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Caju

Caju é minha fruta predileta. E nunca o tinha visto com esses olhos. Grande Vinícius! Aqui ele mostra como pode ser fácil o materialismo racional cabralino, se a poesia se limitasse a isso (o que não quer dizer que o Cabral sempre a limite a isso). Mas não: surpreende com virilidade e sarcasmo: Soneto ao caju (Vinícius de Moraes) Amo na vida as coisas que tem sumo E oferecem matéria onde pegar Amo a noite, amo a música, amo o mar Amo a mulher, amo o álcool e amo o fumo. Por isso amo o caju, em que resumo Esse materialismo elementar Fruto de cica, fruto de manchar Sempre mordaz, constantemente a prumo. Amo vê-lo agarrado ao cajueiro À beira-mar, a copular com o galho A castanha brutal como que tesa: O único fruto - não fruta - brasileiro Que possui consistencia de caralho E carrega um culhão na natureza.

Os leões no tempo

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Clarice e o leão(zão) da Partimpim (6-2-11) Alexandre e o leão(zinho) do circo Vostok (ou do Orlando Orfei?). 1973? mais ou menos.

Se oriente - v. 1

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Confissão de fé

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Tem um formato especial e por isso tive que salvar como imagem. Mas acho que dá pra ler. É só clicar na imagem e apertar ctrl + que o browser amplia.

Moonlight serenade

Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=n92ATE3IgIs Para cantar: Mar, grande mar Belo espelho da luz das estrelas Você, quebra mar Minha onda de amor contra o seio Depois do anseio Enleio no leito ao luar Bar é o lugar De contar como somos felizes Daqui ouço o mar Por mais longe que ele esteja Me beija de leve Azul, serenata ao luar Mas se o destino rir de mim E armar mais solidão Vou pra beira mar chamar você Pro canto do mar te devolver pra mim Mar e luz, mar e céu Mar e lua crescente Estrela no adeus Faz com que tua luz me proteja Me beija de leve Azul, serenata ao luar (M.Parish - G.Miller Versão de Aldir Blanc)

Gosto dos meus

GOSTO DOS MEUS e não puxo o saco dos teus ou daqueles outros formidáveis 'eus' em frenética comunhão de sestros íntimos especulados em santa imagem alheia e prostituída Gosto dos meus do meu tempo do meu cio do meu ócio do que não fiz prezo imensamente minha não-realização milagrosa minha inércia extraordinária merecedora da minha mais profunda reverência embevecida Gosto dos meus do meu vazio do meu nicho ínfimo do meu vinho derramado que pundonorosamente não embriaga santos nem perturba o fastio de qualquer douta inteligência generosa ou desabrida Meu vício é só e lícito e não atende a domicílio Meu vício é gostar dos meus e do nosso tempo dado de Graça às musas do ante-parnaso do por acaso do azo de não querer nada que não seja somente por graça... (e não é senão essa a...

...: Palavra do fim da primeira década do século do futuro.

A história tá bem contada e fotografada aqui: ...: Palavra do fim da primeira década do século do futuro.

Sarau no Alemão

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Fechado pra balanço

Tô fechado pra balanço Meu saldo deve ser bom Tô fechado pra balanço Meu saldo deve ser bom Deve ser bom Um samba de roda, um coco Um xaxado bem guardado E mais algum trocado Se tiver gingado, eu tô, eu tô Eu tô de corpo fechado, eu tô, eu tô Eu tô fechado pra balanço Meu saldo deve ser bom Tô fechado pra balanço Meu saldo deve ser bom Deve ser bom Um pouco da minha grana Gasto em saudade baiana Ponho sempre por semana Cinco cartas no correio Gasto sola de sapato Mas aqui custa barato Cada sola de sapato Custa um samba, um samba e meio E o resto? O resto não dá despesa Viver não me custa nada Viver só me custa a vida A minha vida contada (Gilberto Gil)

Não dá mais pra Diadorim - em duas versões

DALTON TREVISAN: Otto, Falemos mal do Grande Sertão. Rompe você ou começo eu? La vai em pleno dó de peito: o Rosa é o herdeiro de José de Alencar, epígono do novo indianismo. Seu jagunço pomposo, guardada a distância, o mesmo índio guarani. Riobaldo, um Peri sofisticado, e Diadorim, outra virgem dos lábios de mel (as suas líricas meretrizes são perfis de Lucíola). Um cronista genial, a mão leve de beija-flor, mas – ai de mim – romancista menor. Riobaldo não se sustenta nas alpercatas e Diadorim, coitada, é pura donzela Arabela (“já fazia tempo que eu não passava navalha na cara, contrário de Diadorim”; logo, ela fazia a barba?). Na paisagem naturalista os tipos de um romance desgrenhado. Não é Riobaldo sem veracidade nem grandeza, epa!, que me interessa e sim o trovador do sertão: a gente, os bichos, a paisagem. Que de variações retóricas sobre a sentença de Dostoievski – “se Deus não existe, tudo é permitido”. Como sabe enfeitar de plumas e lantejoulas o seu chorrilho de p...

Para fazer um samba

Parceria com Dú Basconça Para fazer um samba enfim Não basta ter o dom do amor Mas cultivar até o fim De seus versos, o quebrado Da pobre rima, a sina errante A prima e única ante o fado Malsinado dos amantes: Abandonar a mesa farta E o corpo num sofá distante Não basta dar o tom, amor Para virar noites assim Quando os boêmios tomam rumo E vão dormir as meninas É sobre o sono desses justos Que vibram bordões e primas A debochar dos que procuram Outros motivos para a dor Não fosse ele o primeiro e último Não fosse para sempre e só o amor Do samba E esta alegria de dizer sim Ao dia... ao dia que já raiou

Nobody Home (Roger Waters)

I've got a little black book with my poems in I've got a bag with a toothbrush and a comb in When I'm a good dog they sometimes throw me a bone in I got elastic bands keeping my shoes on Got those swollen hand blues. Got thirteen channels of shit on the TV to choose from I've got electric light And I've got second sight I've got amazing powers of observation And that is how I know When I try to get through On the telephone to you There'll be nobody home I've got the obligatory Hendrix perm And I've got the inevitable pinhole burns All down the front of my favorite satin shirt I've got nicotine stains on my fingers I've got a silver spoon on a chain I've got a grand piano to prop up my mortal remains I've got wild staring eyes I've got a strong urge to fly But I've got nowhere to fly to Ooooh Babe when I pick up the phone There's still nobody home I've got a pair of Gohills boots And I've got fading roots.

La vie

" On fait toujours comme s'il avait quelque chose de plus important que la vie. Mais quoi?" (Albert Camus)

Geraldo Filme - antologia mínima

Negro falava de umbanda Branco ficava cabreiro Fica longe desse negro Esse negro é feiticeiro Hoje o preto vai à missa E chega sempre primeiro O branco vai pra macumba Já é Babá de terreiro Vá cuidar da sua vida Diz o dito popular Quem cuida da vida alheia Da sua não pode cuidar =================================================== Vocês é que nada sabem do que vai pelo sertão Menina quando é bonita é presente pro filho do patrão. =================================================== na hora em que eu nasci mamãe me jogou na pista "se cair deitado é padre, caiu de pé é sambista" =================================================== Na escola de samba aprende a rir, aprende a sofrer, aprende a chorar mas não sabe ler doutor qual o seu destino será? =================================================== Quero ser sambista Ao renascer de novo Pra cantar a alegria E desventura de meu povo Quero ter muitos amigos Como tenho atualmente Cantar samba na avenida E nascer negro novamente ======...

De como ocupar o lugar do morto

à memória de Angelo Colombo se uns mortos nos dão vida vivos há que só assombram nuns a fava a falha do neto que guarda em si um avô fica não no jeito do gesto no traço do resto mas na gíria nos hábitos à revelia no ímpeto da juventude na poesia contra sisos e tinos ganas de abrigar nas salas vip da memória o café com a prosa da cozinha pedras e galinhas do quintal mas jabuti cágado poeta laureado tia rica visita ilustre que toma assento na sala principal estofador faxineira cobrador todo douto que nos adentra quarto e dor vizinho que perdeu a chave a filha mãe de família a quem faltou sal sabão vergonha e fósforo esses nos assombram sem pena até na conclusão do poema

Dois poemas novos

Fetiche (Para a Aline) Amanhã ele vem me frequentar Fou fazer jantinha leve Passo lavo cozinho Ensopo a jardineira E depois... Meu Deus, Você nem imagina Me bate na cara me cospe me goza Mas vou exigir: - Putinha safada não! Putinha safada não! Me chama de Adélia Prado. Circo de horrores Morreram de overdose sim Mas não são heróis ou são Heróis de porra nenhuma Outros já pelos 70 pelas Tabelas ainda vão morrer Nem por isso Meu herói mesmo É o Fiuk - como eu Tem avô mas não tem pai

Road movie

é horizontal este poço: perpassa a história de minha morte é horizontal este poço: estrada sem fundo vértice dos vértices é horizontal este poço: ventríloquo de ventres insaciáveis, consome o caminho, de caminhoneiros e motoristas sem tino - retinas sem luz. é horizontal este poço: horizonte fundo ereto, vertical e sólido rente ao vento do pranto de viúvas, órfãs e irmãs: meigas paisagens de acostamento

Lado B

Balança o Maracá Dança da redenção Raio da vida raiar Fonte a escorrer Rio de transbordar Jorro de alma jorrar Esse ritmo dentro da noite Quando a música e o pensamento Forem um só Forem o Sol (Essa alegria - Lenine) De um novo mundo eu sou E um mundo novo será mais claro Mas é no velho que procuro o jeito mais sábio de usar A força que o sol me dá, canto (Solar - Milton Nascimento) Um dia quero mudar tudo no mundo No outro eu vou devagar, Um dia penso no futuro No outro eu deixo prá lá, Um dia eu acho a saída No outro eu fico no ar, Um dia na vida da gente, Um dia sem nada de mais, Só sei que eu acordo e gosto da vida Os dias não são nunca iguais! (Bom dia - Swami Jr / Paulo Freire) Quero viver a vida Ir pra avenida com a multidão Braço e abraço Mão na mão Todo mundo é meu ir... mão Noite ou dia é tudo igual (Alegria Carnaval - J. Aragão e N. Barros) Quem se salva nessa brasa, quem acende um fogo novo Cruza a crise, colhe a calma Alegra a alma desse povo Vive em paz e harmonia...

Só agora vejo crescer em mim as mãos de meu pai

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Mapa Astral

Sinto que o mês presente me assassina Mário Faustino Sinto que o mês presente me assassina as aves atuais nasceram mudas e o tempo na verdade tem domínio sobre homens nus ao sul de luas curvas. Sinto que o mês presente me assassina, corro despido atrás de um cristo preso, cavalheiro gentil que me abomina e atrai-me ao despudor da lua esquerda ao beco de agonia onde me espreita a morte espacial que me ilumina. Sinto que o mês presente me assassina e o temporal ladrão rouba-me as fêmeas de apóstolos marujos que me arrastam ao longo da corrente onde blasfemas gaivotas provam peixes de milagre. Sinto que o mês presente me assassina, há luto nas rosáceas desta aurora há sinos de ironia em cada hora (na libra escorpiões pesam-me a sina) há panos de imprimir a dura face à força de suor, de sangue e chaga. Sinto que o mês presente me assassina, os derradeiros astros nascem tortos e o tempo na verdade tem domínio sobre o morto que enterra os próprios mortos. O tempo na verdade tem domínio, amen...