Postagens

Na coxa flava do Rio de Janeiro

Imagem
Fiz essa montagem em 2002. Fragmento de Carlos Drummond sobre foto de Ricardo Azoury . Para ler é só clicar e ampliar.

Tropa de elite

Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça, todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos. (Carlos Drummond de Andrade) Finalmente assisti ao filme. Mas não me animo a entrar no debate, que logo fica velho e esquecido. Acompanho a discussão sobre violência policial, favela e narcotráfico, especialmente no Rio, desde os anos 80. Avançou. Mas, lamentavelmente, o avanço dos debates foi proporcional ao aumento da truculência da polícia, da hostilidade do bandido, da fragilidade dos governos e... dos lucros com o tráfico. Sobre o filme há posições lúcidas e rigorosas, outras oportunistas ( Idelber Avelar , blogueiro exemplar, listou várias). Talvez eu só esteja também aproveitando a oportunidade para publicar estas notinhas pouco rigorosas, mas sem abrir mão da lucidez: 1 - Terminei de assistir ao filme de José Padilha e, antes de ir para casa, resolvi passar na locadora e alugar Amen , de Costa-Gavras. Nada melhor para entender por...

Quem somos nós? (What the Bleep Do We Know!?)

Imagem
O filme me foi recomendado (é terna a lembrança de Catarina) há pelo menos uns dois anos. Meu ceticismo (ou seria cinismo?) me afastara dele. Perdi tempo. Ou não . Por outro caminho, mais científico, já experimentara a idéia (certeza?) de que as palavras movem e os pensamentos criam realidade. O da ficção. Um pedaço do Anacrônicas , para os mais céticos, ainda: Nilton não se comoveu diante de minha impotência. É simples, respondeu, enquanto descobria um quadro negro na parede ao lado da mesa, no qual desenhou três bolas. Toque nesta bola, e meu instrutor começou a traçar linhas inventando trajetos no fundo negro do quadro: Após concluir o desenho, olhou-me com o mesmo sorriso de sempre. E então? Ofereceu, desta vez mais enfático, o taco. Olhei as bolas inertes sobre a mesa e imaginei novamente os corpos em movimento. Já não tinha certeza se devia acreditar no atestado que o Doutor me dera. Meu desejo era inventar outro jogo a partir daquele. Abandonar os tacos, deixar as bolas sobre a...

Alguma Prosa

Imagem
Resenha n' O Globo : Resenha em Paisagens da Crítica

Mudança

O que muda numa mudança? Enquanto isso, fico mudo.

La vie c'est comme une dent

É a segunda tradução de faço desse poema de Boris Vian: La vie, c´est comme une dent D´abord on n´y a pas pensé On s´est contenté de mâcher Et puis ça se gâte soudain Ça vous fait mal, et on y tien Et on la soigne, et les soucis Et pour qu´on soit vraiment guéri Il faut vous l´arracher, la vie. A vida, isso é como um dente No início a gente nem liga Come contente e mastiga Depois se gasta de repente A dor vem, mas não é urgente A gente cuida, busca uma saída Até que ela volta mais aguerrida Aí preciso arrancar isto, a vida. Acabei mexendo nele de novo por causa de uma invenção para a Oficina Literária do Texto Território . Digam aí o que acharam.

Página em construção

Estou tentando montar uma página pessoal . Digam o que acharam.

Máquina de escrever

Criança, ainda, ia para o trabalho de meu pai. Uma seção burocrática do há muito extinto MIC - Ministério da Indústria e Comércio. 6, 7 anos e nada a fazer naquela sala enorme. Até que descobri a máquina de escrever. Catamilhava as teclas e escrevia meu nome. Depois passei a atacar a remington 22 de minha irmã , que na época fazia curso de datilografia. Ali nasceram algumas histórias que não lembro mais se aconteceram ou não.

Literatura Marginal

- para o Renato Bruno - Vejo a outra margem se aproximar. Não a curtição arembepe woodstock posto nove navilouca. Também não a onda viagem bode dos que souberam fazer bom uso do desejo do excesso do sexo e já quase todos não estão aqui para perder mais. Modernidade, nada melhor que ser maldito. Vejo a outra margem se aproximar. Não os que souberam rezar na cartilha da maldição inventores diluidores lançadores de moda gladiadores da doxa poundiana. A outra margem. Não a de malditos. A que não cabe no centro a vergonha o gregório o pataca e o vidigal o lima bem bêbado o meio fio travesseiro último do geraldo na lâmina-mão da satã e o roberto sem erasmo e os filhos do francisco e os netos do buarque as relíquias do brasil de novo e sempre, que o recalcado nunca pára de assombrar. E o lulalá. A outra margem. A que os bons malditos fizeram por onde banir a da vergonha a apagar da história a dos que conjugam por cima dos panos e abaixo do equador todos os modos e tempos do furtar e do foder ...

Carioca - faixa 1

- para a Vand - Gostei de ouvir os acordes do choro-canção. Também os queria. Mas não deixa, da mesma forma, de ser foda e falso ainda pensar a cidade assim dividida em duas. A cidade partida ficou estilhaçada e (re)parti-la em dois só é vocação racionalista e ordeira. Dessa ordem binária que se nos entranhou desde a canção do exílio: vamos mapeando nossos cá e lá internamente, como se pudesse ser saudosa a velha belíndia. Não me parece ser mais assim. Há segregação dentro da segregaçãodentrodasegregação. E está tudo aí: enumeração aleatória produzidas em retinas arrombadas mais para carioca do que para subúrbio. Mas manteremos a circunspecção enquanto as balas do exílio mandam para o outro lado policiais, favelados e o vizinho. Repetiremos ainda não é comigo, como naquele filme de Mathieu Kassovitz, O ódio. São Paulo, por exemplo, de novo na vanguarda, armas na rua e celulares nas prisões. Dessa vez foi menor o silêncio sorridente. Mas os cariocas ainda podem dizer "até aqui tudo...

12 anos

Para o Pedro Miranda Impasses que a obra de Chico Buarque não pára de impor. Pensei bem e acabo concordando: pipoca é a melhor escolha, talvez a única. Diz mais com o que não diz. Diz da rima sugestiva, diz da história e da cesura, diz de um modo nelsonrodigues de lidar com o erótico-pornográfico, diz de dentro do modernoarcaico complexo que é o Brasil. Queria escrever sobre "coisa com coisa", mas ouvi-lo é melhor que ler sobre ele. Só adianto: o melhor CD de samba que ouvi nos últimos tempos foi o "samba é minha nobreza". Acho que é aquele projeto a cartilha do "coisa com coisa", que vai ocupando o segundo lugar em mim. Tipo acertar na mosca do samba que eu quero ouvir/re(des)cobrir. Salve Wilson das Neves e Paulo Cesar Pinheiro! (21-06-2006)

Teresa Cristina e Grupo Semente cantam (e são) Chico Buarque

para Leinimar Belíssimo show. O repertório afeta por si, mas a interpretação o transforma, redimensiona as canções, e afeta mais e diferente. Senti (e tento compreender agora) dois afetos: um, o da composição, já cristalizada no sistema nervoso, incorporada ao repertório do ouvinte, tipo alicerce do inconsciente (coletivo, no caso de Chico Buarque); outro, o das cores, do movimento e da emoção que surgem de dentro da voz de Teresa Cristina. Exemplos não faltam: a sobriedade com que toca as alturas e encorpa o refrão de “Estação derradeira” (nesta o arranjo das cordas é uma história à parte, de quem é o arranjo?); a dignidade com que sustenta a inocência da mãe do “Meu guri”; a divisão diabólica que ela e Pedro Miranda contracantam em “Biscate”, são só alguns dos pontos altos. As melhores homenagens que se prestaram ao compositor foram as em que os intérpretes “falaram” sobre suas canções, sem cair na ingenuidade de achar que se pode deixar a obra falar por si (então não se deve perder ...

Vai saber...

Para a Adriana e Marisa, agradecido Trabalho: releio palestra do poeta Ferreira Gullar na UFJF, para livro que sai em breve. Transcrevo um trecho: "Não havia o poema, mas ele foi feito e passou a fazer parte da vida das pessoas, passou a fazer parte do mundo. Existe o cosmo, as estrelas, os planetas, os satélites, mais o quadro que o Van Gogh acabou de fazer. Um poema de Drummond é uma coisa a mais na vida, com a diferença de que, enquanto a galáxia não fala nada, o poema nos fala, nos constitui porque fala de coisas humanas e ajuda a compor o universo humano, do qual necessitamos para viver." Muito bom. Concordo porque sinto: 1 - É por isso que muitos poemas, quadros, canções alheios hoje são meus, porque integram esse universo humano que componho através deles. 2 - Minha última incorporação: "vai saber", de Adriana Calcanhotto, gravado pela Marisa Monte. Ficou melhor o universo ao meu redor depois desse samba. (05-07-2006)

Detran

--- Para Maura --- I Sinal de apito (Carlos Drummond de Andrade) Um silvo breve: Atenção, siga. Dois silvos breves: Pare. Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna. Um silvo longo: Diminua a marcha. Um silvo longo e breve: Motoristas a postos. (A esse sinal todos os motoristas tomam lugar nos seus veículos para movimentá-los imediatamente.) II E quebro porque impreciso. E requebro e danço e freto desatinos ao futuro. Por que duro, por que neutro, por que impávido colo impassível osso o flerte com o destino? Atravessa o ritmo domado. Desarma o istmo do medo. Arrisca mais, que o porvir não é um vermelhovintessete e só um grande NÃO pode abrir muitos sim-talvezes. E duro porque quebro. E amarelo e agradeço e aconteço ao sonho do compasso. Por que preciso, por que incisivo canino na artéria da vida, corda no pescoço do verbo? Vaga por desprecisar de fio. Sai do trilho, rapa do trânsito. Petisca o de dentro do mistério, que é sincero o amparo dos vãos e afeuosos os braços que esperam do out...

Mário Quintana

Umas coisas que disse ao telefone para a Fernanda Fernandes fazer matéria na Tribuna de Minas (30/07) por conta do centenário do poeta: Em textos do próprio Quintana, a poesia é colocada como algo dramaticamente emocional. Ele se destaca em formas como o hai cai e o epigrama, que funcionam como explosões dramáticas. Antes de conversar com a reportagem, Alexandre questionou seus alunos sobre o poeta e constatou que muitos sabiam de cor poemas de Quintana. O professor acredita que muito desta popularidade se deve ao tom prosaico. No entanto, Alexandre pondera que o forte apelo nem sempre acerta na construção de uma linguagem poética. Para ele, há rigor poético nos versos de Manuel Bandeira, porém o mesmo não acontece em Quintana, cuja obra é estável, oferecendo o mesmo tipo de poesia do começo ao fim. “Acho que ele deveria ser mais lido em sua prosa, nas pequenas reflexões que produziu para a imprensa. No entanto, ele é quase sempre lembrado como poeta.”

Zuzu Angel no Cinema

Mais importante do que assistir ao Zuzu Angel, talvez seja prestar atenção à fala da garotada que sai do cinema. Longe de ser uma obra de arte, o filme vale pela produção de memória. Há episódios vergonhosos de nossa história que merecem, a despeito do tratamento romântico e folhetinesco que sofrem, ser revistos sempre. Houve, há algum tempo, Olga e, agora, este Zuzu Angel parece padece do mesmo mal: a construção de uma imagem infantilizada do militante da esquerda. É a falta de jeito para o impulso erótico ou afetivo, para o pathos motor do personagem folhetinesco, que o desqualifica diante do público novelesco. No caso do filme que estreou neste fim-de-semana, um agravante: a forte imagem cazuza, que o ator Daniel Oliveira agregou e fez pouca questão de descaracterizar, sem falar do conflito mãe/filho que remete à também recente biografia filmada por Sandra Werenck e Walter Carvalho. Uma imagem compõe a outra na aparência, mas são no fundo bastante opostas: o projeto revolucionário d...

Ato falho da professora de grego

Letícia cadastrou Sua alegria no Letes.

Virem video

Imagem
Não saio do silêncio como deixam a casa as coisas furtadas. Perdi o susto e atabalhoei a língua, gago infinito. Sempre fica noutro lugar o edifício demolido. Emprenham a memória os posts que não postei: e férias em paraty-trindade e colóquio e teses e reuiniões e arguições e bancas e revisões que pensem que digam que falem que fui seguido por tantos olhos num só, oswaldo felipe bárbara daniel, que talvez virem vídeo esses meses em branco. (09/11/2006)

Monsuetudine

- para o Oswaldo e a Wal - assim mesmo sem curvas metafóricas filosofia mera rasa alcova. educação começa entre as pernas. evitar a dor, jamais. evitar a rima é muito mais assim mesmo sem retrato do cabral cura epicurista nó molhado. certeza de dar o beiço no morfeu. se há samba foi a vida quem nos deu. assim mesmo sem pesar na peneira cosmogonia de cabras. é dar no couro e salvar a tela. no batuque do silêncio o farrapo da intriga assim mesmo a negra lira a entrega sem emprego. sonho de comer boceta de óleo sobre pele. o solo da batucada nó na madeira dó de peito nó na garganta espécie inofensiva de de toma que o filho é seu de cócoras assim mesmo sem logos assim mesmo sem mitos assim mesmo sem epos assim mesmo no pau assim mesmo no pé assim mesmo essa mulher assim mesmo (abocanhada...

Aquecimento Global

Os mais preocupados hoje indagam: "Como se conservará o homem?" Zaratustra, porém, foi o primeiro e único que indagou: "Como se superará o homem? (Nietzsche)