em que as idéias de nascer e gozar, entrar e sair, circulam, do livro para a vida, da vida para o livro. Entre por ali, então, o leitor: pela constatação de que é entre os corpos que a vida se consuma, e que a utopia da poesia, da arte, enfim, é menos alimentar o espírito que tocar esse impreciso viver.


quinta-feira, 17 de abril de 2008

Teoria da Literatura

Revista Cult
Entre julho e dezembro de 98 a Revista Cult publicou uma série de artigos de Ivan Teixeira sobre as correntes da Crítica Literária. Podem servir como um ponto de partida para os alunos.
1 - Retórica e Literatura
2 - Formalismo Russo
3 - New Critcism
4 - Estruturalismo
5 - Desconstrutivismo
6 - New Historicism

E-Dicionário de Termos Literários
Este é um bom lugar para quem precisa se situar melhor nas aulas.

domingo, 30 de março de 2008

No futebol

Vô Eurico e Vó Maria

Na festa de casamento

Frente:
Verso:

Isabelle

Vó Luisa

Poema do Oswaldo para AleMaura

Oswaldo nos brindou ontem com esse poema:

"p/ alexandre e maura

(Oswaldo Martins)

nos vagidos das sementes

celebro-o

corpo

porvir

as vozes perpetuadas

as outras vozes

que se farão ouvir."

sexta-feira, 28 de março de 2008

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Poesia e Vida: Anos 70


Lançamento em Juiz de Fora: 11/03/08. Faculdade de Letras, UFJF. 19:00

cena da sangue no altar da igreja da sé

Na missa pelos 454 anos de São Paulo, Benedito do Pagode, bêbado, invadiu a Catedral da Sé, com uma faca de cozinha enferrujada e um cavaquinho.

A notícia de fato me impressionou. A indiciação mais ainda. Como comete tentativa de homicídio um sujeito que grita "Mata eu, São Paulo. Eu não quero morrer de fome."?

Quer chamar a atenção. E tem motivo para isso. Não, não é só a fome. É o cavaquinho.

Fiz hoje esse poema:

cena de sangue no altar da igreja da sé

Alexandre Faria
numa das mãos faca de cozinha


foi-se infiltrando
o bafo da onça
(benedito do pagode, vulgo Benedito de Oliveira, 45)
e dos famintos
à boa gente de geolhos


desavergonhados mulatos
governadores e conselheiros
(são paulo me fez assim)
papas e papisas
abades e outras bestas

a cuca dos bêbados
o fósforo mole
(mata eu são paulo eu não quero morrer de fome)
o bodum das ruas
imiscuiu-se


(rendido preso indiciado por tentativa de homicídio)


na outra cavaquinho

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Antéchrista

Ceux qui croient que lire est une fuite sont à l'opposé de la verité: lire, c'est être mis en presence du réel dans son état le plus concentré - ce qui, bizarrement, est moins effrayant que d'avoir affaire à ses perpétuelles dilutions. [Amélie Nothomb: Antéchrista]

Antéchrista (2003) é o segundo livro de A. Nothomb que leio. O primeiro foi Dicinário de nomes próprios [Robert de noms propres (2002)] De ambos ficaram isso: por trás de histórias de adolescentes complicadas o real vai sendo cada vez mais intensamente percebido como um abismo de diluições sucessivas (simulacros?) que talvez levem osujeito a experimentar uma vertigem do raso. O ritmo da escrita muitas vezes colabora para isso.

O fato de as personagens serem meninas enfrentando os impasses típicos da adolescência, tentando descobrir/construir identidades, parece-me apontar para um problema de todos que, hoje, possam estar preocupados com a formação/educação de jovens. As tramas revelam (a despeito de uma delas ser biográfica, o que pelo contrário atesta a leitura) que ocorre não o eterno "conflito de gerações", nem uma "revolução juvenil" como a dos anos 60, mas uma mudança paradigmática nas condutas para a qual é urgente uma (nova?) ética.

Resta saber se são significativas, para se pensar essa profunda mudança de paradimas, as opções estéticas de Nothomb. As narrativas tendem à valorizar demais o drama interior das personagens, mas nisso não podem ser bem sucedidas devido não a superficialidade da questão (que não seria empecilho), mas o ritmo da prosa. Em contrapartida, a opção pelo drama interior sacrifica certa ironia social, que a despeito de ser pouco incisiva, existe e me parece o melhor gancho para leitura dos dois livros.