quinta-feira, 29 de março de 2012

Todos no meio

Para a Tati Franca

Para o Edu Tollendal

Aos vinte eu não sabia nem o que pensava, mas (que bom!) tinha uma certeza danada. Aos 40 pelo menos sei que não sei bem o que faço. Estamos sempre no meio. É uma ideia bem instigante. Pesquei-a numa canção de Péricles Cavalcanti e Arnaldo Antunes, gravada por Adriana Calcanhotto. Receita para se compreender e superar o medo de quem se acha no começo e a pretensão de quem se julga no fim: ninguém no início ou no fim. Diz a letra:

Antes de mim vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aqui
No meio do caminho dessa vida
Vinda antes de nós
E estamos todos a sós
No meio do caminho dessa vida
E estamos todos no meio
Quem chegou e quem faz tempo que veio
Ninguém no início ou no fim
Antes de mim
Vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aí

Outro dia escrevi aqui sobre a intensidade de uma presença que reverte as promessas calcadas no vazio. Alguns leitores me comentaram com senões. Curtiram muito a ideia, mas lamentaram eles também não possuírem a tal intensidade. Mas quem a tem? Analisando bem, a canção de Caetano despista. “A tua presença” inventa uma segunda pessoa que inevitavelmente escorregará nas projeções românticas, nas invenções do outro.

Aqui, agora, na letra de Antunes, temos pista melhor: estamos todos a sós. Ter a presença é ter a si e ter a si é não se alienar ao tempo. Pelo menos a esse tempo linear, teleológico, que envelhece e mata. Envelhecer é uma merda, me disse o Gilvan que teria dito o Amado ao Ubaldo. E como lutar contra esse tempo, contra essa cabeça, como diria Vian, que me serve a me prever sem vida?

Para essa pergunta a canção também deixa pistas: estamos todos aí. Pode sugerir, mas não é um gesto blasé. Leio esse estamos aí como consciência possível do aqui agora. A forma solidária de dar e pedir a mão. Aos meus velhos e aos meus meninos. Sem certezas, principalmente. Se é fato que as coisas mudam, e que a prata dos cabelos às vezes contém experiência, como não capitular às certezas do excesso de segurança dos veteranos ou da insegurança dos calouros da vida?

Não sei. Mas estamos aí.

“Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.” (Murilo Rubião)

domingo, 18 de março de 2012

Promessa de presente

para Julio Diniz, hoje
à memória de Ericson Pires, sempre

Promessa e presença. Há uma canção de Caetano Veloso que articula brilhantemente esses dois termos. Diz a letra: "a tua presença mantém sempre teso o arco da promessa". A alusão bíblica é recorrente. Mas a maneira como o compositor a elabora parece bastante singular. Transgressora em relação ao senso comum que, até mesmo por inspiração religiosa (ou metafísica), concebe a vida como promessa do que está ausente. Ignora a evidência da presença e compreende a realidade através de ideias, projeções. Deus, essência, verdade, beleza etc. Promessas.

Outra canção famosa exemplifica bem isso: tudo viver a teu lado com o arco da promessa no azul pintado pra durar, diz o amor de índio de Beto Guedes. O arco da promessa garante a duração. É a promessa de quê? De futuro, de eternidade, de um tempo-espaço onde caiba o tudo a viver. Eis a fenda por onde a ausência se infiltra. Amar o sonho, mais que a vida. O amor mais que o amado. A presença vira objeto da promessa. Assim o é também no mito de Noé: veja o arco-íris e lembre-se do pacto divino. Depois desse, não espere mais dilúvios. O sinal, no entanto, não é presença, sequer manifestação, mas referência, índice. Conectivo entre um mundo a construir por humana e falha fábrica e promessa-esperança de que deus proverá pleno. Proveu? Ah, eterno futuro, como empobrece os nossos presentes!

Mas isso não é um problema das religiões apenas. Talvez só esteja nessa matriz metafísica a origem de um jeito de ser que o cotidiano evidencia. A dieta começa na segunda-feira; a vida melhor virá com a formatura; a felicidade, com a aposentadoria. Cada vez mais sinto que vivemos num mundo de pessoas gordas, tristes e frustradas. Odeiam o que fazem, mas o fazem pela promessa de um devir e se frustram porque (preciso dizer?) não virá. Não assim, como se espera, como se promete. Vida é acaso, imprevisível. Só tolos se precavêm "porque pode acontecer algum imprevisto".

É aí que entra com potência os versos de Caetano. Naquela formulação a presença não é objeto da promessa, mas sua condição. A tua presença mantém sempre teso o arco da promessa. A carga de conotações físicas e eróticas do adjetivo, bem como todas as referências ao corpo em outras passagens da canção, realça a ideia de que a presença é da ordem dos sentidos físicos - pelos olhos boca narinas e orelhas. Mas diferente de um ritual canibalesco e macabro em que se come o corpo e se bebe o sangue para forjar o deus no meio de nós, a presença da canção é alegremente negra negra negra negra, de deuses que dançam, uma celebração tesa e tesuda. E sem ela não é possível qualquer promessa. Há nisso muito que se aprender. Sobre o amor, a arte dos encontros; sobre a saúde, o cuidado dos corpos; sobre o devir humano, a vida como uma forma mínima e digna de habitar o mundo. Sobre a revolução, outra forma de dar as mãos, de prender-se à vida, de olhar os companheiros. Sobre a Utopia, que nunca podemos achar que seja promessa de mundo melhor, mas maneira delicada de compreender e viver o aqui-agora.

Carpe diem!