quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Um adeus a 2012



2012 foi esmerado
no enterro do século XX
mas ninguém há de mandá-lo
à puta-que-o-pariu como fez
o Poeta com 1973

sobra muito no espólio
e poucos para a partilha

utopistas do pão nosso
sem parábolas nem legendas

psicanalistas de sistemas, redes
e nós, simulacros de avatares

vanguardistas do inferno -
sem Dante ou Sartre - verbo frio

ecologistas de fastfood
sem catadores do seu luxo

e a quadrilha dos bin lacs
arrivistas da miséria alheia

ó arrimos de wall street a poesia
será sempre a morta de fome

o século perdurará
eterna noite no Phillies

tristeza, medo, esperança
contos de Sherazade

e ninguém saberá
das guerras das ditaduras

dos reis nus, sheikes, batistas


2012 foi esmerado
no enterro do século XX
Hobsbawn, Niemeyer, Dona Canô,
acaba o mundo
e o outro parece surgiu

sem extremos
sem curvas
sem cantores

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A outra face

este menino ao nascer
- ensinam velhas doutrinas -
esqueceu na manjedoura
toda fome de viver
e não há maior mentira
(como karl marx aos marxistas
superhomem aos nietzschianos
prefiro o cristo aos cristãos)
dele não só pão e vinho
aprendo também a fome
não só promessa e esperança
mas dúvida e tentação
arestas da humana vinha
embriagez que não separa
as faces da mesma moeda
barba e cabelo mendigos
olhos azuis de um skinhead

--
Enviado do meu celular

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Ilustração para fotos

Ilustrações para as fotos das últimas postagens:

 Achei que seria assim:
"-- Não faz mais não! -- pediu, cuspindo água. -- Você quase me...
Afundeio-o de novo, com força, e o mantive debaixo d´água por mais tempo. Puxei-os pelos cabelos e vi seus olhos esbugalhados num apelo mudo, o rosto transtornado, a boca arfante... Empurrei-o para o fundo pela terceira vez e senti seu corpo se contorcer frenético tentando livrar-se, as mãos ansiosas arranhando-me o punho. Firmei-me na pedra, a segurá-lo sempre dentro d'água, que borbulhava ao redor de meu braço, espumando. Vi ainda um pé se erguer num coice desesperado, quebrar a superfície e desaparecer de novo. O corpo palpitante sob minha mão relaxava, sem forças, abandonado. Dei-lhe um último empurrão e me ergui, afinal. Voltei-me sem pressa, comecei a descer a montanha."
(Fernando Sabino)

Mas foi assim:  
"He cavilado mucho sobre este encuentro, que no he contado a nadie. Creo haber descubierto la clave. El encuentro fue real, pero el otro conversó conmigo en un sueño y fue así que pudo olvidarme; yo conversé con él en la vigilia y todavía me atormenta el encuentro."
(Jorge Luis Borges)

 

sábado, 17 de novembro de 2012

3 cenas

1
Não o quanto envelheceram os mais velhos pelos anos em que eu porralouca. o bom da grita são abraços boas vindas ao menino que nunca saiu do lugar.

2
Mesmo que o hoje seja contra palavras simples daquelas boas, e eu o antilugar, o ecumênico do não crer, mesmo que. não é ressentido o silêncio que se cola.

3
Se uns ficam com a resposta das crianças, outros calam para tentar ouvir além do estardalhaço. Balanço entre a festa fuga e a inteireza do quase nada. E é quando digo é a vida (mas não o escrevo), que descubro o quanto não cabe.

Ave Palavra


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Na exposição Gil70



Oriente (Jarbas Jácome)














Adoro a ideia de envelhecer, acho um privilégio. Se a pessoa adquire bonsa hábitos, zela por si e consegue manter a saúda, não há período mais belo na vida, quando você se soma à sabedoria. (Gilberto Gil)


domingo, 9 de setembro de 2012

Lágrima palhaça: a poesia-semante de infância e memória, por Tânia T. S. Nunes


Tania T. S. Nunes, doutoranda UFF

                                  O bote é cilada / Adverte à naja
  A flauta do encantador
 Melhor seduz / Quem se deixa dominar (p. 23)

                Em tempos de corpos enrijecidos e descrentes da vida, o título de um livro de poemas pode soar reticente e desafiador. A princípio, Lágrima palhaça é aquela que o mundo já não comporta, mas que insiste em rolar. Poderia ser uma lágrima escondida, envergonhada. Afinal, vivemos tempos duros, um mundo quase destituído de sentido em que a lágrima sentimental, ingênua ou de alegria já não tem mais espaço para correr e molhar nossos rostos.
            E, por esse caminho, adentremos a poesia de Alexandre Faria,Lágrima Palhaça (Aquela Editora, Juiz de Fora, 2012). A edição em formato de bolso sugere que a poesia seja carregada no dia-a-dia. As letras do título estão penduradas, estilo bonecos de marionetes. Desconfia-se que algo mais queira dizer... O “G” invertido aponta para um avesso. Tudo isso são só coincidências ou poderão trazer sentido para a leitura dos poemas que se oferecem por trás da forte seara verde da capa? Qual a expressão desse avesso?
            O número de poemas da obra integra um universo mágico. São vinte e cinco. Vinte e cinco foram também os anos de engavetamento desses escritos, nos diz o poeta em Nota prévia. Mas algo mais se começa a descortinar em Papo de Bilheteiro, texto inicial de André Capilé e, também, no título do primeiro poema: Circo. A temática aí vai anunciada.
            Estamos em terras perigosas que nos aproximam do mundo encantado da magia circense onde a poesia de Alexandre passeia subentendida de infância e embutida na memória, na delicadeza dos gestos, no riso retirado facilmente até na cena mais simples e comum pelo palhaço.
            A poesia-criança de ver o mundo com olhos puros, olhar sonhador de menino ingênuo que ainda não sabe o tempo porvir, mas vive o presente feliz, crédulo e crente, a  acreditar no que vê e no que intui em seu imaginário.
            Hoje tem marmelada?
                Hoje tem goiabada?
               
Tem sim senhor!  Tem poesia. Pão e circo eram de que precisava o povo antigo. Poesia é alimento, é pão e criação. De poesia e circo, todos precisam. Vamos nos lambuzar! Vamos “descobrir à vista, o que não havia sido posto à venda”, anuncia o Bilheteiro. Esse é o ingresso em Lágrima Palhaça. Essa é a magia para penetrar na mágica das poesias de Alexandre Faria. Unir os sentidos ao sentido.
            A expressão do avesso é o palhaço, a figura ambígua. “É o avesso da mentira,/ Pintura que se retira/ E desvenda outra mentira, É o verso.”(2012, p. 13).
            No primeiro poema, o G invertido da capa sobressai nos elementos da composição. Lê-se: “O palhaço/ ... E todos os seus filhos/ São palhaços, / Marionetes dos risos, /Vedetes do circo,/ Objetos de uma alegria / Que o próprio show proporciona,/ Gargalhada que sempre funciona / Na única vida como vida.// O palhaço / É a lágrima proibida, /O tempero ardido/ Do seu prato de comida,/ É o verso / desgastado, corroído, / Medo e ira disfarçados, /Riso e festa plagiados / Único verso já escrito”. (2012, p. 13).
            Gargalhada desgastada, riso e festa plagiados: é o verso, é a alegria contida, é a figura ambígua do palhaço. É o poema. Todos esses elementos, em tempos medrosos de mendicância social e cultural, insistem em sobreviver. A Lágrima Palhaça é a lágrima proibida.
            E o poeta ao ser indagado sobre se há sentimentalidade em Lágrima Palhaça aponta o poema Amor:  
            O que esfria a mulher do atirador
                Não é o risco do milimétrico desvio
                O tiro de venda nos olhos
                O rufo o silêncio os ohs dos vizinhos//
                Nem o quanto lhe cabe das plantas //
                Nem o cuidado que ele tem com a tábua (2012, p. 32).
           
O que esfria a mulher do atirador? O poema não responde. Mas não é preciso dizê-lo. Está no título do poema. O cuidado que ele tem com a tábua e com a arte implica no avesso da vida, o cuidado em preservar o amor na figuração da mulher entregue às facas. E, ela ante o perigo da vida entrega-se ao risco, ama e sente-se amada naquele momento.
No entanto, não instile a memória de um adulto sensível ao falar da infância, do circo, do palhaço, das marionetes e malabares porque a lembrança refaz-se rapidamente no tempo seja ele em que distância estiver. São imagens marcadas a gargalhadas no inconsciente coletivo.  Isso éTrânsito. Nesse poema se lê: “São malabares as motos / Do globo da morte” (2012, p. 26). São malabares as nossas lembranças escondidas e, às vezes elas precisam transitar pelo tempo presente para fazer o homem não esquecer de que está vivo e a morte espreita a qualquer momento, porque“A criança no retrato/ Uma jaula// E o futuro não era presa / do adulto”(2012, p. 36).
            Lágrima Palhaça são instantes de poesia. São puras gotas de arte em pequenos frascos trabalhados com muito amor sobre o verso-criança. Poucos versos, o jogo da métrica presente no sentido das palavras.
O leitor vai enveredando... a memória vai escavando momentos e personagens do circo... verso a verso... até a última sílaba: Plantio“Ri do fim / Que essa lágrima fecunda”. É uma afirmação contundente. Mas ela surpreende e esvazia o leitor porque deixa o gosto de quero mais. Assim, a poesia é Sedução, é cilada. É como comer goiabada e não ter a chance de se lambuzar. E o poeta torna-se um Bamba. Constrói “pé ante pé / a vara / a sombrinha // Não há corda entre os extremos da espera”.
Seus versos são “eletrochoques para não esquecer”. Lágrima Palhaça pode até ser uma lágrima que não tenha razão de ser, mas é aquela que diante da solidão dos tempos e da memória escavada em vasos insiste em brotar. Por isso a partir dela esperamos sempre mais. Esperamos outros poemas, outras construções, outros exercícios de sutileza transformados em arte.
Lágrima Palhaça é, enfim, semente de poesia colhida em seara fértil. Como semente, só ela é capaz de gerar, nutrir, suprimir, suprir ou acudir como qualquer criação depositada pelas mãos de um poeta – sensível e dentro do mundo, no limite do desequilíbrio mas equilibrado entre o avesso e o vivido – pode produzir.
Riamos todos do fim...
Porque foi possível chegar lá. 

Literatura e Autoritarismo - Forças de opressão e estratégias de resistência na cultura contemporânea

Literatura e Autoritarismo - Forças de opressão e estratégias de resistência na cultura contemporânea

terça-feira, 21 de agosto de 2012

20 fotos da Colômbia


(com André Capilé, Fernanda Fernandes, Helena Marques, Roberto Nogueira e Tatiana Franca)

1
Cali, inteiriça no corte
das calles e carreras, parece uma cidade que só pode ser habitada pelos seus, mas nunca habitará ninguém. Dá a impressão de que, planificado o trânsito,
esqueceram planificar as almas.

2
Em Cartagena, o pequeno museu da inquisição. Em frente o museu do ouro. E não visitei mais igrejas.

3
Em Cartagena o tempo aflora em camadas. Na tinta das casas e dos sorrisos, na insistência buzina dos ambulantes tudo é história e "no, gracias".

4
La fora do La Camponera chovia. Colombia club e fiquei pensnado, pra que samba se tanta salsa?
os casais apaixonados
os cornos de balcão
os quadris em fúria
os bibelôs de console de carro

5
Uma Parati que tomou o Biotônico Fontoura do mar caribenho e uma Miami de espigões vistos da baía. Entre elas uma Lapa cuja Joaquim Silva desemboca no terminal rodoviário de Caxias, sem a tristeza dos bregas românticos. A salsa; em tudo a salsa.

6
Descasque a manga mais pra verde. Corte-a em palitinhos em volta do caroço. Ponha-os num plástico. Tempere com sal e limão. Agite delicadamente antes de comer.
Enquanto aí contavam pros escravaos que manga com leite faz mal?

7
Nos muros da Universidade, Che e FARC. Nos muros da universidade, a luta continua. Nos muros da universidade, a revolução. E ninguém os derruba?

8 HH
Do novo para o velho sistema, como quem sai de um shopping e entra noutro.

9
Parque del perro
Teddy guarda a praça dos namorados e craqueiros. Os bares fecham cedo para não molestar os vizinhos?

10
Loma de la Cruz. Faziam um sarau na praça e os artesanatos, segundo o Bernardo, vinham do Brasil.

11
Na praça del gato de tejada não há cidade desalmada. Cali, como alguns deuses, se disfarçam em gatos.

12
Candelária
No Gato Gris, Dali e Elouard. Homenagem à internacional no Café Colores e umas ondas de bruxaria com champingnon do Merlin. Se alguém quiser me bancar tipo num amores expressos, venho pra cá.

13
Candelária (foto roubada do Beto Nogueira): uma Ouro Preto cravada em São Paulo.

14
O beliche do povo da rua. A estudantada do dia vai pra balada às quatro da tarde. A noite é da canalha.

15
Chicha tem que provar pra saber. Provei. Outra vez provo de novo.

16
O ouro do museu do ouro tá no free style de Tostao e Slow

17
No doors rockeiros viram sal fossilizado.

18
Zipaquirá. A buseta quebrou no caminho. O sal da terra. Fé cega. Mineiro é mineiro, por que vocês não sabem?

19
Polícia
He seems so pleased to please them. Só seems.
Mas ninguémdemonstrou medo do caveirão.

20
Favelas do Rio
Por lá querem fazer igual. Não vai dar certo.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Antiode para as administrações verticais, de Oswaldo Martins

para alexandre faria, companheiro de desabdulagens


Pois viu por sobre a cama
O terno de Farid
E viu dependurado
Abdula num cabide
(Noel Rosa)

há abdulas e abdulas neste mundão de deus! uns abdulam para si próprios; outros desabdulam seus cofres, forjam a festa intimorata das palavras.

os que desabdulam não verticalizam as relações de amizade, trabalho ou governanças desabdulam a música, a literatura, os amores e sobretudo desabdulam o sobretudo de desabdular as entranhas fétidas das instituições ou os provérbios dos sábios de salomão.

preferem as relações horizontais, coordenativas e anárquicas abdulusam das vírgulas dos abusos das sempre inventivas formas do não e sobre os comandados dos falsos regimes democráticos impõem o escárnio e o maldizer das regras sociais

preferem as horizontalizações dos conteúdos - uma mulher deitada é mais bonita – melhor se deitada nua – que as parafernálias dos vestidos que as põem de pé e abaixam a crista e abaixam o sexo e abaixam o sabor o cheiro o ardor a que todo saber deve conduzir livre e fogoso como um potro ou uma potranca no pasto.

preferem a carne em pé à hierarquia dos casais abdularizados e que guardam o quinhão para os filhos e filhas se casarem nas igrejas nas sinagogas nos terreiros

os filhos dos abdulas que abdulam, formolizados pelos pais, irão morar em casas acasteladas –  nestas casas o ventre parco do saber habita – e dos pais herdarão a unha e o sucesso da sucessão as contas bancárias e a preocupação em criar a ciranda das idiotices que repetirão a seus fihos – os abdulazinhos.

ao meterem o bedelho na carta de vinhos nas matemáticas somáticas nos conchavos e na proteção ao crédito ao descrédito ao sorumbático decreto da pobreza, comandarão as usinas dos pensamentos midiáticos e à porta dos shoppings desinventivos da unicidade, abrirão anchas palavras, organizarão filas intermináveis para as novidades viciadas para os cineteatros cuja sabedoria está na repetição do repetitório absurdo da repetição para a sopa dos pobres e dos nobres sentimentos cristãos

só lamentam os coitadinhos não poderem empilhar suas filas em verticais hierarquizações, pois assim verticalizadas as filas se multiplicariam como se multiplicam a incompetência, a sandia sandice dos sandeus, a burrice com que enfim tomam o mundo com suas garras de abdulas recém formados.

de oswald aprenderão a conjugação que lhes aprouver:
eu abdulo
tu abdulas
eles hão de abdular
como se nós abdulássemos
ou como se
inventássemos o verbo crackar

como gostam de conjugações os abdulas – que abdulam –  por isso para as conjugações até inventaram uma teoria uma reza ou um mantra ou uma oração

empilhar verbos e
edifícios verticais
e moedas de ouro
como empilhar as
consciências

prepará-las talvez para a imitação dos pulhas e assim criar bilhões de pulhazinhas de menor porte de menor corte pois que os abdulas não admitem concorrência e devem nomear os candidatos a abudula (que abdulam) do conveniente nome de pulhas já que se ultrapassarem em pulhice àqueles abdulas sob as penas da lei salvaguardarão os verdadeiros pulha-abdulas ou abudula-pulhas, de vasto cardápio e seleção – oh senhor

empulhar verbos e
edifícios verticais
e moedas de ouro
como empulhar as
consciências


dos que deambulam por deambular e que por deambular desabdulam as consciências abduluzidas e estanques do estar em ser por demais verbosas

enquanto os andrajos batem à pilha à porta das incompetentes e verticalizadas soluções milagrosas

(oswaldo martins)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

quinta-feira, 29 de março de 2012

Todos no meio

Para a Tati Franca

Para o Edu Tollendal

Aos vinte eu não sabia nem o que pensava, mas (que bom!) tinha uma certeza danada. Aos 40 pelo menos sei que não sei bem o que faço. Estamos sempre no meio. É uma ideia bem instigante. Pesquei-a numa canção de Péricles Cavalcanti e Arnaldo Antunes, gravada por Adriana Calcanhotto. Receita para se compreender e superar o medo de quem se acha no começo e a pretensão de quem se julga no fim: ninguém no início ou no fim. Diz a letra:

Antes de mim vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aqui
No meio do caminho dessa vida
Vinda antes de nós
E estamos todos a sós
No meio do caminho dessa vida
E estamos todos no meio
Quem chegou e quem faz tempo que veio
Ninguém no início ou no fim
Antes de mim
Vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aí

Outro dia escrevi aqui sobre a intensidade de uma presença que reverte as promessas calcadas no vazio. Alguns leitores me comentaram com senões. Curtiram muito a ideia, mas lamentaram eles também não possuírem a tal intensidade. Mas quem a tem? Analisando bem, a canção de Caetano despista. “A tua presença” inventa uma segunda pessoa que inevitavelmente escorregará nas projeções românticas, nas invenções do outro.

Aqui, agora, na letra de Antunes, temos pista melhor: estamos todos a sós. Ter a presença é ter a si e ter a si é não se alienar ao tempo. Pelo menos a esse tempo linear, teleológico, que envelhece e mata. Envelhecer é uma merda, me disse o Gilvan que teria dito o Amado ao Ubaldo. E como lutar contra esse tempo, contra essa cabeça, como diria Vian, que me serve a me prever sem vida?

Para essa pergunta a canção também deixa pistas: estamos todos aí. Pode sugerir, mas não é um gesto blasé. Leio esse estamos aí como consciência possível do aqui agora. A forma solidária de dar e pedir a mão. Aos meus velhos e aos meus meninos. Sem certezas, principalmente. Se é fato que as coisas mudam, e que a prata dos cabelos às vezes contém experiência, como não capitular às certezas do excesso de segurança dos veteranos ou da insegurança dos calouros da vida?

Não sei. Mas estamos aí.

“Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.” (Murilo Rubião)

domingo, 18 de março de 2012

Promessa de presente

para Julio Diniz, hoje
à memória de Ericson Pires, sempre

Promessa e presença. Há uma canção de Caetano Veloso que articula brilhantemente esses dois termos. Diz a letra: "a tua presença mantém sempre teso o arco da promessa". A alusão bíblica é recorrente. Mas a maneira como o compositor a elabora parece bastante singular. Transgressora em relação ao senso comum que, até mesmo por inspiração religiosa (ou metafísica), concebe a vida como promessa do que está ausente. Ignora a evidência da presença e compreende a realidade através de ideias, projeções. Deus, essência, verdade, beleza etc. Promessas.

Outra canção famosa exemplifica bem isso: tudo viver a teu lado com o arco da promessa no azul pintado pra durar, diz o amor de índio de Beto Guedes. O arco da promessa garante a duração. É a promessa de quê? De futuro, de eternidade, de um tempo-espaço onde caiba o tudo a viver. Eis a fenda por onde a ausência se infiltra. Amar o sonho, mais que a vida. O amor mais que o amado. A presença vira objeto da promessa. Assim o é também no mito de Noé: veja o arco-íris e lembre-se do pacto divino. Depois desse, não espere mais dilúvios. O sinal, no entanto, não é presença, sequer manifestação, mas referência, índice. Conectivo entre um mundo a construir por humana e falha fábrica e promessa-esperança de que deus proverá pleno. Proveu? Ah, eterno futuro, como empobrece os nossos presentes!

Mas isso não é um problema das religiões apenas. Talvez só esteja nessa matriz metafísica a origem de um jeito de ser que o cotidiano evidencia. A dieta começa na segunda-feira; a vida melhor virá com a formatura; a felicidade, com a aposentadoria. Cada vez mais sinto que vivemos num mundo de pessoas gordas, tristes e frustradas. Odeiam o que fazem, mas o fazem pela promessa de um devir e se frustram porque (preciso dizer?) não virá. Não assim, como se espera, como se promete. Vida é acaso, imprevisível. Só tolos se precavêm "porque pode acontecer algum imprevisto".

É aí que entra com potência os versos de Caetano. Naquela formulação a presença não é objeto da promessa, mas sua condição. A tua presença mantém sempre teso o arco da promessa. A carga de conotações físicas e eróticas do adjetivo, bem como todas as referências ao corpo em outras passagens da canção, realça a ideia de que a presença é da ordem dos sentidos físicos - pelos olhos boca narinas e orelhas. Mas diferente de um ritual canibalesco e macabro em que se come o corpo e se bebe o sangue para forjar o deus no meio de nós, a presença da canção é alegremente negra negra negra negra, de deuses que dançam, uma celebração tesa e tesuda. E sem ela não é possível qualquer promessa. Há nisso muito que se aprender. Sobre o amor, a arte dos encontros; sobre a saúde, o cuidado dos corpos; sobre o devir humano, a vida como uma forma mínima e digna de habitar o mundo. Sobre a revolução, outra forma de dar as mãos, de prender-se à vida, de olhar os companheiros. Sobre a Utopia, que nunca podemos achar que seja promessa de mundo melhor, mas maneira delicada de compreender e viver o aqui-agora.

Carpe diem!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A luta continua

"Protesto é quando eu digo que algo me incomoda. Resistência é quando eu me asseguro que aquilo que me incomoda nunca mais acontecerá." (Ulrike Meinhof)

"Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, e luta é para uma vida inteira." (Sérgio Vaz)

Um poema de Antonio Machado

Todo amor es fantasía;
él inventa el año, el día,
la hora y su melodía;
inventa el amante y, más,
la amada. No prueba nada,
contra el amor, que la amada
no haya existido jamás.
(Antonio Machado)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Janeiro Poente

Continuo futucando os arquivos. Este vai fazer 20 anos de existência. E a cidade é a mesmo. Leio hoje no Sarau de Manguinhos.



prólogo: Olho D'água

este samba é só porque
minha terra tem primores
mulata palmeira guanabaras
sabiás braços abertos


lado um: VERÃO

me desterro
em tuas águas
e calçadas
tuas veias secas
cicatrizes
do corte de trilhos
e vilas
imersos em janeiro
profundo

me desterram
tuas águas
tuas pás levando
a lama e as ruínas
com que levanto
esta rePresa
de palavras
entre a ladainha eleitoral
e a draga da fé.

teu sangue é água é meu sangue
bebamo-nos
pelos dias que
me tomas
e pelos versos
que te dou
pois se és rio
sou mais


farsa: AVAL

é uma quarta-feira
de cinzas
sem carnaval
tenho um tiro
e uma culatra
e um país que se amassa
como lata de cerveja

reciclável


lado dois: PRESA

presuntos no fundão
putas de ipanema
estupradas no aterro
merda no mar da ilha
do governador
teu comando em bangu um
outro out-door explica:
recuperamos esta rua
durante a noite
para seu conforto
e de teus turistas, rio
que no cio
predam a noite
a madrugada é varada por uma linha menstruada o sol não nasce, o rio se põe, desemboca
em são cristóvão
onde o peão
braços abertos
mãos ao alto
sebastião alvejado
te criva e se curva
ao fRio
de janeiro
fevereiro e março
inverno de 92.