domingo, 24 de abril de 2011

é tanta MPB na minha cabeça

Minha filha,
você e seus amigos aqui em casa no almoço de domingo, se me acham alegre, não se iludam - estou bêbado. E se sambo e canto, enquanto vocês nem imaginam quem foi o tal irmão do Henfil, ou em que ombro estão hoje as estrelas frias, não sou eu quem vou contar. Muito menos me fazer de vítima pra vocês, e dizer que eu também, se não entrei de fato na porrada, ou sucumbi no calabouço, estou ainda atormentado pelas bombas de efeito moral que me davam na escola, os emc, os ospb, os epb e as educações físicas.
No fundo entendo vocês, e é com alguma ternura que me armo de meu bullyng até ontem recalcado. Mas por mais que o queira converter em coquetel molotov, sei que isso não nos levaria muito longe. Acontece que não podemos acreditar na participação. Apenas orkutamos, facebookamos como quem vota, devotos, no silêncio da urna eletrônica, pensando segundo os golpes de marketing, como se isso fosse a vida.
Felizes.
A diferença talvez seja essa - vocês dispensam, para sorrir, para cantar, algum álcool, ou outro artefato entorpecente. E eu, sem a cadência do samba não posso ficar.

terça-feira, 19 de abril de 2011

No que dá ficar sem ver TV

Tenho andado calado e triste. Mais do que devia. Tão incapaz de dizer alguma coisa que muito agradeci a colaboração amiga de Maria Aparecida, para o TextoTerritório. A coisa é que desde então fiquei mais inábil para abordar fatos. E minha última anotação, antes dessa que faço agora, data de um dia antes do episódio de Realengo:

Arrependimento do professor primário

sei que ser humano é tudo igual
mas se eu fosse carcereiro de segurança máxima
teria mais esperanças

Era só uma nota, para incluir numa antiode ou noutro texto futuro. Ou no máximo uma nota solta, na linha deste "Ato falho da professora de grego"

Saber do fato no dia seguinte à anotação me transtornou um pouco. Mas basta acompanhar o projeto das antiodes ou alguns poemas soltos, que vamos postando aqui ou acolá e fica difícil não saber evidente que o sensacionalismo e o mercantilismo com que se interessam pelo excêntrico desfoca de tal forma o centro dos fatos que só nos resta apelar para midias e vozes marginais. Legitima-se cada vez mais um lugar alternativo para se construir pensamento e se expor percepções fora do senso comum.

A percepção, por exemplo, de que, a cada geração que surge nas salas de aula, sinto-me mais perto do jovem que, por intolerância ao pensamento crítico, à diferença, vai me cravar uma bala no peito.
Ou a sensação de que tô chovendo no molhado.
Mas nenhuma delas supera a tese quase evidência de que já morri e que só ainda não apareceu nenhum mensageiro (daqueles que tem em filme de espiritismo) pra me avisar que já não faço parte desse mundo. De repente pulo da ponte só para formular a antítese.

PS1: Amigos queridos, estou bem, por favor não gastem comentários tentando me consolar. Isso é um texto de ficção.
PS2: Também não tentem me convencer de que a realidade está melhor.