sábado, 3 de abril de 2010

Recortes em torno da literatura periférica

Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer,
medo só de te sentir, encravada
favela, erisipela, mal-do-monte
na coxa flava do Rio de Janeiro.

Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver
Nem de tua manha nem de teu olhar.
Medo de que sintas como sou culpado
e culpados somos de pouca ou nenhuma irmandade.
(Carlos Drummond de Andrade)


Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.
(Mário de Andrade)

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.
(Ferreira Gullar)

Olá, Negro!
Negro que foste para o algodão de U.S.A.
Ou que foste para os canaviais do Brasil,
Quantas vezes as carapinhas hão de embranquecer
para que os canaviais possam dar mais doçura à alma humana?
(Jorge de Lima)

A capoeira não vem mais, agora reagimos com a palavra, porque pouca coisa mudou, principalmente para nós (…) Agora a gente fala, agora a gente canta e na moral agora a gente escreve. (…) Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto.
(Ferréz)

Será que eu preciso mesmo garranchear meu nome? Desenhar só pra mocinha aí ficar contente? Dona professora, que valia tem o meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta?
(...)
Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber o que assinou. Eu é que não vou baixar minha cabeça para escrever.
(Marcelino Freire)


VIAGEM
Quatro jovens
morreram na chacina
no fim da rua.
Conforme a notícia,
dois deles tinham passagem.
Os outros dois foram assim mesmo...
clandestinamente
(Sérgio Vaz)


Legume negrume
Podre podre
Fezes
Serve-te
Ou mesmo nada
A matadeira barata
Degustando
Ruminando
Os filhos bastardos dessa pátria.
(Rogério Batalha)


Na escola dez verdades sobre Isabel e Palmares.
Atenção, atenção, classe. Tomem seus lugares.
Dez verdades multiplicando em realidades.
Atenção, atenção, classe. Tomemos nossos lugares.
(Ridson Mariano da Paixão)


Enquanto eles capitalizam a realidade
eu socializo meus sonhos.
(Sérgio Vaz)


CAROLINA MARIA DE JESUS
Comprei um sapato lindo número trinta e nove
sendo que calço o número quarenta e dois. Andei
muito a pé, adoentei-me. Para acalmar os pés e
não repetir esse ato insano fiz uma salmoura de
água quente e ensinei crianças e adolescentes
que não se vende o próprio sonho.
(Maria Tereza)



COMICHÃO
As borboletas da minha terra
comem a abelha
cospem o mel

Lavando carniças
pichando zueiras de motim
colhendo relâmpagos do bolor.

O que lhes sangra
não é o espinho
mas a pétala, da flor.
(Allan da Rosa)




SENZALA
Meu avô
Meu pai
Eu
Meus...

Quando realmente vão
Derrubar o tronco?

Futuro
Sarjeta
Quilombo
Senzala
(Luiz Cláudio Barreto)



Preconceito é uma doença amarga, dura de curar.
Se digo isso é porque sempre senti na pele.
Era na igreja, na escola, em casa, sempre fomos discriminados,
dizem que agora melhorou, mas nem tanto assim.
Agora tem lei, pra nos favorecer.
Mas por baixo dos panos, continua em todo lugar.
(Maria Celeste do Nascimento)


BATIDAS RIMADAS
batidas rimadas
chicote engenho rei
senzala

batidas rimadas
miséria cela
branco vela verme
terra

batidas rimadas
ópio roça raça
fusão
lixo taça
nação graça

batidas rimadas
cruz machado
lima break
rima gueto

batidas rimadas
raiz ação evolução
situ ação exposição
proclam ação
Zumbi
(Maura Santiago)


DIÁRIO POPULAR
A esperança de ser um trabalhador
É maior do que o estampido de um fuzil
Ao acordar para mais um dia de lida
Sou refém do meu cotidiano
Amargo e incolor de segunda a quinta-feira
Mas na sexta termino num bar
E a vida já não é tão vazia quando peço a saideira.
(Douglas Pêgo)

UM DIA
Os sons das balas
Que não são doces
Estupram o meu sono

Alguém morre e outros vivem
No dia-a-dia de sonhos
Nada sei, apenas suponho
Que o dia irá amanhecer.
(André Luiz Silva)