quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Confissão de fé

Tem um formato especial e por isso tive que salvar como imagem. Mas acho que dá pra ler. É só clicar na imagem e apertar ctrl + que o browser amplia.



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Moonlight serenade

Para ouvir:
http://www.youtube.com/watch?v=n92ATE3IgIs

Para cantar:

Mar, grande mar
Belo espelho da luz das estrelas
Você, quebra mar
Minha onda de amor contra o seio
Depois do anseio
Enleio no leito ao luar
Bar é o lugar
De contar como somos felizes
Daqui ouço o mar
Por mais longe que ele esteja
Me beija de leve
Azul, serenata ao luar
Mas se o destino rir de mim
E armar mais solidão
Vou pra beira mar chamar você
Pro canto do mar te devolver pra mim
Mar e luz, mar e céu
Mar e lua crescente
Estrela no adeus
Faz com que tua luz me proteja
Me beija de leve
Azul, serenata ao luar

(M.Parish - G.Miller
Versão de Aldir Blanc)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Gosto dos meus

GOSTO DOS MEUS

e não puxo o saco
dos teus ou daqueles outros formidáveis
'eus' em frenética comunhão de sestros íntimos
especulados em santa imagem alheia e prostituída

Gosto dos meus
do meu tempo do meu cio
do meu ócio do que não fiz prezo imensamente
minha não-realização milagrosa minha inércia extraordinária
merecedora da minha mais profunda
reverência embevecida

Gosto dos meus
do meu vazio do meu nicho ínfimo do meu
vinho derramado que pundonorosamente
não embriaga santos nem perturba o fastio
de qualquer douta inteligência generosa
ou desabrida

Meu vício é só e lícito
e não atende a domicílio

Meu vício é gostar dos meus
e do nosso tempo dado de Graça
às musas do ante-parnaso

do por acaso do azo de não
querer nada que não seja somente por graça...
(e não é senão essa a inútil matéria da vida?...)

Gosto dos meus
que não falam poesia, que não
gostam de poesia que não entendem
nada da minha ou de qualquer poesia
mas fazem em mim a poesia
não transubstanciada em qualquer lauda conhecida

Gosto dos meus
dos que gostam de mim e perdem seu
tempo com a pilhéria do meu atrapalhamento
de "poeta" albatroz - tufão de catavento -
fazendo-me gozar a presença ubíqua dos meus
a rirem-se em mim

Gosto dos meus
dos que juram que não rezam por mim só por
saberem que não acredito em Deus
mas que ainda assim rezam - e rezam
por mim no altar lúrido da esquina vulgar
com a fé secular e irrestrita e sobretudo em vão
e enfim em que sobre todas as coisas

Gosto dos meus
e não dos Teus,
que, com certeza divina,

só velam por Si

(Érico Braga Barbosa Lima)

...: Palavra do fim da primeira década do século do futuro.

A história tá bem contada e fotografada aqui:

...: Palavra do fim da primeira década do século do futuro.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Fechado pra balanço

Tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Deve ser bom

Um samba de roda, um coco
Um xaxado bem guardado
E mais algum trocado
Se tiver gingado, eu tô, eu tô
Eu tô de corpo fechado, eu tô, eu tô

Eu tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Deve ser bom

Um pouco da minha grana
Gasto em saudade baiana
Ponho sempre por semana
Cinco cartas no correio

Gasto sola de sapato
Mas aqui custa barato
Cada sola de sapato
Custa um samba, um samba e meio

E o resto?

O resto não dá despesa
Viver não me custa nada
Viver só me custa a vida
A minha vida contada

(Gilberto Gil)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Não dá mais pra Diadorim - em duas versões

DALTON TREVISAN:

Otto,

Falemos mal do Grande Sertão. Rompe você ou começo eu?

La vai em pleno dó de peito: o Rosa é o herdeiro de José de Alencar, epígono do novo indianismo. Seu jagunço pomposo, guardada a distância, o mesmo índio guarani. Riobaldo, um Peri sofisticado, e Diadorim, outra virgem dos lábios de mel (as suas líricas meretrizes são perfis de Lucíola).

Um cronista genial, a mão leve de beija-flor, mas – ai de mim – romancista menor. Riobaldo não se sustenta nas alpercatas e Diadorim, coitada, é pura donzela Arabela (“já fazia tempo que eu não passava navalha na cara, contrário de Diadorim”; logo, ela fazia a barba?).

Na paisagem naturalista os tipos de um romance desgrenhado. Não é Riobaldo sem veracidade nem grandeza, epa!, que me interessa e sim o trovador do sertão: a gente, os bichos, a paisagem.

Que de variações retóricas sobre a sentença de Dostoievski – “se Deus não existe, tudo é permitido”. Como sabe enfeitar de plumas e lantejoulas o seu chorrilho de platitudes: “Um dia todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação” - Diadorim... foi imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia!”

A forma é inovadora, mas o fundo reacionário. Uma frase de efeito? Não nego a protofonia verbal do Rosa, patativa de mil gorjeios. Estilo criativo a serviço de quê? A história menos plausível na literatura de travesti.

Me irrita a inverossimilhança absoluta: a convivência forçada de todas as horas, como pode? Semanas no desolado, onde uma árvore atrás da qual se esconder? Dias e dias prisioneiros na fazenda, sem uma bacia de água para lavar os paninhos etc.

O tema do travesti é antigo e recorrente, sejo no teatro, seja no romance de cavalaria. Basta ver as novelas que entremeiam o Dom Quixote. Todas porém cuidam de preservar o mínimo de credibilidade – a heroína vive solitária no bosque e fugaz é sua aparição em sociedade.

O tema insinuado e não assumido no livro seria, isso sim, o amor que não ousa(va) dizer seu nome. Diadorim fêmea, no bando recluso de jagunços, é uma dália sensitiva de fantasia. Adeusinho, Diadorim gentil,

Salve, salve, ó feroz Diadorão.

E tudo faria sentido. O livro ganhava realidade sem vez de artificialismo. Eis que o autor arrepiou caminho. Erro fatal de composição – não foi veraz.

Ainda pretendem compará-lo a Joyce: pouco vale pirotecnia verbal sem originalidade de espírito. Acho mais audácia em duas frases do Dom Casmurro (“Mamãe defunta, acaba o seminário” e “uma das consequências dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho: antes lhe pagassem a lepra...”) do que em todo o Grande Sertão.

O Rosa é tão comportadinho (sou arrebatado pela fúria das palavras?), essa viadagem enrustida me deixa tiririca: suas mulheres – até as putinhas, meu Deus! – nunca tiveram nada entre as pernas.

Ele não me engana – escreve diferente, bem que pena convencional...

Três pontinhos, epa! Que frescura é essa? Comigo, machão que sou, reticência não tem vez.

Gostou do exercício frívolo de leitura? Para o meu novo livro espero igual tratamento. Agora é a sua vez Otto.

Quês eja o esporro de uma pororoca, uai!, jmais comprimida em leito de Procusto. A frase não é do major Siqueira e sim minha.

Dalton

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RUBEM FONSECA:

Não existe nem mesmo uma literatura brasileira, com semelhanças de estrutura, estilo, caracterização, ou lá o que seja. Existem pessoas escrevendo numa mesma língua, em português, o que já é muito e tudo.
(...)
Eu nada tenho a ver com Guimarães Rosa, estou escrevendo sobre pessoas empilhadas na cidade enquanto os tecnocratas afiam o arame farpado. Passamos anos e anos preocupados com que alguns cientistas cretinos ingleses e alemães (Humboldt?) disseram sobre a impossibilidade de se criar uma civilização abaixo do Equador e decidimos arregaçar as mangas, acabar com os papos de botequim e, partindo para nossas lanchonetes de acrílico, fazer uma civilização como eles queriam, e construímos São Paulo, Santo André, São Bernardo e São Caetano, as nossas Manchesteres tropicais com suas sementes mortíferas. (...) Não dá mais pra Diadorim.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Para fazer um samba

Parceria com Dú Basconça

Para fazer um samba enfim
Não basta ter o dom do amor

Mas cultivar até o fim
De seus versos, o quebrado
Da pobre rima, a sina errante
A prima e única ante o fado
Malsinado dos amantes:
Abandonar a mesa farta
E o corpo num sofá distante

Não basta dar o tom, amor
Para virar noites assim

Quando os boêmios tomam rumo
E vão dormir as meninas
É sobre o sono desses justos
Que vibram bordões e primas
A debochar dos que procuram
Outros motivos para a dor
Não fosse ele o primeiro e último

Não fosse para sempre e só o amor

Do samba
E esta alegria de dizer sim
Ao dia... ao dia que já raiou

domingo, 21 de novembro de 2010

Nobody Home (Roger Waters)

I've got a little black book with my poems in
I've got a bag with a toothbrush and a comb in
When I'm a good dog they sometimes throw me a bone in
I got elastic bands keeping my shoes on
Got those swollen hand blues.
Got thirteen channels of shit on the TV to choose from
I've got electric light
And I've got second sight
I've got amazing powers of observation
And that is how I know
When I try to get through
On the telephone to you
There'll be nobody home

I've got the obligatory Hendrix perm
And I've got the inevitable pinhole burns
All down the front of my favorite satin shirt
I've got nicotine stains on my fingers
I've got a silver spoon on a chain
I've got a grand piano to prop up my mortal remains
I've got wild staring eyes
I've got a strong urge to fly
But I've got nowhere to fly to
Ooooh Babe when I pick up the phone
There's still nobody home
I've got a pair of Gohills boots
And I've got fading roots.

La vie

"On fait toujours comme s'il avait quelque chose de plus important que la vie. Mais quoi?" (Albert Camus)

Geraldo Filme - antologia mínima

Negro falava de umbanda
Branco ficava cabreiro
Fica longe desse negro
Esse negro é feiticeiro
Hoje o preto vai à missa
E chega sempre primeiro
O branco vai pra macumba
Já é Babá de terreiro

Vá cuidar da sua vida
Diz o dito popular
Quem cuida da vida alheia
Da sua não pode cuidar
===================================================
Vocês é que nada sabem do que vai pelo sertão
Menina quando é bonita é presente pro filho do patrão.
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na hora em que eu nasci
mamãe me jogou na pista
"se cair deitado é padre, caiu de pé é sambista"
===================================================
Na escola de samba
aprende a rir,
aprende a sofrer,
aprende a chorar
mas não sabe ler
doutor qual o seu destino será?
===================================================
Quero ser sambista
Ao renascer de novo
Pra cantar a alegria
E desventura de meu povo
Quero ter muitos amigos
Como tenho atualmente
Cantar samba na avenida
E nascer negro novamente
===================================================
São Paulo, menino grande
Cresceu não pode mais parar
E o pátio do colégio quem lhe viu nascer
Um velho ipê parece chorar
Não tem a sua mãe preta
Na rua com seu pregão
Cafezinho quentinho, sinhô,
Pipoca, pamonha e quentão.
====================================================
Quem nunca viu o samba amanhecer
vai no Bexiga pra ver, vai no Bexiga pra ver

O samba não levanta mais poeira
Asfalto hoje cobriu o nosso chão
Lembrança eu tenho da Saracura
Saudade tenho do nosso cordão

Bexiga hoje é só arranha-céu
e não se vê mais a luz da Lua
mas o Vai-Vai está firme no pedaço
é tradição e o samba continua.

sábado, 20 de novembro de 2010

De como ocupar o lugar do morto


à memória de Angelo Colombo


se uns mortos nos dão vida
vivos há que só assombram

nuns a fava a falha do neto
que guarda em si um avô
fica não no jeito do gesto
no traço do resto mas na gíria
nos hábitos à revelia no ímpeto
da juventude na poesia contra
sisos e tinos ganas de abrigar
nas salas vip da memória
o café com a prosa da cozinha

pedras
e galinhas do quintal


mas jabuti cágado poeta
laureado tia rica visita ilustre
que toma assento na sala principal
estofador faxineira cobrador todo
douto que nos adentra quarto
e dor vizinho que perdeu a chave
a filha mãe de família a quem faltou
sal sabão vergonha e fósforo
esses nos assombram sem pena

até na
conclusão do poema

Dois poemas novos


Fetiche

(Para a Aline)

Amanhã ele vem me frequentar
Fou fazer jantinha leve
Passo lavo cozinho
Ensopo a jardineira

E depois... Meu Deus, Você nem imagina
Me bate na cara me cospe me goza
Mas vou exigir:
- Putinha safada não! Putinha safada não!
Me chama de Adélia Prado.



Circo de horrores

Morreram de overdose sim
Mas não são heróis ou são
Heróis de porra nenhuma
Outros já pelos 70 pelas
Tabelas ainda vão morrer
Nem por isso

Meu herói mesmo
É o Fiuk - como eu
Tem avô mas não tem pai

Road movie


é horizontal este poço:
perpassa a história de minha morte
é horizontal este poço:
estrada sem fundo
vértice dos vértices
é horizontal este poço:
ventríloquo de ventres insaciáveis,
consome o caminho,
de caminhoneiros e motoristas
sem tino - retinas sem luz.
é horizontal este poço:
horizonte fundo
ereto, vertical e sólido
rente ao vento do pranto
de viúvas, órfãs e irmãs:
meigas paisagens de acostamento

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Lado B

Balança o Maracá
Dança da redenção
Raio da vida raiar
Fonte a escorrer
Rio de transbordar
Jorro de alma jorrar
Esse ritmo dentro da noite
Quando a música e o pensamento
Forem um só
Forem o Sol
(Essa alegria - Lenine)

De um novo mundo eu sou
E um mundo novo será mais claro
Mas é no velho que procuro o jeito mais sábio de usar
A força que o sol me dá, canto
(Solar - Milton Nascimento)

Um dia quero mudar tudo no mundo
No outro eu vou devagar,
Um dia penso no futuro
No outro eu deixo prá lá,
Um dia eu acho a saída
No outro eu fico no ar,
Um dia na vida da gente,
Um dia sem nada de mais,
Só sei que eu acordo e gosto da vida
Os dias não são nunca iguais!
(Bom dia - Swami Jr / Paulo Freire)

Quero viver a vida
Ir pra avenida com a multidão
Braço e abraço Mão na mão
Todo mundo é meu ir... mão
Noite ou dia é tudo igual
(Alegria Carnaval - J. Aragão e N. Barros)

Quem se salva nessa brasa, quem acende um fogo novo
Cruza a crise, colhe a calma
Alegra a alma desse povo
Vive em paz e harmonia
Abre a porta da alegria
Amor, meu amor, minha vida
Meu sonho, meu caso
Te amo, te adoro, contigo eu me caso
Agora aqui fora ou dentro de nós
Na dança, na lança, na tranca
Trocando carícias
Cantando ou calados
Curtindo delícias
Querendo, sabendo, vivendo em paz
(Vivendo em paz - Tuzé Abreu)

Alegria
Pra cantar a madrugada
As morenas vão sambar
Quem samba tem alegria
Minha gente
Era triste amargurada
Inventou a batucada
Pra deixar de padecer
Salve o prazer
Salve o prazer
(Alegria - Assis Valente / Durval Maia)

O samba tem feitiço
O samba tem magia
Não há quem possa resistir
Ao som de uma bateria
É lindo a gente ver
O samba amanhecer
Cheio de poesia
Com o sol aparecendo e a lua indo embora
E a lida tão sofrida vem pra rua
Mas enquanto houver samba a alegria continua
A alegria continua, a alegria continua...
(Mauro Duarte/Noca da Portela)

Vou dormir querendo despertar
Pra depois de novo conviver
Com essa luz que veio me habitar
Com esse fogo que me faz arder
Me dá medo e vem me encorajar
(Escravo da alegria - Toquinho/Mutinho)

Y dale alegría, alegría a mi corazon
Es lo único que te pido al menos hoy
Y dale alegría, alegría a mi corazon
Afuera se irán la pena y el dolor
Y ya veras, las sombras que aquí estuvieron no estarán
Y ya, ya veras, bebamos y emborrachemos la ciudad
(Y Dale Alegría a Mi Corazón - Fito Paez)

Eu vou te dar alegria
Eu vou parar de chorar
Eu vou raiar o novo dia
Eu vou sair do fundo do mar
Eu vou sair da beira do abismo
E dançar e dançar e dançar
A tristeza é uma forma de egoísmo
(Alegria - Arnaldo Antunes)

Nós estamos inventando a vida,
Como se antes nada existisse,
Porque nascemos hoje do nada,
Porque nascemos hoje pro amor.
Nós estamos descobrindo os corpos,
Como a manhã descobre as imagens.
Como o amor descobre a verdade,
Como a canção descobre uma flor.
Nós queremos desvendar há tempo,
Esse mistério azul de oxigênio,
Esse desejo imenso de sexo,
Essa fusão de angústias iguais.
E nós vamos resistir sem medo,
A solidão de um tempo de guerras,
E nossos sonhos loucos e livres,
Vão descobrir e celebrar a paz!
(Geração 70 - Taiguara)

sábado, 6 de novembro de 2010

Só agora vejo crescer em mim as mãos de meu pai



Mapa Astral

Sinto que o mês presente me assassina
Mário Faustino

Sinto que o mês presente me assassina
as aves atuais nasceram mudas
e o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul de luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
corro despido atrás de um cristo preso,
cavalheiro gentil que me abomina
e atrai-me ao despudor da lua esquerda
ao beco de agonia onde me espreita
a morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
e o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
de apóstolos marujos que me arrastam
ao longo da corrente onde blasfemas
gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
há luto nas rosáceas desta aurora
há sinos de ironia em cada hora
(na libra escorpiões pesam-me a sina)
há panos de imprimir a dura face
à força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
os derradeiros astros nascem tortos
e o tempo na verdade tem domínio
sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio,
amen, amen vos digo, tem domínio
e ri dos que desfere verbos, dardos
de falso eterno que retornam para
assassinar-nos num mês assassino.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Daniel Lins: Alegria como força revolucionária

Excelente Café Cultural:

"A alegria é o que vai definir o sujeito. Mas a alegria não trabalha com o sujeito. O sujeito na alegria são blocos de afetividade. São sempre coletividades. São sempre matilha, como os cães. E a alegria não trabalha com essa singularidade focalizada. O sujeito é sempre o sujeito matilha, o sujeito multidão, o sujeito massa (...) Não desvaloriza o sujeito nem o coloca numa posição assujeitada."

"Eu bem que gostaria de, todas as manhãs, sentir que o que vivo é grande demais para mim, porque seria alegria em estado puro. Mas deve-se ter a prudẽncia de não exibi-la, pois há quem não goste de ver pessoas alegres." (Deleuze)

"Prudência para não afugentar os devires." (Deleuze)

A bailarina só pode dançar na alegria e a alegria não é em geral o lugar da consciência. Ela tem que ser uma produtora da inconsciência e ela, bailarina, para poder voar tem que perder os órgãos. dar um tempo a esse corpo que é maravilhoso, mas está controlado pelos organismos.

É muito difícil ficar feliz se você tiver o tempo todo a consciência presente. Se a consciência abafar o seu bom delírio, a sua alegria, dificilmente você vai investir no não investimento - o não investimento é entrar no delírio do poeta, no delírio do contemplador.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Grafite fotografado


Duas fotos do Jeff, com um bilhete: "Hoje (02/11/2010) arrumando meus arquivos para fazer backup me deparei com essas fotos que tirei para vc em 2006 e nunca lhe enviei..."

Agradeço, quae sera.


sábado, 30 de outubro de 2010

Urania no Curta Cinema 2010

http://www.curtacinema.com.br/festival/filmes-selecionados/filme.asp?id=134

URÂNIA PANORAMA CARIOCA > PANORAMA CARIOCA 3


Odeon Petrobras > 1/11/2010 - 15h30

Caixa Cultural 2 > 6/11/2010 - 19h

Ponto Cine > 4/11/2010 - 16h Ano do festival: 2010

Programa: PANORAMA CARIOCA 3

Diretor: Felipe Rodrigues

Gênero: EXP

Duração: 5min

Cromia: cor/ p&b

Pais: Brasil Brazil

UF: RJ

Ano: 2009

Sinopse: Da janela de sua casa, um homem observa os astros.

Produção: Felipe Rodrigues

Cia Produtora: Maria Gorda Filmes

Fotografia: Felipe Rpdrigues

Direção de Arte: Clarice Pamplona

Edição: Felipe Rodrigues

Som: Felipe Rodrigues

Elenco: Julia Grillo, Tiago Martins

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Notas soltas pra comentar o AnaCrônicas

O espelhamento que há entre as partes. 1-7, 2-6, 3-5 e a parte 4 explodindo no meio. Nisso há a troca dos personagens e das ações (movimentos).

A questão da violência urbana, muito presente.

A relação com as canções. Tenho um CD com a trilha sonora do livro. Levar no dia.

O limite entre escrita/vida.

Os palíndromos do poema que dá início à parte 5 - a escrita como jogo. E a mesma relação com o jogo de sinuca/bilhar na parte 3.
(ah, o desenho é de um livro do Newton. Uma das leis do movimento, não lembro)

Conferir a posição da palavra anacâmptico nas partes 1 e 7.

Procurar no dicionário todas as palavras começadas por ANA e ver no que dá.

Pesquisar sistemas de criptografia e tentar decifrar o texto da parte 7 que está cifrado (ananananana) . E comparar esse procedimento com o do Código da Vinci. (rs)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Marinha


Na angra dos plebeus qualquer rei trava a língua. O marulho, a friagem madrugada e primavera. Uma beira no meio do mar. Se entendesse a calma e o juízo de Caymmi seria pescador de dois amor. Mas é só um vértice de terra cercado de ilhas por todos os horizontes que vaticina: o amor é mais que um que dois. Acalma na pele a usina que explode no fundo. Vai nessa, disseram os demônios, escreve, e me apontavam a corda da amendoeira que banca o balanço das crianças. Tão dessemelhantes a forca e o enforcado. E tão íntimos na hora do espasmo final, anzol e peixe. A marola vai travando os demônios e lembra que um dia, lá pela época do fiat, foi intensa a inquietação das pedras sob essas águas, e ainda a captamos no ser não ser incansável. Felizmente touxe, além do smartphone sem sinal, contos da Anais Nin e meia dúzia de amores - se não for pelo toque, não há diferença entre livros e pessoas e apenas nos sonharemos reis e rainhas da ilha do outro.
Fecho o bloco de notas e abro a câmera para compor a legenda:

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Senilidade II

Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói saber que a ti também corrói
A dor da solidão
(Gilberto Gil)

domingo, 26 de setembro de 2010

Senilidade

Didática - Cacaso

a solidão de meu pai foi qualquer coisa
um pouco depois da vida um pouco antes da
morte. como o câncer, por exemplo.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Um simpósio bem legal

Para quem quiser acompanhar uma discussão de ponta sobre questões culturais nas cidades e nas quebradas, sugiro este Simpósio das Jornadas Andinas de Literatura Latino-americana(JALLA), na UFF, de 02 a 06/08.

SIMPÓSIO: Narrativas e contra-narrativas das margens – tensões da expressão periférica em cidades latino-americanas


DIA 6/8 – SEXTA-FEIRA


LOCAL: Campus Gragoatá - Instituto de Letras da UFF - Bloco B. II - Sala 203


PROGRAMAÇÃO:


8:30 h - 10:30h

* Ritmo e poesia: a lírica da periferia urbana - Afonso Rodrigues (UFJF)

* A comunidade incomum: escritores da periferia urbana brasileira - Alexandre Graça Faria (UFJF)

* Malandros, bambas e valentes: fronteiras da malandragem em Noel Rosa e Marcelo D2 - Giovanna Ferreira Dealtry (PUC-RIO)

* Allan Santos da Rosa, entre margens e ancestralidades - Paulo Roberto Tonani do Patrocínio (PUC-RIO)


10:30 h - 11:00h – Intervalo


11:00 h - 13:00h

* Impasses da cidade no cinema latino-americano - Analice de Oliveira Martins (UENF)

* Das margens, contranarrativas: um olhar a partir dos subúrbios do mundo - Renato Cordeiro Gomes (PUC-RIO)

* América Latina e as fronteiras temporais - Vera Lucia Follain de Figueiredo (PUC-RIO)


13:00 h - 14:30h - Almoço


14:30 h - 16:30h

* Lugar de baiano: a cidade nova do Rio de Janeiro - Claudio Carmo Gonçalves (UESC)

* Fala bala, cala fala - experiência urbana e a arte de criar sentidos - Vilma Costa (UniverCidade)

* Evocação da cidade em Caio Fernando Abreu - Roberto Círio Nogueira (USP)


Aqui, o programa completo das Jornadas.


terça-feira, 13 de julho de 2010

Creta, de Tatiana Franca

Ganhei esse belíssimo presente outro dia. Compartilho com os amigos.

Creta
(Tatiana Franca)

Que entre quem quiser. Não encontrará pompas mulheris aqui nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão (Jorge Luis Borges).

São os muros de quem submeteu as ilhas,
mas é de Dédalo a arquitetura infinita.
Vejam as ilhas, quanto distanciam o homem –
há nelas inquebrantável silêncio.

Às ilhas fogem os homens.
Lá onde o engenho cria formas de nunca mais
sair.
Labirintos de catorze portas pode-se erigir,
laborioso construto.

Mas ao homem será dada força,
(será essa sua desgraça?)
serão dados amigos jovens,
(eles saberão?)
morada- forte
(inexplorada?)
e uma benevolência –
jamais se verá no espelho.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Another brick in the wall

Fortaleza
A minha tristeza não é feita de angústias
A minha tristeza não é feita de angústias
A minha surpresa

A minha surpresa é só feita de fatos
De sangue nos olhos e lama nos sapatos
Minha fortaleza

Minha fortaleza é de um silêncio infame
Bastando a si mesma, retendo o derrame
A minha represa

(Chico Buarque e Ruy Guerra)

sábado, 29 de maio de 2010

Dois não pares

Para o André e a Carol

onde como acalma o tremor do incerto síndrome de abstinência da razão porto seguro dos confidentes sem fé em deuses dos que não dançam a quem sobra a peregrinação energúmena dos cabeça a romaria sem boca os anagramas do império dos sentidos contra um chato um bobo siso só para não ceder ao choro ao abraço ao refúgio último exílio único corpo para quem não tem à mão escrita só a fala zanza banzo de lapa babel e a pergunta o que farei com esta língua da boca ao cu da pedra à pele do papiro ao chip foder e escrever únicas libertações do precário entre extremos tiranos dão e tiram o resto brinquedo de estetas o resto da roda ao clipe do cosmo ao quanta silêncio

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Uma epígrafe abandonada

1o. motivo da rosa (Mário Faustino)

Da rosa somente a pétala inconsútil
Inamissível lembrança
Onde o perfume a cor incompassiva?
A beleza é apenas a passagem divina
Impiedosa e fugaz.

Desisti a tempo, mas pensara nesse texto para epígrafe do Anacrônicas. Vejo isso numa anotação de 18/08/05 . Diário revisitado.

O poema não é bom. É didático. Mas seu tema é incorporado ao meu texto. A rosa na garrafa de coca-cola. Acho que essa imagem me veio como uma daquelas ilustrações do Elifas Andreato, num livro do Roberto Drummond, da Ática. DJ? Procuro mas não acho. E fico sem saber se existe mesmo ou foi sugestão por falha (boa) da memória. Faz falta uma coleção como aquela da Ática. Assim como a "Cantadas literárias". Ah! Tão anos 7O o AnaCrônicas . Foi a Claudinha (Chigres) a primeira a observar isso.

É, sim, um livro entre o Construção e o The Wall .

Talvez venham aí os anos 80. Um livro novo, meio festa ploc?

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Biblioteca Parque de Manguinhos

Há meses, selecionei alguns (poucos) fragmentos de textos, considerando os temas da periferia urbana, da discriminação social e racial, e da identidade na literatura brasileira em três frentes: autores canônicos, autores contemporâneos identificados no atual movimento "literatura marginal, e autores de Manguinhos, a maioria ligada ao Pré-vestibular Comunitário do bairro, movimento com o qual venho colaborando voluntariamente, desde 2001, através da organização de Saraus Poéticos para a formação literária dos alunos.

O resultado da seleção virou um post recente nesse mesmo blog. Mas foi originalmente feita com o intuito de "decorar" (?!), com os fragmentos, o prédio da Biblioteca Parque que estava para ser inaugurada na época.

Alguns textos passaram pela peneira, outros não. Outros ainda, que entraram, não fui eu quem sugeri (Chacal, Manoel de Barros, gente muito boa, mas que não fazia parte do enredo do meu samba - do de Sérgio, talvez [o Cabral, e não o Porto]).

Outro dia passei pela Biblioteca. Ainda não estava inaugurada e só o seria, de fato, 29 último. Mas os textos figuravam lá, decalcados no blindex e um deles, do Alan da Rosa, grafitados num livro de madeira gigante.


(O texto, que está no belíssimo livro Vão, das edições Toró. Que era pra ser a editora dos primeiros tombos da biblioteca. Mas tenho que ver se já está lá.)

(O livro, idealizado pela NIdéias (assim como todo o "cenário) e grafitado pelo pessoal do Toquinho.)



Acho que já está na hora de eu estudar mais fotografia do que literatura. Não que eu saiba muito sobre esta - tenho só efeito da estrada - mas sou uma negação naquela. As fotos a seguir ficam só para registrar o fato.

PS: Se alguém puder me explicar como tirar fotos de um vidro enorme sem a paisagem comenta aí (com uma maquiniha daquelas de que os profissionais escarnecem) . Agradeço.




(Gabrie, Lu e Clarice, com o prédio ao fundo)


(Vista enviesada das janelas)


Um Chacal. Na época dessa história, valeu-me uma antiode.


(André da Silva - grande amigo e ex-aluno do PVCM. Os prédios do PAC espelhados nas letras são "por demais fortes, simbolicamente, para eu não me abalar")


(Um trecho do "Terrorismo literário", do Ferréz. Passou. Ufa!)

Crítica sobre Urânia

Curtas Série 6 - Mostra Panorama: Urânia, Pendular, Vigília do Amor, Avenca, História Triste de uma Praieira e Rio de Mulheres

Urânia, de Felipe David Rodrigues, Oswaldo Martins e Alexandre Faria

por Leonardo Amaral

Urânia é uma experiência de forma, seja através da palavra, ou esteticamente por meio das imagens, em planos fechados e animações.Urânia também seria o caminhar em direção ao misterioso,a um novo. Eis uma narração em off que acompanha a sucessão de imagens, palavras narradas (ou declamadas) pelo seu próprio autor, que é também um dos diretores do filme. Felipe David Rodrigues, Oswaldo Martins e Alexandre Faria tem o mérito de não realizar um filme que se escravize apenas à poesia, a imagem poética recursive, quase retórica. O curta trabalha na justaposição de imagens que não procuram ilustrar as palavras, não existe obviedades nessa experiência de cinema.

*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

In: http://www.filmespolvo.com.br/site/eventos/cobertura/919


sábado, 3 de abril de 2010

Recortes em torno da literatura periférica

Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer,
medo só de te sentir, encravada
favela, erisipela, mal-do-monte
na coxa flava do Rio de Janeiro.

Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver
Nem de tua manha nem de teu olhar.
Medo de que sintas como sou culpado
e culpados somos de pouca ou nenhuma irmandade.
(Carlos Drummond de Andrade)


Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.
(Mário de Andrade)

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.
(Ferreira Gullar)

Olá, Negro!
Negro que foste para o algodão de U.S.A.
Ou que foste para os canaviais do Brasil,
Quantas vezes as carapinhas hão de embranquecer
para que os canaviais possam dar mais doçura à alma humana?
(Jorge de Lima)

A capoeira não vem mais, agora reagimos com a palavra, porque pouca coisa mudou, principalmente para nós (…) Agora a gente fala, agora a gente canta e na moral agora a gente escreve. (…) Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto.
(Ferréz)

Será que eu preciso mesmo garranchear meu nome? Desenhar só pra mocinha aí ficar contente? Dona professora, que valia tem o meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta?
(...)
Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber o que assinou. Eu é que não vou baixar minha cabeça para escrever.
(Marcelino Freire)


VIAGEM
Quatro jovens
morreram na chacina
no fim da rua.
Conforme a notícia,
dois deles tinham passagem.
Os outros dois foram assim mesmo...
clandestinamente
(Sérgio Vaz)


Legume negrume
Podre podre
Fezes
Serve-te
Ou mesmo nada
A matadeira barata
Degustando
Ruminando
Os filhos bastardos dessa pátria.
(Rogério Batalha)


Na escola dez verdades sobre Isabel e Palmares.
Atenção, atenção, classe. Tomem seus lugares.
Dez verdades multiplicando em realidades.
Atenção, atenção, classe. Tomemos nossos lugares.
(Ridson Mariano da Paixão)


Enquanto eles capitalizam a realidade
eu socializo meus sonhos.
(Sérgio Vaz)


CAROLINA MARIA DE JESUS
Comprei um sapato lindo número trinta e nove
sendo que calço o número quarenta e dois. Andei
muito a pé, adoentei-me. Para acalmar os pés e
não repetir esse ato insano fiz uma salmoura de
água quente e ensinei crianças e adolescentes
que não se vende o próprio sonho.
(Maria Tereza)



COMICHÃO
As borboletas da minha terra
comem a abelha
cospem o mel

Lavando carniças
pichando zueiras de motim
colhendo relâmpagos do bolor.

O que lhes sangra
não é o espinho
mas a pétala, da flor.
(Allan da Rosa)




SENZALA
Meu avô
Meu pai
Eu
Meus...

Quando realmente vão
Derrubar o tronco?

Futuro
Sarjeta
Quilombo
Senzala
(Luiz Cláudio Barreto)



Preconceito é uma doença amarga, dura de curar.
Se digo isso é porque sempre senti na pele.
Era na igreja, na escola, em casa, sempre fomos discriminados,
dizem que agora melhorou, mas nem tanto assim.
Agora tem lei, pra nos favorecer.
Mas por baixo dos panos, continua em todo lugar.
(Maria Celeste do Nascimento)


BATIDAS RIMADAS
batidas rimadas
chicote engenho rei
senzala

batidas rimadas
miséria cela
branco vela verme
terra

batidas rimadas
ópio roça raça
fusão
lixo taça
nação graça

batidas rimadas
cruz machado
lima break
rima gueto

batidas rimadas
raiz ação evolução
situ ação exposição
proclam ação
Zumbi
(Maura Santiago)


DIÁRIO POPULAR
A esperança de ser um trabalhador
É maior do que o estampido de um fuzil
Ao acordar para mais um dia de lida
Sou refém do meu cotidiano
Amargo e incolor de segunda a quinta-feira
Mas na sexta termino num bar
E a vida já não é tão vazia quando peço a saideira.
(Douglas Pêgo)

UM DIA
Os sons das balas
Que não são doces
Estupram o meu sono

Alguém morre e outros vivem
No dia-a-dia de sonhos
Nada sei, apenas suponho
Que o dia irá amanhecer.
(André Luiz Silva)

sábado, 27 de março de 2010

Duas Notas Musicais

Lidas em Musique et littérature / Jean-Pierre Longre. - Paris : Bertrand-Lacoste, 1994. - 127 p. ; 18 cm. - (Parcours de lecture ; 59). ISBN 2-7352-0859-1.


1 - O nome das notas musicais originam-se de sílabas iniciais de palavras de um hino gregoriano.


2 - "L'Asile Ami", de Robert Desnos:

quarta-feira, 24 de março de 2010

Duas Preces

Loud Prayer

Lawrence Ferlinghetti

Our father whose art's in heaven
hollow be thy name
unless things change
Thy wigdom come and gone
thy will will be undone
on earth as it isn't heaven
Give us this day our daily bread
at least three times a day
and forgive us our trespasses
as we would forgive those lovelies
whom we wish would trespass against us
And lead us not into temptation
too often on weekdays
but deliver us from evil
whose presence remains unexplained
in thy kingdom of power and glory
oh man






Pater Noster

Jacques Prévert

Notre Père qui êtes au cieux
Restez-y
Et nous nous resterons sur la terre
Qui est quelquefois si jolie
Avec ses mystères de New York
Et puis ses mystères de Paris
Qui valent bien celui de la Trinité
Avec son petit canal de l'Ourcq
Sa grande muraille de Chine
Sa rivière de Morlaix
Ses bêtises de Cambrai
Avec son océan Pacifique
Et ses deux bassins aux Tuileries
Avec ses bons enfants et ses mauvais sujets
Avec toutes les merveilles du monde
Qui sont là
Simplement sur la terre
Offertes à tout le monde
Eparpillées
Emerveillées elles-mêmes d'être de telles merveilles
Et qui n'osent se l'avouer
Comme une jolie fille nue qui n'ose se montrer
Avec les épouvantables malheurs du monde
Qui sont légion
Avec leurs légionnaires
Avec leurs tortionnaires
Avec les maîtres de ce monde
Les maîtres avec leurs prêtres leurs traîtres et leurs reîtres
Avec les saisons
Avec les années
Avec les jolies filles et avec les vieux cons
Avec la paille de la misère pourrissant dans l'acier des canons.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Urânia em Tiradentes

Estivemos em Tiradentes. Foi bacana a Mostra. A cidade não mudou muito na minha memória de 1991(?). Pudera: é histórica. Tem mais pousadas do que tinha antes. Mais bares e restaurantes também.
A escola municipal estava caidaça.
Já que são 13 anos será que já não podia ter um cinema no lugar de uma tenda?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Dá-lhe Saramago

Mais um romance-ensaio (mas também um ensaio de romance). O ponto de partdida não poderia ser melhor. Caim é o personagem bíblico ideal para confrontar deus. Ousadia maior se fosse Eva, mas careceria de malabarismos de verossimilhança que não ficaram tão forçados para andarilho assinalado. Como romance, é esse aspecto do destino do personagem que parece pesar. Fica repetitivo (apesar de engenhoso) o recurso das viagens no tempo-espaço. A volta para Lilith também se justifica pouco - o filho, a cidade... - e a nova saída para o encontro final, com Noé também ficou pouco plausível.
Afora isso - o romance que não o é - Caim é um belíssimo ensaio, um divertido deboche e uma grande porrada na tradição judaico-cristã. Soma-se ao Evangelho segundo Jesus Cristo, no esforço louvável de converter crenças e ritos da dita civilização ocidental em belos e estéticos mitos.