sábado, 17 de dezembro de 2016

Um inseto, de Rogério Batalha

para Alexandre Faria e Oswaldo Martins 

ontem
abri o peito
(dentro)
vivia um inseto amarelo
(sobre meus escombros)
a ele dei o nome de:
canto.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Lipogramaspiração

                                     tinha uma
tinha uma
tinha uma
                                     tinha uma
nunca me esquecerei
tinha uma
tinha uma

                                     tinha uma

domingo, 16 de outubro de 2016

Dia dos professores Lado A e Lado B

Dia dos professores - Lado A e lado B.

Ano que vem contarei 30 anos desde quando entrei numa sala de aula, para ensinar redação, num pré-vestibular que o Sergio Vieira organizava. Eu não sabia o que estava fazendo. Mas ele, o Sergio, meu professor então, que depois se tornaria meu compadre, na época, sabia mais de mim.

Hoje, vendo os posts todos do facebook, entrei numa de fazer balanço. Sinal dos tempos, de quem quer começar a descer a ladeira em paz.
Pois bem. Desde então, aquele não saber o que estava fazendo se tornou escolha profissional consciente, determinada, que me levou a jogar pela janela 13 anos de um emprego "garantido e seguro no Banco do Brasil", e dar o rumo que me trouxe aqui onde hoje estou.

Queria contar essa história com 2 canções. Elas falam de artistas, mas, se repararem bem nas letras, qualquer professor pode se sentir nesses lugares.

LADO A:
Parceiros (Francis Hime e Milton Nascimento)

Com essa homenageio todos os meus. São aqueles que não ouso mais nomear num post rápido como este. Mas que se eu tivesse tempo de rastrear meu coração com calma começaria uma lista enorme aqui agora mesmo. Tenho certeza de que se você se souber e se sentir nestes versos, será um deles:

"Falando de amor e outras rimas
Contamos com a força de muitos
Colocando voz nesses olhos
Que chegam pra nos encantar
E as vozes se tornaram tantas
Que não há mais palco ou plateia
A gente que canta conosco
É o PRESENTE que deus nos legou."

LADO B:
Febril (Gilberto Gil)

Essa não posso oferecer nem compartilhar. É coisa de intimidade, lado B mesmo. Mas também creio que muitos entenderão do que estou falando:

"Como se o salão repleto fosse um deserto
E eu fosse mil
Mil troncos de árvores velhas
Árvores velhas de pau-brasil

Tanta gente, e estava tudo vazio
Tanta gente, e o meu cantar tão sozinho
Todo mundo, mundo meu
Meu inferno, meu céu
Meu vizinho"

Seguem os links:

https://youtu.be/GVqxQroImPE

https://youtu.be/f6yTyNC9H-M

sábado, 3 de setembro de 2016

Que tempos são esses, Brecht?

Não existe uma teoria do tapa na cara. Pelo menos para quem o leva. Da mesma forma, por mais que dramaturgos, atores, críticos, historiadores da arte pesquisem a e teorizem sobre o teatro épico, as ideias do dramaturgo, poeta e encenador alemão Bertold Brecht (1898-1956) são refratárias à teoria pura. Pelo menos para os espectadores, não há lugar melhor para a percepção do teatro épico do que no corpo a corpo com a cena e com os atores. 

Se você conhece a teoria, mas pouco a experimentou em cena; se não conhece e quer conhecer; se não conhece e gosta de teatro; se não gosta de teatro, mas quer saber o que faz no mundo... não importa. Vá assistir à exposição "Que tempos são esses?", que fica no CCBB do Rio só até dia 19/9.
Acabei de chegar de lá e foi uma experiência única. A intensidade com que a Companhia Ensaio Aberto nos faz viver as ideias de Brecht é indescritível. O espectador entra na exposição e, se houver o mínimo de consciência política, de sensibilidade estética, ou de vergonha na cara, sai transtornado. E transformado. Fui e volto. Fiquei com vontade de levar os alunos e de indicar para os amigos. Todos. Também para os inimigos e os em cima do muro, principalmente. Imperdível.

O título do programa dá conta do recado. "Que tempos são esses?" é uma pergunta que não se cala. 60 anos após a morte de Brecht, 71 após o fim da II Guerra, ainda devemos nos perguntar se de fato acabou aquela Era dos Extremos, que o historiador Eric Hobsbawm queria que tivesse sido um "breve século XX". A necessidade e a atualidade de Brecht respondem: ainda não saímos de lá. A bondade e a liberdade ainda não são supérfluas. Por esse motivo, também vale conferir, além da exposição, todo o projeto multidisciplinar, que inclui um seminário internacional, uma mostra de filmes, oficinas e um ciclo de leituras. Confiram na programação o que ainda dá para aproveitar. Fica aí minha dica pra gente ver se o homem ainda consegue ser amigo do homem.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Gravação do Programa "Conversa com o autor"

No Conversa com o Autor de hoje os poemas de Alexandre Faria em seu último livro: "I", do clássico chinês I Ching que traduz-se como mudança. Essa transformação que a literatura promove ao leitor e que estimula Clarisse Fukelman a pesquisar sobre temas como as biografias, analisadas em vários textos de "Eu assino embaixo: Biografia, Memória e Cultura", A medição foi da jornalista Katy Navarro. O programa vai ao ar na Rádio MEC AM 800kHz, ou na internet, no dia 14 de maio. 










quinta-feira, 31 de março de 2016

TextoTerritório, uma editora dos ainda não comentados, de Carlos Augusto Corrêa

Crônica da coluna Chão de Praça, no Facebook de 31/03/2016

                            Carlos Augusto Corrêa

  Texto Território, uma Editora dos ainda Não Comentados

Hoje tive a satisfação de rever o poeta e professor Alexandre Faria, amigo que já não via há um bom par de anos, e que me valeu instantes prazerosos de conversa numa casa de lanches em Bonsucesso. Tocamos na situação conflituosa do país, nas ditaduras do passado, em especial a de 69, por sinal de lamentável memória, mas o foco de nossa conversa foi sobretudo, e não poderia deixar de ser, a poesia. E dentro desse assunto a conversa enveredou para a editora que Alexandre e o poeta e professor Oswaldo Martins fundaram, de nome Texto Território.
Posso antes de tudo dizer aos poetas: sorriam! Porque o objetivo desta nova e significativa casa de publicação é a poesia. Seus editores decidiram publicar poetas novíssimos ou aqueles já de algum tempo ou de muitos anos de fazer literário, mas que não são lembrados, seja por que motivo... O fato é que ambos elegeram a arte poética como centro de suas atenções.
Recebi de Alexandre nada mais, nada menos do que dez livros que a editora produziu de 2012 até o presente. Fiquei entupido de obras e ávido para primeiro correr os olhos por todas e em seguida lê-las sempre que o tempo, esse velho engulidor de vidas, o permitir. Selecionei aqui o livro "venta não", de Alexandre Faria, que veio a lume em 2013. Posso afiançar a meus raros leitores que, nesta obra, Alexandre revela-se um poeta que se sobreleva pela concisão. Sim, textos bem concisos, de poucas palavras, como a geração de 90 para cá vem praticando, mas com um detalhe que encarece a importância dos poemas. É que o poeta trabalha imagens insólitas e força o leitor a perceber o que se encontra nas entrelinhas do que é dito. Vejamos o texto de número 7: "se eterno|nunca|se eterno|onde?|| só o que é com|aqui|agora". Uma dicção, sem dúvida, original. E nela se nota a inquietação metafísica da questão da eternidade e da vida breve. Implicitamente subjaz a ideia batida do viver aqui e agora, que Alexandre Faria revigora.
O leitor necessita de ter uma iniciação para melhor captar o que existe no texto e se presta a variadas leituras. No poema seguinte, de número 8, diz:"sê aqui agora||não voltes|não fiques|não partas". Novamente, com menos palavras, há uma necessidade de reter a atenção sobre o tempo presente, mas tudo é expresso com originalidade.
Resumindo: em todo o livro, essa preocupação de dizer o mínimo de forma pessoal e,repito, com palavras que refletem a vivência dentro da história. É o que "venta não" me suscita e deve despertar em todos quantos se puserem a ler com a devida soltura, pra poderem dar uma visão pessoal e assim enriquecer a obra.
Com o tempo vou fazendo comentários às outras publicações da editora. Por enquanto, aqui fica o prazer de ter reencontrado Alexandre Faria, pondo em dia nossa amizade, fica igualmente a alegria de saber que nasceu uma editora que só quer saber da ars poética e mais, satisfaz o fato de ter comentado, ainda que em linhas resumidas, o que escreveu o poeta em uma de suas boas produções.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Dilma vive

Dentre tantas imagens dos cartazes que foram fotografados e postados nas redes sociais, durante as últimas semanas, duas em especial me chamam a atenção. Parece que são casos evidentes de que as imagens falam por si, mas creio que devamos falar mais sobre elas.



Foto: Regina Dalcantagnè
São cartazes que parecem não estar exatamente no centro das demandas defendidas nas manifestações (embora eu vá aqui opinar que estejam); são exóticos em relação aos gritos gerais das ruas, que, grosso modo, ressumem-se no “Fora PT”, do lado deles, e no “Não vai ter golpe”, do lado em que estou (percebam – aqui não dá pra ter “um” e “outro”, até porque o outro sou eu).

No entanto, em seus exotismos, trazem alguns pontos que ganham relevo quando são colocados lado a lado. Ambos reacendem a memória da violência perpetrada pela última ditadura que assolou o país, ambas trazem à tona os arcanos do enforcado e da morte. Mas, diametralmente opostas, enquanto a deles manifesta o desejo da morte de uma sobrevivente, a minha manifesta a certeza da vida de um morto. Aquela é mesquinha tanto quanto há de mesquinho em desejar a morte de alguém vivo; esta é utópica, tanto quanto há de utopia em afirmar a vida de alguém morto. Já não me refiro, aqui, às motivações políticas, absolutas, de cada um dos cartazes, mas do valor relativo que cada um deles passa a ter na compreensão da vida. Não posso afirmar que seja mesquinho simplesmente desejar a morte de outrem, pelo contrário, é humano, mais do que queremos, às vezes, admitir. Não há, portanto, nessa ideia, nenhum julgamento moral absoluto, baseado, por exemplo, em um mandamento divino. A mesquinhez (vai no Aurélio: insignificância, pequenez, miudeza) do desejo de morte de um vivo se revela pela própria limitação desse desejo quando contraposto ao outro que é o de afirmar vivo um morto. Ter certeza de que um morto vive é uma corajosa demonstração da fé de quem, ao mostrar a cara, expõe a covardia das caras que se escondem (como a das ditaduras), para desejar (oh pobreza de espírito) que um vivo morra. Corrijo-me: não é o desejo de que um vivo morra (não há coragem de mostrar a cara, que dirá de ir lá e matá-lo), mas o desejo de que uma sobrevivente ao aparelho de tortura do Estado tivesse sido enforcada. É um desejo de passado, moral do fraco, ato de quem não tem nada nas mãos além do sentimento de impotência e de derrota. Vejam como seria completamente impossível, para  eles, a superação desse lugar com um cartaz que simplesmente afirmasse, por exemplo, “Dilma está morta”. Seria ridículo, seria falso, seria mentiroso, como foi mentirosa a história do suicídio de Herzog. Este cartaz não caberia! Mas “Herzog vive” faz todo o sentido do mundo. E aqui Herzog é metonímia de todos os mortos da repressão. Eles vivem. Vivem na cara da senhora de óculos que empunha o cartaz, vivem em mim, vivem nos meus, vivem em Dilma. No cartaz sem cara, nada vive.

Quero ir um pouco mais fundo nesse jogo metafórico e na constatação das pulsões que empunham os cartazes. Para eles, a pulsão de morte; para nós, a pulsão erótica. A senhora sem cara carrega um pênis na mão; a militante do Herzog carrega uma boceta. Todo o grupo que defende o golpe (é equívoco chamá-los coxinhas, elite etc etc) são falocráticos, defendem o pau na mesa e, com ele, todas as certezas do mundo que querem homogeneizar; eles (dizem) não têm ódio, têm nojo. Só que neste caso, nojo ou ódio são a mesma coisa – a manifestação de recusa, de intolerância para com o diferente. Eles odeiam ou tem nojo de mulheres, de negros, de gays, de pobres e de todos aqueles que relativizam o pau na mesa das opiniões formadas, das posições tomadas, dos “tenho dito” certos de que todos os vivos morrem. Neles está a origem da guerra.

Há uma referência, aqui, ao título de um quadro de Orlan, artista francesa que, em 1989, realiza uma paródia da famosa pintura de Courbet, “A origem do mundo” (1866).



Os dois quadros, assim como as fotos, a despeito do que dizem por si, expressam muito por seus títulos. “A origem da guerra” e “A origem do mundo” não propõem simplesmente a comutação entre o falo e a vagina, como se fosse a construção de feminismo falocrata. O que os títulos colocam em oposição são princípios que remetem à vida e à morte. Daí a relação íntima que os quadros mantêm com os cartazes. As duas imagens, guardadas as distâncias no tempo, possuem ainda o poder de épater les bourgeois, são tão “transgressivas” (oh puritanismo hipócrita!) que quase sempre acabam denunciadas no facebook. Mas as relações que os títulos estabelecem com as respectivas imagens não é a mesma. Não há, no título de Orlan, que apenas repete o óbvio sobre a falocracia, o mesmo poder transgressivo que há no título de Courbet, que associa a origem não só ao corpo biológico, mas ao corpo social e, neste caso, privilegia o lugar da diferença, do feminino, donde se deduzem os princípios da liberdade e da tolerância como elementos originários do humano.

Repetir o óbvio (“os vivos morrem”) nos condiciona à própria morte, nos coloca diante da vida sem sentido e sem valor, o que obriga a fundar valores ilusórios, como o da riqueza material e o da capacidade de consumo. Privilegiar a diferença nos coloca diante de um desafio sobre a própria vida, que é o de reinventá-la (“os mortos vivem”) em sua miríade de possibilidades e alternativas que, para se expressarem, ou mesmo para existirem, sempre lutarão por esses princípios originais da tolerância e da liberdade. Só para concluir, é claro que nas favelas tem gente gritando “Fora PT”, como nas elites (? O que é mesmo isso?) tem quem lute para não ter golpe. O mundo não é organizado em esquemas, como querem nos fazer crer. Da mesma forma esses dois princípios coabitam cada ser humano. É importante compreendê-los e decidir qual deles queremos desenvolver. Mas a experiência tem me mostrado que é apenas com uma das escolhas que o sujeito tem coragem de mostrar a cara. Na outra, só se cultiva a mentira e a vergonha.

sábado, 5 de março de 2016

Programa "Sala de Leitura"com Marisa Loures - Radio CBN Juiz de Fora

Quadro "Sala de Leitura", com Marisa Loures entrevistando Alexandre Faria sobre o lançamento do livro "I" e da plaquete "Olhos Livres". Transmitido pela rádio CBN-Juiz de Fora em 05/03/2016.
Foto: Fernando Priamo, Tribuna de Minas

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Programa "Tema Livre" - Rádio Nacional Rio de Janeiro

Hoje marquei presença no programa Tema Livre, da Rádio Nacional Rio de Janeiro, debatendo sobre o hábito de leitura no Brasil, com Clarisse Fukelman, Elisa Machado e Judith Scliar. Ficou bem legal. Consegui falar sobre formação de leitores, oficinas de escritores, novas tecnologias de texto e de impressão, PISM da UFJF, ensino de literatura e leitura.

http://radios.ebc.com.br/tema-livre/edicao/2016-02/mito-ou-verdade-o-brasileiro-le-pouco