domingo, 15 de maio de 2011

O nome e a mulher


No rádio do carro hoje, todas elas juntas num só ser, do Lenine. Sempre que ouço essa canção algumas tantas coisas me ocorrem e dá vontade alinhavá-las. Não sei se vai dar costura, mas vou tentar.

Uma delas é um disco que tenho em vinil. E nunca mais vi por aí. Cheguei a copiá-lo pra mp3, mas tem umas faixas arranhadas e pulando. “Há sempre um nome de mulher”. É uma produção de 86, 87, por aí, bancada pela Fundação Banco do Brasil numa campanha de aleitamento materno. Os caixas das agências do BB vendiam o álbum duplo, com pérolas da canção popular brasileira, em gravações inéditas e exclusivas. Regra da compilação – todas as canções tinham nome de mulher. De Xanduzinha a Maria de Ana Maria (a gravação do Premê é hilária) a Luisa. Tem de tudo, mas ainda falta coisa. A impressão é de que tal playlist seria infinita.

A canção do Lenine dá essa mesma impressão, mas, apesar de referências internacionais, ainda assim faltam-lhe Anas e Joanas. Anas em especial. Talvez seja esse o nome mais recorrente da lista. Na época em que escrevia o AnaCrônicas, cataloguei umas 7 ou 8 da espécie. Pode perder para as Marias, não sei. Mas não me contem Leilas que isso já é obsessão do Donato.

Sem nome de mulher no título, outra canção nos traz nomes de mulheres deliciosamente pronunciados – “Sol... langes e Leilas / Flávias e Pa....trícias / E Sô....nias e Malenas / Anas e Ma...rinas / E Lú....cias e Terezas / Glórias e De...nises / E luz eterna Vera / Rio, tempo de estio / eu quero suas meninas.” O mesmo Caetano tem uma lista grande e gostosa de nomes de mulheres em “Gente”, mas ali também tem nomes de homens e outros bichos. E gente não vem ao caso, é outra coisa.

No entanto, o curioso, na canção do Lenine, é que a mulher não é nomeada. Só você / Todas elas juntas num só ser. Você é o nome de todas as musas de poetas. Na maioria dos casos é um você vicário, pronome-vaga que aparece lá na letra das canções. Quando não vem a ser o próprio título, como você que tanto tempo faz, do Roberto e Erasmo e “você, você” do Chico Buarque. E veja-se lá quem é o verdadeiro rei dos piropos.

E se o nome some e na memória fica só a bocetinha e a consciência de que não se sabia fazer girar a vida? Ficam outros nomes mas não o dela. Não era Helena, nem Vera, nem Nara, nem Gabriela, nem Tereza, nem Maria. Quem na vida nunca entrou por uma boca cujo nome perdeu-se na noite fria que atire a primeira pedra. Não em mim, no Gullar.

Outra coisa que me lembra toda essa história é um antigo companheiro de cela e eletrochoque. Dividimos a mesma bancada por um bom tempo. Ele começara a beber, cheirar e fumar, dizia, por causa de uma mulher que o abandonara. Além disso, também ia muito ao analista. Até o dia em que percebeu que tudo o que sua fala continha, quando se referia à senhora dos seus tormentos, era um nome e não uma pessoa. Livrou-se do analista e ficou só com os outros vícios. Soube mais tarde que foi se abstendo deles também e - imaginem por que – por uma nova mulher.

Enfim, entre o nome e a mulher, não se estabelece a mesma relação que há entre significante e significado, entre a palavra e a coisa (embora Vinícius não tenha relutado em nomear sua garota coisa linda que vem e que passa). É uma relação mais densa, mais complexa, como a que há entre a palavra e o sonho, com a crença de que a palavra realiza os desejos. Talvez venha daí tanta poesia com seus nomes.

PS1: Penso em listar TODAS(?) as canções com nomes de muher. Quem puder, me ajuda através dos comentários.

PS2: Se alguém souber de um que tenha o Há sempre um nome de mulher para baixar, me avisa.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

De como a ironia faz bons moços

"1920
4 de Janeiro
Estou no Hospício ou, melhor, em várias dependências dele, desde o dia 25 do mês passado. Estive no pavilhão de observações, que é a pior etapa de quem, como eu, entra para aqui pelas mãos da polícia.
(...)
Não me incomodo muito com o hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza que não sou louco, mas devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material há 6 anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro.
Além dessa primeira vez que estive no hospício, fui atingido por crise idêntica, em Ouro Fino, e levado para a Santa Casa de lá, em 1916; em 1917, recolheram-me ao Hospital Central do Exército, pela mesma razão; agora, volto ao hospício.
Estou seguro que não voltarei a ele pela terceira vez; senão, saio dele para o São João Batista, que é próximo. Estou incomodando muito os outros, inclusive os meus parentes. Não é justo que tal continue."
(Afonso)

"E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo"
(Francisco)


Isso sem falar no Joaquim.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O homem lúcido


(do filme "Separações", de Domingos de Oliveira)

O homem lúcido sabe que a vida é uma carga tamanha de acontecimentos e emoções que nunca se entusiasma com ela, assim como não teme a morte. O homem lúcido sabe que viver e morrer são o mesmo em matéria de valor, posto que a Vida contém tantos sofrimentos que a sua cessação não pode ser considerada um mal.

O homem lúcido sabe que é o equilibrista na corda bamba da existência. Sabe que, por opção ou acidente, é possível cair no abismo, a qualquer momento, interrompendo a sessão do circo.

Pode também o homem lúcido optar pela Vida. Aí então, ele esgotará todas as suas possibilidades. Passeará por seu campo aberto e por suas vielas floridas. Saberá ver a beleza em tudo. Terá amantes, amigos, ideais. Urdirá planos e os realizará. Resistirá aos infortúnios e até às doenças. E, se atingido por algum desses emissários, saberá suportá-los com coragem e mansidão.

Morrerá o homem lúcido de causas naturais e em idade avançada, cercado por filhos e netos que seguirão sua magnífica aventura. Pairará então, sobre sua memória uma aura de bondade. Dir-se-á: aquele amou muito e fez bem às pessoas.

A justa lei máxima da natureza obriga que a quantidade de acontecimentos maus na vida de um homem iguale-se sempre à quantidade de acontecimentos favoráveis. O homem lúcido que optou pela Vida, com o consentimento dos Deuses, tem o poder magno de alterar esta lei. Na sua vida, os acontecimentos favoráveis estarão sempre em maioria.

Esta é uma cortesia que a Natureza faz com os homens lúcidos.