segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Entrevista para Mauro Morais sobre a Exposição "Embate ao Fascismo - 80 anos de Guernica

Saiu ontem, na Tribuna de Minas (http://tribunademinas.com.br/noticias/cultura/15-10-2017/artistas-juiz-foranos-fazem-releitura-de-guernica.html), matéria de Mauro Morais sobre a exposição Embate ao Fascismo - 80 anos de Guernica, da qual participo com um poema. Para a reportagem, Mauro me enviou algumas perguntas, cujas respostas foram bem aproveitadas em seu texto. Publico, aqui, a conversa na íntegra com alguns ajustes.


- De que maneira te toca o "Guernica"?

De uma maneira profundamente ambígua. Sinto que é uma bela obra que eu gostaria que tivesse sido desnecessária. Grandes obras de arte são fruto do que há de pior na condição humana. A "Rosa de Hiroshima" é filha da bomba de Hiroshima. Por outro lado são obras mais do que necessárias, são imprescindíveis. Não só porque fixam a monstruosidade do humano no plano histórico, evitam o esquecimento das atrocidades que preferimos, às vezes, esquecer, mas também porque nos expõem, trazem à tona cotidianamente a consciência do que somos capazes.


- Como percebe a contemporaneidade do trabalho?

Não superamos os impasses e as crises que caracterizam a modernidade. Todas elas estão aí, e profundamente relacionadas à maneira como se ocupa o planeta, à maneira como se estabelecem valores e prioridades para a vida, e à maneira como explora o trabalho. Tudo isso pode mudar superficialmente, mudar de estilo, mas na essência é a mesma condição. O trabalho e a vida, associados às noções de produtividade, competitividade, acumulação, doença e negócio, vale mais do que associados às ideias de sustentabilidade, comunidade, liberdade, saúde e ócio. Enquanto isso não mudar, estaremos na mesma. Nesse sentido a arte e a poesia são contemporâneas sempre e de todos os tempos. São o lugar de resistência, contra a lógica produtivista, e de ressignificação da vida através da criação e do compartilhamento de tempo livre. Parar, hoje ou sempre, para contemplar ou fazer quadros, ler ou fazer poemas, é um ato de insubordinação às demandas do nosso tempo.


- Encontra paralelo entre o fascismo retratado na tela e nossa atualidade?

Não creio que se trate nem de um paralelo entre tempos diferentes. Os bombardeios, as técnicas de destruição em massa nunca deixaram de acontecer e estão cada vez mais aprimoradas. Em Guernica, Londres, Paris, Berlim, Hiroshima, Vietnam, Bagdá, Síria etc etc. Mudam substancialmente os motivos? Não. Tudo foi e é feito em nome da liberdade, da garantia de direitos, da delimitação de espaços, da expansão da fé, ou qualquer história que seja contada e justifique que um grupo se utilize da violência contra outro.


- Seu texto se inicia dizendo que Heinkel sentou-se ao seu lado. Quem são nossos inimigos hoje?

São os mesmos. Mas preferia destacar que o verso mobiliza a maneira como o inimigo age. Heinkel é um dos modelos de avião, da força aérea alemã, usados no bombardeio a Guernica. Assim como Junkers. Mas não são apenas os bombardeiros e os tanques que disseminam o fascismo. Ele chega na mentalidade das pessoas, dos nossos vizinhos, dos nossos colegas, de nós mesmos. Quando vemos, o individualismo, o ódio e a intolerância contra o outro já tomaram conta do nosso cotidiano. Já nos tornamos fascistas quando deixamos de lado a capacidade humana de fazer um gesto fraterno e compreensivo e entramos bélicos nas discussões polarizadas como se de fato existisse um bem e um mal, um certo e um errado, uma posição imbecil e outra inteligente. Quando invejamos os Deuses, porque não se pensam (para lembrar um poema de Ricardo Reis); quando passamos a acreditar mais nas instituições do que nas pessoas, mais nas leis do que na justiça, é assim que vamos nos tornando fascistas. O próximo passo é declarar guerra em nome de uma ideia precária qualquer, como a de liberdade ou de moral. Observe que é sempre em nome da liberdade ou da verdade que cassam a liberdade e a verdade alheias. E é isso que estamos vendo cotidianamente, “nas escolas, nas ruas, templos, mercados” e nas redes sociais, esse espaço que, no poema, chamo “condomínio de algoritmos". A arte é um bom antídoto, mas ela vem sendo sistematicamente perseguida se censurada, vide o recente caso do Queermuseu. Por isso temos que ficar atentos e ativos. Nesse sentido há que se aplaudir de pé a iniciativa da Profa. Valéria Faria, Pro-Reitora de Cultura da UFJF,e de toda a sua equipe, que trabalhou para realizar essa exposição.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Embate ao Fascismo – 80 anos de Guernica


A Pró-Reitoria de Cultura da UFJF convida para o vernissage da exposição “Embate ao Fascismo – 80 anos de Guernica.”
Artistas: André Lopes, Babilônia Pedro Henrique Ferreira, Clara Downey,  Eduardo Borges, Francisco Brandão, Gabi Lemos, Guilherme Melich, Guilherme Portes, Heloisa Curzio, Knorr Jf, Lucio Rodrigues, Luiz Guilherme, Mário Tarcitano, Nickolas Garcia, Nina Mello, Paulo Alvarez, José Augusto Petrillo, Prida de Paula, Ramon Lima Brandao, Renato Abud, Ricardo Coimbra, Ricardo Cristofaro, Thiago Berzoini e Valéria Faria.
Poetas: Alexandre Faria, Anderson, André Capilé , Anelise Freitas, Charles Dias Gonçalves, Darlan Lula, Edimilson De Almeida Pereira, Iacyr Freitas, Oswaldo Martins e Prisca Agustoni.

domingo, 3 de setembro de 2017

As pessoas na sala de jantar 2

Depois de "De dentro pra fora", de Artur Barrio
(Alexandre Faria)
Não há mais pessoas na sala de jantar.
Apenas o poltergeist da televisão.
O tilintar de talheres e
Fantasmas ainda torturam minha carne.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Gravação do I, com Fabrícia Valle

Hoje foi a gravação do livro ''I''. 
O autor Alexandre Faria e a percussionista Fabrícia Valle se encontraram hoje 
no estúdio da Maquinaria em Juiz de Fora para a gravação.







segunda-feira, 5 de junho de 2017

Sérgio Vaz, FLUP, poesia e ética

No último sábado tive a alegria de apresentar, no encontro da FLUP Pensa, o Poeta Sérgio Vaz. Lembrei o surgimento dos primeiros sinais da literatura periférica, que se deram lá se vão mais de 15 anos, entres os quais é inegável a importância e a longevidade da Cooperifa. Sabemos das dores e delícias de promover cultura (ainda mais periférica) no Brasil. Sabemos que o início dos anos 2000 foram mais do que propícios para o afloramento, no solo da sociedade brasileira, as nossas vozes periféricas. Hoje, jogo feito e golpe em curso, não há dúvidas de que as dificuldades são maiores ainda. Por isso, na mesma fala, não pude deixar de elogiar a garra e resistência de meus queridos Ecio Salles e Julio Ludemir, que a despeito da crise e da exiguidade dos recursos, decidem manter viva a FLUP, e contam com o auxílio luxuoso de Bernardo Vilhena e Ramon Nunes Mello, com quem tenho a (e que!) responsabilidade de dividir a banca de poesia.
Terminei a apresentação citando um famoso dístico do poeta, o que - me parece - causou bom efeito e criou abertura para a socialização de sonhos que são a Flup, a literatura, a poesia:
"Enquanto eles capitalizam a realidade
Eu socializo meus sonhos."
Mas como assim? - perguntará o leitor - mas como assim, socializar sonhos, diante de uma realidade tão dura, golpista e capitalista?
Não seria uma doutrina cínica o fato de a sorte dos descendentes e de todos os amigos de um homem não lhe afetar a felicidade? Já essa pergunta, meu caro, está em Aristóteles. Vale conferir a "Ética a Nicômaco".
Quem não conhece Sergio Vaz, não pense que o fará pelas minhas palavras. Vá direto ao "Colecionador de Pedras", vá ao "Literatura, pão e poesia"; vá ao "Cooperifa: antropofagia periférica", e não deixe de ir também ao seu "Flores de alvenaria". Neste último, o leitor encontrará dicas preciosas para aquela possível pergunta.
"Seja feliz", parece que é uma das respostas possíveis na poesia de Sérgio Vaz.
Para explicar melhor por que a poesia, por que ainda e sempre a poesia, cito a seguir dois poemas de Vaz e acrescento - o que já então será totalmente desnecessário - um comentário de Aristóteles:
"O que sinto
não é felicidade,
é desprezo
pela tristeza."
"A felicidade
não faz mais do que a obrigação
em me manter alegre e satisfeito.
Ela tem dívidas comigo."
(VAZ, Sergio. Flores de alvenaria. São Paulo: Global, 2016)
"Com efeito, enquanto a vida inteira dos deuses é bem-aventurada e a dos homens o é na medida em que possui algo dessa atividade, nenhum dos outros animais é feliz, uma vez que de nenhum modo participam eles da contemplação. A felicidade tem, por conseguinte, as mesmas fronteiras que a contemplação, e os que estão na mais plena posse desta última são os mais genuinamente felizes, não como simples concomitante mas em virtude da própria contemplação, pois que esta é preciosa em si mesma. E assim, a felicidade deve ser alguma forma de contemplação." (Aristóteles)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Abraço da UERJ

É hoje o abraço da UERJ!!!!!
Estou no trampo em JF. Não poderei ir. Deixo então aqui uma reflexão para que quem puder vá.
A UERJ foi uma das casas por que passei para me tornar quem sou. Nela fui aluno e professor substituto (na FFP). Me formei e trabalhei para a formação de pessoas e, mais ainda, tenho amigos de diversas áreas que lá se formaram. Não sou tão ligado às instituições, mas às pessoas é inevitável não se ligar. Estou lembrando agora dos vários amigos que tenho e que têm em comum comigo a UERJ. Cada um deles fez e faz diferença na minha vida, cada um deles, à sua maneira, demonstra uma capacidade diferenciada de interferir no cotidiano, de compreender o mundo, de pensar e de RELATIVIZAR.
O descaso com essa instituição que abrigou/abriga, ensinando-aprendendo, esses amigos de que me lembro agora, não é, não pode ser - basta usar a lógica para perceber isso -  resultado de uma crise econômica ou administrativa. É reflexo de uma crise (mudança) de valores sistematicamente programada para empobrecer o espírito dos profissionais capazes interferir no cotidiano da cidade. A negação dos recursos materiais básicos para a manutenção do bem estar nos aproxima da luta mais miserável que a espécie humana experimenta desde sempre, a luta pela sobrevivência.
Por enquanto, ainda somos aqueles que vão para a luta dispostos ao ABRAÇO, porque temos aquela capacidade diferenciada de interferir no cotidiano, de compreender o mundo, de pensar e de relativizar. Minem as escolas e universidades que em breve não saberemos mais reconhecer e compreender os problemas. Teremos apenas inimigos e o nome de Deus.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Alexandre, o Faria - de Carlos Augusto Corrêa

Crônica da coluna Chão de Praça, no Facebook de  5/1/17

                       Carlos Augusto Corrêa

                          Alexandre, o Faria

Ele não é amigo que vejo todos os dias. Ao contrário, fiquei anos sem vê-lo mas um dia fiz contato com Alexandre, o Faria, pelo Face e como nossa amizade não é feita só de escritos na telinha resolvemos matar saudade tendo um encontro num barzinho lá de Higienópolis. E lá fomos. Encontrei Alexandre sorridente e comedido e ao mesmo tempo com o ar bonachão de sempre. Por isso ele me olhou com a mesma cara de amigo dos anos 90. Resultado, aquele abraço, a alegria pela relembrança dos tempos em que eu ainda estava em excelente "forma". Um vê as marcas de expressão do outro, ele bem mais novo do que eu, e sente que as marcas nada significam para a realidade e a permanência de um sentimento. Que tal sentimento espontâneo e sólido não envelhece. Será que as Parcas, essas deusinhas gregas que só sabem governar as horas, sabiam disso? Aliás, elas foram generosas conosco porque nossa expressão facial não está tão marcada assim por elas.
Vejam bem, andei perdendo na vida dois amigos diletos. Andávamos juntos, frequentávamos um a casa do outro e de repente um mal-entendido causou a separação. E para sempre. Doeu muito, sobretudo porque  fiquei catando (não de quatro) o motivo. E se houve, pensei, será que foi o bastante pra desnortear o que ia tão bem e prometia ser forever? Tínhamos quase o mesmo convívio de Serena e Blair. Não foram decerto um calabar do tipo delator premiado, essa versão atualizada do amigo da onça. Mas, insisto, doeu.
Com Alexandre Faria e mais uns raros não foi assim. Ele veio a meu círculo de companheiros, viu e ficou. Garanto que a exemplo de mais uns quatro e cinco Alexandre é Magno como amigo.
Quando o conheci, ele ainda começava a fazer poesia. Talvez já tivesse um livro de poemas, não estou bem lembrado, mas me dava a entender que desejava prosseguir carreira. Muitas vezes o via lendo cabisbaixo, sempre pesquisando, parecia também até estar fazendo uma leitura mais ampla da própria vida, e não só do objeto de pesquisa.
Hoje, mais maduro, já edita livros por uma editora, a Texto Território, que fundou com um de seus grandes amigos, o Oswaldo Martins, divulgando a poesia novíssima e a daqueles veteranos que não aparecem com destaque na mídia. Além disso, sua promessa de fazer poesia profissionalmente vingou, ele já é autor de alguns livros bem pessoais, a propósito.
Portanto, declaro e nem precisa ser alto e boníssimo som: Alexandre é esse tipo de companheiro que em minha vida aparece bissextamente para ser ... Amigo. E nem necessita de ser a sete chaves, basta uma papaiz potente, pois ele não se afasta.
Há muito lhe devia essas palavras simples, até, acho, simplórias, mas escrevo-as com uma ternura de companheiro que não se afasta da luta nem dos que merecem.