quinta-feira, 7 de junho de 2012

Antiode para as administrações verticais, de Oswaldo Martins

para alexandre faria, companheiro de desabdulagens


Pois viu por sobre a cama
O terno de Farid
E viu dependurado
Abdula num cabide
(Noel Rosa)

há abdulas e abdulas neste mundão de deus! uns abdulam para si próprios; outros desabdulam seus cofres, forjam a festa intimorata das palavras.

os que desabdulam não verticalizam as relações de amizade, trabalho ou governanças desabdulam a música, a literatura, os amores e sobretudo desabdulam o sobretudo de desabdular as entranhas fétidas das instituições ou os provérbios dos sábios de salomão.

preferem as relações horizontais, coordenativas e anárquicas abdulusam das vírgulas dos abusos das sempre inventivas formas do não e sobre os comandados dos falsos regimes democráticos impõem o escárnio e o maldizer das regras sociais

preferem as horizontalizações dos conteúdos - uma mulher deitada é mais bonita – melhor se deitada nua – que as parafernálias dos vestidos que as põem de pé e abaixam a crista e abaixam o sexo e abaixam o sabor o cheiro o ardor a que todo saber deve conduzir livre e fogoso como um potro ou uma potranca no pasto.

preferem a carne em pé à hierarquia dos casais abdularizados e que guardam o quinhão para os filhos e filhas se casarem nas igrejas nas sinagogas nos terreiros

os filhos dos abdulas que abdulam, formolizados pelos pais, irão morar em casas acasteladas –  nestas casas o ventre parco do saber habita – e dos pais herdarão a unha e o sucesso da sucessão as contas bancárias e a preocupação em criar a ciranda das idiotices que repetirão a seus fihos – os abdulazinhos.

ao meterem o bedelho na carta de vinhos nas matemáticas somáticas nos conchavos e na proteção ao crédito ao descrédito ao sorumbático decreto da pobreza, comandarão as usinas dos pensamentos midiáticos e à porta dos shoppings desinventivos da unicidade, abrirão anchas palavras, organizarão filas intermináveis para as novidades viciadas para os cineteatros cuja sabedoria está na repetição do repetitório absurdo da repetição para a sopa dos pobres e dos nobres sentimentos cristãos

só lamentam os coitadinhos não poderem empilhar suas filas em verticais hierarquizações, pois assim verticalizadas as filas se multiplicariam como se multiplicam a incompetência, a sandia sandice dos sandeus, a burrice com que enfim tomam o mundo com suas garras de abdulas recém formados.

de oswald aprenderão a conjugação que lhes aprouver:
eu abdulo
tu abdulas
eles hão de abdular
como se nós abdulássemos
ou como se
inventássemos o verbo crackar

como gostam de conjugações os abdulas – que abdulam –  por isso para as conjugações até inventaram uma teoria uma reza ou um mantra ou uma oração

empilhar verbos e
edifícios verticais
e moedas de ouro
como empilhar as
consciências

prepará-las talvez para a imitação dos pulhas e assim criar bilhões de pulhazinhas de menor porte de menor corte pois que os abdulas não admitem concorrência e devem nomear os candidatos a abudula (que abdulam) do conveniente nome de pulhas já que se ultrapassarem em pulhice àqueles abdulas sob as penas da lei salvaguardarão os verdadeiros pulha-abdulas ou abudula-pulhas, de vasto cardápio e seleção – oh senhor

empulhar verbos e
edifícios verticais
e moedas de ouro
como empulhar as
consciências


dos que deambulam por deambular e que por deambular desabdulam as consciências abduluzidas e estanques do estar em ser por demais verbosas

enquanto os andrajos batem à pilha à porta das incompetentes e verticalizadas soluções milagrosas

(oswaldo martins)