domingo, 18 de março de 2012

Promessa de presente

para Julio Diniz, hoje
à memória de Ericson Pires, sempre

Promessa e presença. Há uma canção de Caetano Veloso que articula brilhantemente esses dois termos. Diz a letra: "a tua presença mantém sempre teso o arco da promessa". A alusão bíblica é recorrente. Mas a maneira como o compositor a elabora parece bastante singular. Transgressora em relação ao senso comum que, até mesmo por inspiração religiosa (ou metafísica), concebe a vida como promessa do que está ausente. Ignora a evidência da presença e compreende a realidade através de ideias, projeções. Deus, essência, verdade, beleza etc. Promessas.

Outra canção famosa exemplifica bem isso: tudo viver a teu lado com o arco da promessa no azul pintado pra durar, diz o amor de índio de Beto Guedes. O arco da promessa garante a duração. É a promessa de quê? De futuro, de eternidade, de um tempo-espaço onde caiba o tudo a viver. Eis a fenda por onde a ausência se infiltra. Amar o sonho, mais que a vida. O amor mais que o amado. A presença vira objeto da promessa. Assim o é também no mito de Noé: veja o arco-íris e lembre-se do pacto divino. Depois desse, não espere mais dilúvios. O sinal, no entanto, não é presença, sequer manifestação, mas referência, índice. Conectivo entre um mundo a construir por humana e falha fábrica e promessa-esperança de que deus proverá pleno. Proveu? Ah, eterno futuro, como empobrece os nossos presentes!

Mas isso não é um problema das religiões apenas. Talvez só esteja nessa matriz metafísica a origem de um jeito de ser que o cotidiano evidencia. A dieta começa na segunda-feira; a vida melhor virá com a formatura; a felicidade, com a aposentadoria. Cada vez mais sinto que vivemos num mundo de pessoas gordas, tristes e frustradas. Odeiam o que fazem, mas o fazem pela promessa de um devir e se frustram porque (preciso dizer?) não virá. Não assim, como se espera, como se promete. Vida é acaso, imprevisível. Só tolos se precavêm "porque pode acontecer algum imprevisto".

É aí que entra com potência os versos de Caetano. Naquela formulação a presença não é objeto da promessa, mas sua condição. A tua presença mantém sempre teso o arco da promessa. A carga de conotações físicas e eróticas do adjetivo, bem como todas as referências ao corpo em outras passagens da canção, realça a ideia de que a presença é da ordem dos sentidos físicos - pelos olhos boca narinas e orelhas. Mas diferente de um ritual canibalesco e macabro em que se come o corpo e se bebe o sangue para forjar o deus no meio de nós, a presença da canção é alegremente negra negra negra negra, de deuses que dançam, uma celebração tesa e tesuda. E sem ela não é possível qualquer promessa. Há nisso muito que se aprender. Sobre o amor, a arte dos encontros; sobre a saúde, o cuidado dos corpos; sobre o devir humano, a vida como uma forma mínima e digna de habitar o mundo. Sobre a revolução, outra forma de dar as mãos, de prender-se à vida, de olhar os companheiros. Sobre a Utopia, que nunca podemos achar que seja promessa de mundo melhor, mas maneira delicada de compreender e viver o aqui-agora.

Carpe diem!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A luta continua

"Protesto é quando eu digo que algo me incomoda. Resistência é quando eu me asseguro que aquilo que me incomoda nunca mais acontecerá." (Ulrike Meinhof)

"Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, e luta é para uma vida inteira." (Sérgio Vaz)

Um poema de Antonio Machado

Todo amor es fantasía;
él inventa el año, el día,
la hora y su melodía;
inventa el amante y, más,
la amada. No prueba nada,
contra el amor, que la amada
no haya existido jamás.
(Antonio Machado)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Janeiro Poente

Continuo futucando os arquivos. Este vai fazer 20 anos de existência. E a cidade é a mesmo. Leio hoje no Sarau de Manguinhos.



prólogo: Olho D'água

este samba é só porque
minha terra tem primores
mulata palmeira guanabaras
sabiás braços abertos


lado um: VERÃO

me desterro
em tuas águas
e calçadas
tuas veias secas
cicatrizes
do corte de trilhos
e vilas
imersos em janeiro
profundo

me desterram
tuas águas
tuas pás levando
a lama e as ruínas
com que levanto
esta rePresa
de palavras
entre a ladainha eleitoral
e a draga da fé.

teu sangue é água é meu sangue
bebamo-nos
pelos dias que
me tomas
e pelos versos
que te dou
pois se és rio
sou mais


farsa: AVAL

é uma quarta-feira
de cinzas
sem carnaval
tenho um tiro
e uma culatra
e um país que se amassa
como lata de cerveja

reciclável


lado dois: PRESA

presuntos no fundão
putas de ipanema
estupradas no aterro
merda no mar da ilha
do governador
teu comando em bangu um
outro out-door explica:
recuperamos esta rua
durante a noite
para seu conforto
e de teus turistas, rio
que no cio
predam a noite
a madrugada é varada por uma linha menstruada o sol não nasce, o rio se põe, desemboca
em são cristóvão
onde o peão
braços abertos
mãos ao alto
sebastião alvejado
te criva e se curva
ao fRio
de janeiro
fevereiro e março
inverno de 92.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Autoficção paterna


No corredor do Shopping vendedores em camisetas perfiladas estampavam caracteres góticos sobre fundo preto. Parecia a capa de um cd dos Racionais. Uma loja de discos, pensei. Não, sandálias. Todas as cores, figurativas, abstratas, arabescos, florais, customizáveis com a cara do cliente. Sandálias. Tem Engenheiros do Hawaí, perguntei. Não, essa não, a vendedora foi solícita ao negar. Clarice deslumbrava com uma, rosa, das princesas. Quando papai era garoto, falei puxando-a pela mão, meia dúzia de cores de sandália bastavam às sapatarias, e havia lojas de discos. Não liga não, papai, ela tentou me consolar, daqui uns anos eu fico grande e essa distância entre nós acaba. Sorri pensando se de fato, um dia, ela vai sentar comigo, pedir um chopp e chorar suas dores. É filha, não é má a possibilidade de pisar princesas. E fomos pro parquinho brincar.

sábado, 26 de novembro de 2011

Lágrima Palhaça - 25 anos de engavetamento


O poema que está no post anterior, saiu de um livro, também intitulado Lágrima palhaça, que escrevi com 16 anos. Naquela época talvez eu desconfiasse mais de mim mesmo do que seja capaz de desconfiar hoje dos moleques de 16. Junto com o cinza dos cabelos vem certa benevolência complacente. Se isso for algum sintoma do que chamam sabedoria, é sinal de que depois de velho (o que já nasci sendo) e sábio (será?), só me falta ficar chinês.

O livro é um conjunto de poemas que tenta usar o circo como alegoria das percepções de que, então, eu era capaz. Do conjunto apenas dois títulos tornaram-se públicos, em 1994 (?), na coletânea Vida tida linguagem, com poemas e traduções dos participantes da Oficina de Poesia Mário Faustino, no Diretório Acadêmico da Faculdade de Letras da UERJ, sob o comando do saudoso Jorge Wanderley, de Luiz Carlos Lima e de Italo Moriconi (isso tem que ser assunto para outro post). São o próprio Lágrima palhaça, e Encanto e domínio, que segue abaixo.

Penso que para comemorar esses 25 anos do engavetamento de Lágrima palhaça, deveria transformá-lo num ebook e presentear meus amigos neste fim-de-ano. Aguardo nos comentários sugestões e adesão à ideia.

ENCANTO E DOMÍNIO
O encantador de serpentes
Ao som da flauta mágica
Questiona o brilho que sente
De seus olhos na presa da naja.
Pergunta se o encanto tocado
De sua flauta emana
Ou pela cobra é enviado
Indaga se o veneno que divisa
Cria-lhe escama
Ou só a ela humaniza.

A naja, encantada,
Na voz do mito serpentino
Percebe que o bote seria a cilada
Para roubar-lhe o predestino.
Então se amansa em humildade,
Oculta a própria maçã
E oferece a outra face da maldade:
Uma dança enroscada e amante,
Qual irmão e irmã
No encanto ambidominante.