domingo, 27 de setembro de 2009

Urânia, o filme

O poema a seguir, publicado ontem no blog do Oswaldo Martins, me será especialmente caro pela vida que eu ainda tiver. Quando falam, via Platão da cegueira do poeta, em geral referem, mal, um incerto desconhecimento do dito. Não. Quanto a isso visão plena. Por outro lado, escrever duplica a existência, pois amplia a cegueira do devir. O devir do texto soma-se ao devir da vida. Felipe David Rodrigues - nossa amizade já vem desdo Anacrônicas. Fez uma obra incompleta de mim. Na época acabei fazendo dele um texto meu Caio-Satie (E depois do papo que tivemos ontem queria ter uma vitrola de falar com et. E contatar a Hilda para falar com o Menino-deus pra desatar os nós do pela passagem, que há de sair).
A história é que o Felipe topou carinhosamente um cinepoema do Urânia. E fomos lá, eu ele mais Oswaldo, os dois poetas pensando que viam alguma coisa enquanto esboçávamos um roteiro. Mas era o Felipe quem via. E nos mostrou ontem. Foi então que vi meu próprio poema. Meu-não-meu. Pra fazer poesia membatuco na luta com a palavra, que depois, onde, acho, o leitor lê poesia, não sei mais ao certo o que leio ali. Uma estrutura, uma escolha plástica, um sema. E o que agradeço ao diretor não é só o ter-me feito o filme, mas o ter-me dado o meu poema a ler. Isso, e é o que diz o poema do Oswaldo que segue aí, não é qualquer um que tem inteligência e sensibilidade para fazer.
para o felipe david rodrigues

limite
das imagens

fixidez

o olho se pisca
pisca

o absoluto da economia
transpõe o objeto

y

nos marca
ante o pulso

do cinepoema
a arte se elabora

em intersecção
onde o universo somente

universo
é do inventor

exato
do extásico

(oswaldo martins)