quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Juízes

Comunistas na zica das sarjetas
Requentam estatísticas
Para o próximo sonho
Que mendigos compram
Na finta overbooking dos aeroportos

Já fui comunista hoje esmolo
A ponta de estoque baça dos olhos
A libação que antecede o holocausto
A espera escusa do veredito

sábado, 26 de outubro de 2013

Lixo

há os que catam lixo

mendigos
deixam lixo estar

depositam páginas
blogs provas de história
restos de satélites

no espaço que sobra

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Épica


Sem choramigas quando morrer mendigo
Que no índigo auriverde fui pior pendão
Indiafricanil chã destrelas
Como se o sangue decassilabasse
Éter solto e o crivo de cravos clichê

Não não lamente morrer mendigo
Depois de noites no mais alto hotel
Dos paus à deriva
Dos pounds das brejas

Que múmia cova rasa
Camara gás gaveta
Crematório febre dispneia
Todo morto é indigno

Mas antes de morrer
Mendigo
Cega faca
Fé amolada
Não não amola
entre o gargalo e o cristal tal tal tal
a tel tel tel
Telefonista que me ostenta

sei bem
sei bem
bem sei
que em ser
nunca serei

(moderninho ieieiê)

infância de lobo
na canalha superquadras
o atomodelo mundo créu
elétrons do corpo máquina

neutrons dos neutros

riscocidade no palm da mão

buceta pitagorasmática

mas agora sim
forro
e mendigo
sem choramigas

Sem choramigas quando chegar mendigo
Quando cheirar-me o cão

sábado, 19 de outubro de 2013

Três mendigos

Não havia crack nem piolho
A fome era vaga coceira
E a rua dignidade ereta
Dos que querem o que não é

Formavam um belo casal

Quando ofereci trabalho
Ela contrição desconfiada fez que sim
Nem que não deixou-me pobre e mais
Um quase ninguém esmolando desculpas

Pela ofensa
Por não saber da dança
A densidade do silêncio
A eriçar humores

Ele cego cego tocando pistão
Gradeceu de dentes fez tantan
Que sim da cabeça como se nem
Se desse do lusco fusco em minha pele

Entre o lobo do homem e a sombra do cão
Pedia como quem dá
Sentei-me à esquerda de um
E à direita da outra

Breve seremos legião

domingo, 13 de outubro de 2013

Cidades, museus

A carioca, de Pedro Américo
Crônica (conto) publicada na Tribuna de Minas, Juiz de Fora, 13/10/2013.

Cidades, museus
Para Renato Cordeiro Gomes
Anos viajando para consultoria em análise de sistemas e métodos, criei um hobby. Coleciono cidades. No início, visitava os museus das cidades aonde ia, mas depois os deixei pra lá. Só as cidades são museus de si. Os museus, pelo contrário, são cidades alheias, mosaicos de expropriações ou espólio de excêntricos que, doados às prefeituras, tornam-se o ônus da História. Ir a um museu é perder-se da cidade que se visita. Por isso, os museus devem ser o patrimônio primeiro dos cidadãos, dos que por fatal natalidade não podem fazer o uso que um estranho faz de seu lugar. Deviam coibir a entrada de turistas nos museus e estimular que os nativos, desde a infância, aprendessem a sair da cidade através deles. Mas é justamente o contrário o que fazem. Na minha cidade, por exemplo, tem um museu só com réplicas – vê se pode! - de Pedro Américo, filho célebre do local. Mas não é só no Brejo Paraibano que isso acontece. Vale o mesmo para o 221-B de Baker Street, London. Usam os museus como iscas para cidades.

Busco nas cidades o que nelas não se consegue apreender pelo sistema e pelo método. Quero experimentar o entrelaçamento bruxuleante das existências humanas. Toda cidade é cristal e chama. Busco a chama. E quando decido entrar em algum museu, faço-o por um fetiche especial, uma obra ou personagem específica que lá estejam e que me provocam a curiosidade.

Quando agendei esta consultoria em Juiz de Fora, planejei aproveitar para re-conhecer a cidade na qual passara o carnaval de 1988 com um namorado. Mas também reservei uma tarde par ir ao Museu Mariano Procópio. Finalmente veria o original cuja réplica me tirava o sossego desde a infância, no museu de Pedro Américo e nos livros de Educação Moral e Cívica, que estudei com afinco para sair de Areia e ganhar o mundo. Na tarde programada, fui direto ao museu.
 
Fechado.

Passeei pelos jardins tentando me refazer do impacto. Se a cidade fosse um corpo, faltava-lhe um dos membros. O resto da cidade podia abrir-se inteiro para mim, mas com aquele museu fechado, ela botava os quartos de banda. O todo sem uma parte. Ia pensando essas coisas quando uma chuvarada me levou a procurar abrigo nas mesinhas do café. Praticamente vazio, a não ser por uma jovem com um livro cujo título me chamou atenção, Todas as cidades, a cidade. Um rádio no balcão tocava um sucesso de Elis Regina. Voz de Pedro Mariano.

Manchas torturadas. E eu sem meu Tiradentes esquartejado. Foi-se o tempo dos açougues no Brasil, mas as tardes continuam caindo como viadutos, museus. O que fazer com o cristal quebrado das cidades? Peço uma cerveja e sento para refazer a agenda. Só então a jovem leitora se dá conta de minha figura. Sorri. Ainda tenho quatro dias de promessas juiz-foranas pela frente. Semana que vem vou ao Rio. Quem sabe lá encontro A carioca?