quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Um Tarzan às avessas, por Paul Theroux

Acho este relato exemplar pelo absurdo naturalismo com que a narrativa põe a nu as contradições do colonialismo, os limites (às vezes impossíves de precisar) entre o Mesmo e o Outro. Não precisa ir tão longe. O atual interesse do grande público, que faz da periferia muitas vezes exótico objeto de deslumbrado interesse (saiu domingo um texto de Regina Casé sobre o assunto que rende uma boa discussão) é apenas outro exemplo.

Aconteceu há 40 anos, na África, e ainda hoje penso nisso: a oportunidade, o auto-engano, o sexo, o poder, o medo, a confrontação, a estupidez, o equívoco todo da situação. O incidente serviu de material para um de meus primeiros romances e também para vários contos. Teve um quê de Primeiro Contato, o clássico encontro inesperado entre o viajante e o nativo oculto, um encontro marcado por tamanha estranheza entre seus protagonistas que, enquanto um lado vê uma aparição, o outro pressente uma oportunidade. Nunca mais consegui tirar isso da cabeça. Eu havia partido da América rumo à África e fazia quase um ano que estava naquele lugar: Nyasaland. Veio a independência e, com ela, um novo nome, Maláui. Eu era professor em uma pequena escola. Falava a língua local, o chicheua. Tinha uma casa e até mesmo um cozinheiro, um muçulmano yao chamado Jika. Meu cozinheiro tinha seu próprio cozinheiro, o garoto Ismail. Vivíamos satisfeitos no sertão, num canto das montanhas do Sul, entre poeira vermelha, estradas ruins e maltrapilhos. Tirante o frio úmido que fazia de junho a agosto, nada disso me parecia estranho. Era essa a África que eu contava encontrar, e ela me agradava. Costumava dizer: vou levar um choque cultural quando voltar para casa. Pouco antes do Natal, fui para a Zâmbia. Segui por estradas secundárias e, no dia 24, parei para tomar uma cerveja num bar esquálido nas cercanias de Lusaka [a capital]. O lugar estava quase vazio e entabulei uma conversa com os dois únicos fregueses que havia ali além de mim: um homem e uma mulher. "Isto é para você", disse eu, oferecendo ao homem uma garrafa de cerveja. "E isto é para a sua mulher. Feliz Natal." "Feliz Natal", disse o sujeito. "Mas ela não é minha mulher. É minha irmã. E gostou muito de você." Quando o bar fechou, os dois me convidaram para ir à casa deles. Isso implicou uma longa corrida de táxi pelo sertão. "Feliz Natal. Você paga pra ele." Paguei. Levaram-me a um casebre. Mostraram-me um cômodo acanhado, onde entrei acompanhado da mulher. Pisei numa criança adormecida -ouviu-se um berro. Era um menino. A mulher o acordou, arrancou-o de seu cobertor e enxotou-o para o aposento ao lado. Então me mandou sentar, tirou minha roupa e fizemos amor em cima do pedaço de cobertor ainda aquecido pelo corpo do menino.

Foi muito agradável. Já andava cheio das malauianas, aquela coisa morna, entremeada de sorrisos e gracejos; sem contar as gozações do Jika, os olhares de soslaio do Ismail. Mas, de manhã, quando eu disse que precisava ir embora, que tinha de ir para o meu hotel em Lusaka, a mulher, Nina, retrucou: "Não, hoje é Natal" e armou um pampeiro.

George, o irmão, deve ter ouvido o queixume dela, pois entrou no quarto e disse que estava na hora de ir para o bar. Ainda não eram nem oito da manhã, mas mesmo assim fomos e passamos o dia inteiro bebendo, e, sempre que pedíamos uma cerveja, eles diziam: "Mzungu", o homem branco paga, e eu pagava. No meio da tarde estávamos os três embriagados. Escarneceram da mulher por ela estar com um homem branco. Ela respondeu com uma insolência de bêbada. O irmão impediu que alguns sujeitos enfurecidos batessem nela. Espoucaram brigas alcoolizadas no bar.

Voltamos para o casebre no vilarejo e, com um princípio de enjôo, deitei-me no cômodo fedorento. Nina despiu-me, sentou em cima de mim e pôs-se a rir e a caçoar de mim.
Na manhã seguinte, quando estava me vestindo, ela perguntou aonde eu ia. Tornei a dizer que precisava ir embora.

"Não. Hoje é "Boxing Day" [feriado de origem britânica celebrado no primeiro dia útil após o Natal]." E chamou o irmão.

"Vamos", disse George, dando um tapinha nas minhas costas e sorrindo. O significado do sorriso era: trate de me obedecer. Passamos o "Boxing Day" da mesma maneira que havíamos passado o Natal: o bar, a cerveja, as brigas, os insultos e, por fim, a atordoante e nauseabunda sensação de embriaguez no meio da tarde. Mais uma noite, as risadas de Nina ao chegar ao orgasmo e, pela manhã, o lembrete de que eu estava encarcerado. "Você fica!"

Em sua recusa a deixar-me ir embora havia, além de lubricidade, um quê de ameaça. E o irmão a apoiava, por vezes me acusando de não ter consideração por eles. "Você não gosta da gente!"
Quando eu retorquia, dizendo que gostava, claro que gostava, eles sorriam. Então comíamos ovos cozidos ou pedaços frios de mandioca ou um mingau esbranquiçado e lá íamos nós para o bar, a fim de nos embebedar de novo naquele lugar imundo. À medida que ia ficando alta, Nina começava a me bolinar e prometia sexo -a essa altura uma idéia quase aterrorizadora. Passou-se mais um dia e me dei conta de que não fazia a menor idéia de quem eram aquelas pessoas. A comida era nojenta. O casebre, medonho. As pessoas do vilarejo não pareciam muito amistosas; no bar eram francamente hostis. Aquela cerveja toda estava acabando comigo. Eu era o único "mzungu" no lugar e, tanto quanto sabia, o único também num raio de vários quilômetros.

Afora meu desejo sexual inicial, minha curiosidade, não tínhamos nada para compartilhar; tudo se resumira à intenção de nos explorarmos mutuamente

A língua que eu falava, chicheua, não era a deles, embora a conhecessem. Sua língua -devia ser bemba- era-me incompreensível, e eu sabia que tramavam contra mim quando se punham a conversar nesse idioma, trocando palavras rápidas a meia voz, de modo a não me dar a menor chance de entender o que diziam. Eu lhes pertencia, era como um animal valioso que houvessem caçado. Sempre que precisavam de dinheiro para comprar cerveja, petiscos, presentes ou o que quer que fosse, pediam para mim. Quando eu dava o dinheiro, tornavam-se excessivamente afáveis, a mulher me beijava, lambia meu rosto, fazia-se de submissa; o irmão e os outros beberrões elogiavam-me, louvavam a América, diziam que a Inglaterra era uma merda, pediam que eu os deixasse usar meus óculos escuros.

Na primeira noite eu trajava um terno claro. Agora o terno estava todo amarrotado e sujo; minha camisa vivia empapada de suor. Eram as únicas roupas que eu tinha.

Eles diziam que eu era um amigão, mas não me enganavam: eu era seu prisioneiro. Estavam sem dinheiro. Meus vezos e minha arrogância haviam me transviado do meu mundo e me conduzido ao deles. E eu representava algo para eles: dinheiro, sem dúvida; prestígio, talvez; estilo, quem sabe. Depois da primeira noite, não tivemos mais diálogos sóbrios.

Eu era uma cor, um homem branco, um "mzungu". Eles haviam me capturado e não queriam abrir mão de sua presa: eu era uma posse útil. Quando diziam: "Você não sai!", como amiúde faziam, empregavam um tom tão irritantemente alto e ameaçador que eu me enchia de medo. Aquilo que havia me atraído em Nina, seu despudor, agora me assustava pelo que tinha de feroz e selvagem. A bebida a ensurdecia e a transformava numa rufiona tão cruel quanto o irmão. George escrutava-me com olhos estranhamente injetados, como se eu fosse um inimigo.

Às vezes, durante a noite, eu era despertado pela fedentina humana que pairava no casebre.

Acho que era meu quarto dia ali. Estava tão apavorado e os dias eram tão iguais uns aos outros que havia perdido a noção do tempo. Fomos para o bar de manhã e ao meio-dia eles continuavam bebendo -quanto a mim, assim como sucedera com o sexo, já não sentia prazer na bebida. Permanecia sentado ao lado deles, pagando tudo o que pediam com meu maço cada vez menor de notas de "kwacha". Então disse: "Vou até o chimbudzi".

"Vai com ele", determinou Nina a um dos valentões que adejavam à nossa volta. Protestei.

"Ele não volta", disse ela, e percebi como era ladina. Lera meus pensamentos, mais uma indicação de sua perversidade. Tirei o paletó e o coloquei em cima do balcão.

"Eis o meu paletó, tomem um pouco de dinheiro. Peçam uma cerveja para mim e mais algumas para vocês. Quando eu voltar, vocês me devolvem o paletó." O "chimbudzi" ficava do lado de fora do bar, nos fundos da construção coberta com folhas de zinco. Era um cubículo sem telhado, feito de bambu e estacas de madeira. Larvas se contorciam no buraco raso da latrina. Permaneci em pé, sentia-me tão enojado que não tive coragem de abrir a braguilha.

Saí após alguns instantes, olhei em volta e, não vendo ninguém, comecei a correr; a princípio com cautela, depois desabaladamente, até alcançar a estrada e acenar para que um carro parasse. É claro que o sujeito parou. Era africano, eu era branco, estávamos no Natal e ele precisava de dinheiro para a gasolina. Levou-me ao meu hotel -eu não havia dormido nem uma noite lá. Pedi ao motorista que aguardasse por mim, paguei minha conta, entrei novamente no carro e quando ele perguntou "para onde?", mandei que seguisse sempre em frente. Deixou-me a uns 30 quilômetros da cidade, junto de um hotelzinho de beira de estrada, onde passei uma noite insone.

Que idiotice a minha, invadir o território dos outros. O tempo que passei com eles não me ajudou a compreendê-los. Afora meu desejo sexual inicial, minha curiosidade, meu atrevimento, não tínhamos nada para compartilhar. Tudo se resumira à intenção de nos explorarmos mutuamente. Eles me lembraram de quem eu de fato era: um americano presunçoso. A despeito de minhas posições políticas e de meu trabalho na escola no sertão, eu era pouco mais que um turista aproveitador. E, para mim, eles eram uns africanos desesperados agarrando-se à oportunidade de me possuir. Fora como um Tarzan às avessas, redefinindo a si mesmo. Isso foi tudo o que consegui vislumbrar.

Sentira medo deles e tratara de dar um jeito de sair de lá. E o incidente continuou a repercutir dentro de mim, dizendo-me quem eu era. Passei por situações muito mais perigosas na África: brigas sérias, deportações, tiroteios -há coisa mais perturbadora do que se ver sob a mira de uma arma? Contudo essa foi a primeira vez que experimentei para valer um cativeiro, meu primeiro contato real com a diversidade, uma situação memorável devido a seu caráter horrivelmente grotesco. Foi algo que me deixou aturdido e fez com que eu me sentisse americano.

Paul Theroux (1941) é escritor e roteirista americano, autor de "Minha Outra Vida" (Record) e "Morte em Chicago" (L&PM). Este texto foi publicado originalmente na revista britânica "Granta", e sua tradução, por Alexandre Hubner, na Folha de São Paulo de 18/04/2004 (link para assinantes)

sábado, 22 de dezembro de 2007

Satélites


Para o Jeff, autor da foto


Como satélites livros se lançam
Seguem rotas exatas-imprecisas
Viajam no limite entre o caos e o cálculo
Entre o Deus e o Nada

Se acertara Pound e os poetas são antenas
Como satélites livros refletem
A raça que ora agônica ora eufórica
Olha em si, ora ou cala

Pairam bem acima do que recebem
Ou do que transmitem, olhos de um totem
Como satélites livros têm órbitas
E eixo de acrobata

Mesma é a mão que os cria ou os queima
Que os desvia ou os lança na circular danação
De invisíveis sinais que como satélites
Livros emanam