quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Confissão de fé

Tem um formato especial e por isso tive que salvar como imagem. Mas acho que dá pra ler. É só clicar na imagem e apertar ctrl + que o browser amplia.



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Moonlight serenade

Para ouvir:
http://www.youtube.com/watch?v=n92ATE3IgIs

Para cantar:

Mar, grande mar
Belo espelho da luz das estrelas
Você, quebra mar
Minha onda de amor contra o seio
Depois do anseio
Enleio no leito ao luar
Bar é o lugar
De contar como somos felizes
Daqui ouço o mar
Por mais longe que ele esteja
Me beija de leve
Azul, serenata ao luar
Mas se o destino rir de mim
E armar mais solidão
Vou pra beira mar chamar você
Pro canto do mar te devolver pra mim
Mar e luz, mar e céu
Mar e lua crescente
Estrela no adeus
Faz com que tua luz me proteja
Me beija de leve
Azul, serenata ao luar

(M.Parish - G.Miller
Versão de Aldir Blanc)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Gosto dos meus

GOSTO DOS MEUS

e não puxo o saco
dos teus ou daqueles outros formidáveis
'eus' em frenética comunhão de sestros íntimos
especulados em santa imagem alheia e prostituída

Gosto dos meus
do meu tempo do meu cio
do meu ócio do que não fiz prezo imensamente
minha não-realização milagrosa minha inércia extraordinária
merecedora da minha mais profunda
reverência embevecida

Gosto dos meus
do meu vazio do meu nicho ínfimo do meu
vinho derramado que pundonorosamente
não embriaga santos nem perturba o fastio
de qualquer douta inteligência generosa
ou desabrida

Meu vício é só e lícito
e não atende a domicílio

Meu vício é gostar dos meus
e do nosso tempo dado de Graça
às musas do ante-parnaso

do por acaso do azo de não
querer nada que não seja somente por graça...
(e não é senão essa a inútil matéria da vida?...)

Gosto dos meus
que não falam poesia, que não
gostam de poesia que não entendem
nada da minha ou de qualquer poesia
mas fazem em mim a poesia
não transubstanciada em qualquer lauda conhecida

Gosto dos meus
dos que gostam de mim e perdem seu
tempo com a pilhéria do meu atrapalhamento
de "poeta" albatroz - tufão de catavento -
fazendo-me gozar a presença ubíqua dos meus
a rirem-se em mim

Gosto dos meus
dos que juram que não rezam por mim só por
saberem que não acredito em Deus
mas que ainda assim rezam - e rezam
por mim no altar lúrido da esquina vulgar
com a fé secular e irrestrita e sobretudo em vão
e enfim em que sobre todas as coisas

Gosto dos meus
e não dos Teus,
que, com certeza divina,

só velam por Si

(Érico Braga Barbosa Lima)

...: Palavra do fim da primeira década do século do futuro.

A história tá bem contada e fotografada aqui:

...: Palavra do fim da primeira década do século do futuro.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Fechado pra balanço

Tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Deve ser bom

Um samba de roda, um coco
Um xaxado bem guardado
E mais algum trocado
Se tiver gingado, eu tô, eu tô
Eu tô de corpo fechado, eu tô, eu tô

Eu tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Deve ser bom

Um pouco da minha grana
Gasto em saudade baiana
Ponho sempre por semana
Cinco cartas no correio

Gasto sola de sapato
Mas aqui custa barato
Cada sola de sapato
Custa um samba, um samba e meio

E o resto?

O resto não dá despesa
Viver não me custa nada
Viver só me custa a vida
A minha vida contada

(Gilberto Gil)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Não dá mais pra Diadorim - em duas versões

DALTON TREVISAN:

Otto,

Falemos mal do Grande Sertão. Rompe você ou começo eu?

La vai em pleno dó de peito: o Rosa é o herdeiro de José de Alencar, epígono do novo indianismo. Seu jagunço pomposo, guardada a distância, o mesmo índio guarani. Riobaldo, um Peri sofisticado, e Diadorim, outra virgem dos lábios de mel (as suas líricas meretrizes são perfis de Lucíola).

Um cronista genial, a mão leve de beija-flor, mas – ai de mim – romancista menor. Riobaldo não se sustenta nas alpercatas e Diadorim, coitada, é pura donzela Arabela (“já fazia tempo que eu não passava navalha na cara, contrário de Diadorim”; logo, ela fazia a barba?).

Na paisagem naturalista os tipos de um romance desgrenhado. Não é Riobaldo sem veracidade nem grandeza, epa!, que me interessa e sim o trovador do sertão: a gente, os bichos, a paisagem.

Que de variações retóricas sobre a sentença de Dostoievski – “se Deus não existe, tudo é permitido”. Como sabe enfeitar de plumas e lantejoulas o seu chorrilho de platitudes: “Um dia todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação” - Diadorim... foi imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia!”

A forma é inovadora, mas o fundo reacionário. Uma frase de efeito? Não nego a protofonia verbal do Rosa, patativa de mil gorjeios. Estilo criativo a serviço de quê? A história menos plausível na literatura de travesti.

Me irrita a inverossimilhança absoluta: a convivência forçada de todas as horas, como pode? Semanas no desolado, onde uma árvore atrás da qual se esconder? Dias e dias prisioneiros na fazenda, sem uma bacia de água para lavar os paninhos etc.

O tema do travesti é antigo e recorrente, sejo no teatro, seja no romance de cavalaria. Basta ver as novelas que entremeiam o Dom Quixote. Todas porém cuidam de preservar o mínimo de credibilidade – a heroína vive solitária no bosque e fugaz é sua aparição em sociedade.

O tema insinuado e não assumido no livro seria, isso sim, o amor que não ousa(va) dizer seu nome. Diadorim fêmea, no bando recluso de jagunços, é uma dália sensitiva de fantasia. Adeusinho, Diadorim gentil,

Salve, salve, ó feroz Diadorão.

E tudo faria sentido. O livro ganhava realidade sem vez de artificialismo. Eis que o autor arrepiou caminho. Erro fatal de composição – não foi veraz.

Ainda pretendem compará-lo a Joyce: pouco vale pirotecnia verbal sem originalidade de espírito. Acho mais audácia em duas frases do Dom Casmurro (“Mamãe defunta, acaba o seminário” e “uma das consequências dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho: antes lhe pagassem a lepra...”) do que em todo o Grande Sertão.

O Rosa é tão comportadinho (sou arrebatado pela fúria das palavras?), essa viadagem enrustida me deixa tiririca: suas mulheres – até as putinhas, meu Deus! – nunca tiveram nada entre as pernas.

Ele não me engana – escreve diferente, bem que pena convencional...

Três pontinhos, epa! Que frescura é essa? Comigo, machão que sou, reticência não tem vez.

Gostou do exercício frívolo de leitura? Para o meu novo livro espero igual tratamento. Agora é a sua vez Otto.

Quês eja o esporro de uma pororoca, uai!, jmais comprimida em leito de Procusto. A frase não é do major Siqueira e sim minha.

Dalton

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RUBEM FONSECA:

Não existe nem mesmo uma literatura brasileira, com semelhanças de estrutura, estilo, caracterização, ou lá o que seja. Existem pessoas escrevendo numa mesma língua, em português, o que já é muito e tudo.
(...)
Eu nada tenho a ver com Guimarães Rosa, estou escrevendo sobre pessoas empilhadas na cidade enquanto os tecnocratas afiam o arame farpado. Passamos anos e anos preocupados com que alguns cientistas cretinos ingleses e alemães (Humboldt?) disseram sobre a impossibilidade de se criar uma civilização abaixo do Equador e decidimos arregaçar as mangas, acabar com os papos de botequim e, partindo para nossas lanchonetes de acrílico, fazer uma civilização como eles queriam, e construímos São Paulo, Santo André, São Bernardo e São Caetano, as nossas Manchesteres tropicais com suas sementes mortíferas. (...) Não dá mais pra Diadorim.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Para fazer um samba

Parceria com Dú Basconça

Para fazer um samba enfim
Não basta ter o dom do amor

Mas cultivar até o fim
De seus versos, o quebrado
Da pobre rima, a sina errante
A prima e única ante o fado
Malsinado dos amantes:
Abandonar a mesa farta
E o corpo num sofá distante

Não basta dar o tom, amor
Para virar noites assim

Quando os boêmios tomam rumo
E vão dormir as meninas
É sobre o sono desses justos
Que vibram bordões e primas
A debochar dos que procuram
Outros motivos para a dor
Não fosse ele o primeiro e último

Não fosse para sempre e só o amor

Do samba
E esta alegria de dizer sim
Ao dia... ao dia que já raiou