quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Lado B


Desde quando o descobri, lá por volta de 84-5, acho que este disco foi o que mais ouvi na vida.


Não posso nem imaginar o número de vezes, mas este é o único que, quando hoje ouço o CD, após "Atrás da porta" (a sexta faixa), algo em mim se move até o aparelho para virar o disco.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Nova América

A praça de alimentação dos shoppings guardam estreitas conexões com os refeitórios das antigas fábricas. Os olhos nervosos em busca do bom assento, as filas contritas em bandejões de operários do consumo.
Cum-edere artificial, longe dos olhos da fome, onde o outro marca presença apenas como espelho do desejo: pratos, roupas, sacolas, bocas...
...bocas abertas que aquiescem, com a calma eufórica dos fiéis, ao garfo-hóstia
ao naco de desespero nosso de cada dia.
Às vezes vejo velhos casais, aproveitando sórdidos a politicamente correta 3a. idade, nesses refeitórios, e temo pelos adolescentes refestelados na junk food, sem camisinha. Eles não chegarão ao ouro daquelas bodas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Cudado com o que pode vir pela frente

"A lição do terror que ela [a Inconfidência Mineira] encerra, a lição do atraso de um século que estagnou a ascensão de nosso povo. Qualquer estouvamento idealista, qualquer sofeguidão sectária, qualquer provocação, por bem intencionada que seja, pode bulir com o sarcófago recente da ditadura [estamos em junho de 1945!] e acordar seus gênios protetores. Não nos esqueçamos da vocação absolutista que persegue nosso destino. Ela pode, de novo, nos jogar nas catacumbas políticas, onde tantos mártires de nosso progresso social deixaram seus dias heróicos ou perderam suas vidas necessárias."
"A lição da Inconfidência", Oswald de Andrade

Caetaneando

Os portugais não morrem à míngua, nem é possível mangueira cantar, se o lema é o tão pessoal, luso-pessoano, minha pátria é minha língua.
A mulatice nata no sentido lato-narcísico carece de Oswald: "Mulatos são os próprios portugueses, desde logo atingidos no seu surto descobridor pelas vitaminas da mestiçagem (...) E só quando, levado pelo absolutismo, deu de ser paradoxalmente um povo racista, eliminando de seu corpo civil o judeu, perdia a substância hegemônica que o fazia liderar três continentes."
E de Sérgio Vaz:
"Contra o artista serviçal escravo da vaidade (...) A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. "
E da fala cafona de um operário 4a. série primária, relíquia do Brasil, na presidência.

domingo, 8 de novembro de 2009

Festa Ploc

Agora, espécie especial de despedida. Última forja de alegria e descontração entre copos e corpos amigos. Etilismo com bafão de elitismo ou de bas-fond. Frequentei a ambos, muito, bem, obrigado.

Amanhã, caminhada matutina, saladinha com frango grelhado, suco de frutas sem açúcar...


e de quebra um prozac para segurar a onda desse tremor de carnes que precede a essência


quem sabe, à tarde, um passeio no shopping?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Que bom te ver viva

Esse é o título de um filme, de Lucia Murat, importante para se conhecer melhor nossa história recente (por isso mesmo não deve estar disponível em DVD). O filme aborda a experiência de mulheres torturadas durante a ditadura militar no Brasil. A frase-título evidentemente refere-se ao drama das sobreviventes, cuja tensão está de certa forma no fato de terem sobrevivido.

Mas uso aqui a mesma expressão como título desse post com o pensamento em alguns personagens que passaram pelos anos 80. A ditadura foi ficando mais civil que militar. E os malucos da época achavam que estavam segurando a onda, mas não era onda, era a ressaca inteira. Acompanhada da típica dor de cabeça, da fotofobia e de outras formas do controle e truculência. Polícia, caretice e aids. No entanto se engana quem julga perdida uma geração que contou com Cazuza, Caio Fernando Abreu, ou Cássia Eller, para ficar só com os nomes da letra C.

O caso é que vi hoje Angela Ro Ro numa entrevista para Marília Gabriela. Brava remanscente daquele time, ainda está aí e poderá contar (se resolver se aventurar pela escrita) de um ângulo sui generis aquela coisa toda*. Não sei se a Marília Gabriela ainda acha, nessa altura do campeonato, que os caretas não são capazes de pirar. O fato é que a primeira pergunta indicava que o novo (e vital) compasso da Ro Ro (é o que faz meu animal ser gente) era uma ausência de loucura.

"Deixou de ser louca?" Era mais ou menos a pergunta. Ao que a contora, mais viva do que nunca, respondeu: "Loucura é criatividade, ousadia, questionamento. Deixei de ser alcoólatra, ‘toxicômana’ e tabagista de plantão. Foram 56 kg que eu perdi. Estou mais sadia, mas a loucura me orienta."

E é bom te ver viva, Angela!


*Vê, Montenegro: nem sempre a gente se engana com a nossa loucura.

Remington 22


animals, nina, roro, esmeralda, lauper, aquino etc ect

Oh Lord, please don't let me be misunderstood

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Vote em mim

"Anda: só há porvir e o sim pare sinais. Teme, mas o canino da arteria não tires. Atira-te, que é certo o amparo dos vãos. Ergue-te e ama."

enviei esse textículo ao "II Prêmio Literatura No Celular" da Fliporto. (http://fliporto.golmobile.com.br/ ) Até domingo, dia 25 ele poderá receber votos. Se você gostou e quiser dar uma força, é só enviar um torpedo** de um celular Oi para 48333 com mensagem COD0215 .

** Segundo o site promotor, a votação é gratuita.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O fascismo está crescendo

"Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que ele jamais viu, com o qual nunca se sentou para tomar um café, mostra apenas o absoluto cinismo intelectual."

"As insolências reacionárias da Igreja Católica precisam ser combatidas com a insolência da inteligência viva, do bom senso, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de Deus na Terra, os quais, na verdade, só tem interesse no poder".

Perguntado se o pouco compromisso dos escritores e intelectuais poderia ser uma das causas da crise da democracia, o escritor disse que sim. Porém, disse que este não seria o único motivo, já que toda a sociedade encontra-se nesta condição, o que provoca uma crise de autoridade, da família, dos costumes, uma crise moral em geral.

Saramago destacou que o fascismo está crescendo na Europa e mostrou-se convencido de que, nos próximos anos, ele "atacará com força". Por isso, ressaltou, "temos que nos preparar para enfrentar o ódio e a sede de vingança que os fascistas estão alimentando".

(José Saramago) fonte



O Gabriel, do grêmio

Ontem encontramos o Gabriel no shopping, esposa e filha. Ele teve a delicadeza de , ao me apresentar: "este foi o autor da peça... o título da peça não lembro" foi sincero. E eu prontamente ajudei sua memória: "Auto do apocalipse". E eu poderia retribuir, se houvesse a quem apresentá-lo, posto que a Maura é dessa turma: "Este foi o presidente do primeiro grêmio estudantil criado na rede pública estadual após o fim da ditadura" (período em que os grêmios ficaram proibidos). Estima-se a idade dessas personagens! Mas não a juventude, que se renovava conforme íamos lembranando das pessoas, o Soldado, o Luiz Carlos (eu me abstenho!), o Ecio (com quem terei o prazer de dividir uma mesa-redonda em breve, na Semana de Letras da UFJF) e dos eventos, o acampamento para ocupar o Pátio Doce, o Noite Maldita, a eleição para diretor, do Auto do Apocalipse.

Cada um mereceria um post em separado, pois assim, mencionados apenas, os eventos e as pessoas viram cifra para quem viveu. De certa forma é isso uma das delícias do lembrar. Não reconstituir histórias e ter a pretensão de dar conta de um passado para quem não o conheceu, mas recriar emoções e sentidos através de pequenas tiradas, frases-senha, cifras. Enfim, talvez o texto da memória, com mais ou menos detalhes, seja sempre cifrado. Alcança-o melhor quem se re-des-cobre.

PS: Há uns anos andei postando por aí as fotos do Auto do Apocalipse que escaneei. Vou ver se descubro onde estão e as coloco aqui.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Tália, de Jean-Marc Nattier

Fwd: fotos - Ressascas no Rio


Recebi num e-mail da Sônia. Belas fotos e no texto, o Lima de sempre!

"A última e formidável ressaca que devastou e destruiu grande parte da Avenida Beira-Mar merece considerações especiais que não posso deixar de fazer. (...) os grosseiros homens do nosso tempo, homens educados nos cafundós escusos da city londrina ou nos gabinetes dos banqueiros de Wall Street não lhe quiseram ver a grandeza (do mar) e trataram de explorá-lo. De há muito que ele havia marcado os seus limites com a terra; de há muito ele dissera a esta: o teu domínio pára aí e daí não passarás. (...) Tais homens, porém, a pretexto de melhoramentos e embelezamentos (...) trataram de estrangulá-lo, de aterrá-lo com lama.

O mar nada disse e deixou-os, por alguns meses, enchê-lo de lama. Um belo dia, ele não se conteve. Encheu-se de fúria e, em ondas formidáveis, atira para a terra a lama com que o haviam injuriado." LIMA BARRETO - crônica de 1921 na revista Careta


Ressaca na avenida Atlântica em 1921, com a destruição da calçada


A grande ressaca na praia do Flamengo, em 8 de março de 1913, que isolou o Palácio do Catete.


Ressaca cais do Mercado Municipal


Ressaca na avenida Beira-Mar, vista do alto

Ressaca na avenida Beira-Mar, década de 10


Ressaca na avenida Atlântica, década de 60


Ressaca na avenida Atlântica, década de 60

domingo, 27 de setembro de 2009

Urânia, o filme

O poema a seguir, publicado ontem no blog do Oswaldo Martins, me será especialmente caro pela vida que eu ainda tiver. Quando falam, via Platão da cegueira do poeta, em geral referem, mal, um incerto desconhecimento do dito. Não. Quanto a isso visão plena. Por outro lado, escrever duplica a existência, pois amplia a cegueira do devir. O devir do texto soma-se ao devir da vida. Felipe David Rodrigues - nossa amizade já vem desdo Anacrônicas. Fez uma obra incompleta de mim. Na época acabei fazendo dele um texto meu Caio-Satie (E depois do papo que tivemos ontem queria ter uma vitrola de falar com et. E contatar a Hilda para falar com o Menino-deus pra desatar os nós do pela passagem, que há de sair).
A história é que o Felipe topou carinhosamente um cinepoema do Urânia. E fomos lá, eu ele mais Oswaldo, os dois poetas pensando que viam alguma coisa enquanto esboçávamos um roteiro. Mas era o Felipe quem via. E nos mostrou ontem. Foi então que vi meu próprio poema. Meu-não-meu. Pra fazer poesia membatuco na luta com a palavra, que depois, onde, acho, o leitor lê poesia, não sei mais ao certo o que leio ali. Uma estrutura, uma escolha plástica, um sema. E o que agradeço ao diretor não é só o ter-me feito o filme, mas o ter-me dado o meu poema a ler. Isso, e é o que diz o poema do Oswaldo que segue aí, não é qualquer um que tem inteligência e sensibilidade para fazer.
para o felipe david rodrigues

limite
das imagens

fixidez

o olho se pisca
pisca

o absoluto da economia
transpõe o objeto

y

nos marca
ante o pulso

do cinepoema
a arte se elabora

em intersecção
onde o universo somente

universo
é do inventor

exato
do extásico

(oswaldo martins)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Voz sem saída, Céline Curiol

Tudo bem? Pela primeira vez ele acrtou a infexão. Não se trata de mera fórmula de cortesia ou de tique linguístico, ele quer saber como ela está. A expressão deixou de ser disfarce para introduzir uma intenção verdadeira. (93)
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Quer saber se ela nunca teve vontade de dizer um disparate. De alterar o horário de um trem ou o número de uma plataforma, por exemplo. É sem dúvida um bom meio de ser posto na rua. A idéia não deixa de ter certo apelo, mas não, nunca pensou nisso. Com o tempo certas proibições fundem-se à normalidade, e sua violação torna-se inconcebível. (119)
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A cada dia, centenas de indivíduos se evitam. Por pudor, covardia, incompreensão preguiça, medo, orgulho. Em sua caixa de câmbio não há marcha lenta, pois o que se deixa para trás teoricamente deve reencontrar-se à frente. Coleção de danos, deploráveis malefícios da sociedade de consumo na qual todas as escolhas são permitidas e, assim acumuladas, recebem a enganosa denominação de liberdade. Como fazemos com vitrines, roçamos o outro com o olhar. (135)
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Kiwis e seios, rodelas de kiwi e bicos de peitos. O interior de seis kiwis e o mamilo de seis mulheres foram fotografadas em close. Incrustadas na polpa esmeralda, as sementes ultranegras rodeiam o núcleo verse-claro, cujo traçado é sempre distinto, único, semelhante ao bico do seio, cercado por sua coroa morena, de diâmetro e tonalidade variáveis. (180)

(CURIOL, Céline. Voz sem saída. Tradução Bluma Waddington Vilar. Nova Fronteira, 2006)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Feliz coincidência

Descobri essa semana que estamos em pleno Ano Internacional da Astronomia. Há 400 anos Galileu fazia suas primeiras observações do espaço.


A feliz coincidência é o Urânia ter aparecido justo então.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Urânia

Urânia entrou no ar esse mês. Visitem.

http://textoterritorio.pro.br/urania/

OBS: Qualquer dificuldade de navegação me informem, por favor.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Caetano para Clarice

Reouvi Caetano por conta da Clarice, em busca de algum apelo infantil nas canções. Cheguei a esta lista de 18 (aqui na cronologia dos CD, mas para ouvir mudei a ordem, agrupando por idéias - bichos, cores, ninar, brincar, crianças etc):

*marinheiro só (disco branco)
*julia-moreno (araça azul)
*canto do povo de um lugar (jóia)
*tudo tudo tudo (idem)
*drume negrinha (qq coisa)
*peixe (Doces Bárbaros)
*a grande borboleta (bicho)
*leãozinho (essa acabei usando a do acústico - menos dorminhoca do que a primeira versão (bicho), mas aquela com o baixo do Dadi (criculadô vivo) também é muito boa)
*joão e maria (é a do Chico e está no ao vivo com Bethânia)
*blues (do Péricles Cavalcanti - outras palavras)
*uns (uns)
*comeu (velô)
*vamo comê (o do josé)
*rai das cores (estrangeiro)
*boas vindas (circuladô)
*cada macaco no seu galho (tropicália 2)
*um tom (livro)
*voa voa perereca (do disco com o Mautner - bem infantil, se uma criança a escuta)

Fica aqui a idéia. De repente alguém lança "caetano só para baixinhos". Se é que já não lançaram!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Muito

Eu sempre quis muito
Mesmo que parecesse ser modesto
Juro que eu não presto
Eu sou muito louco, muito

(...)

Eu nunca quis pouco
Falo de quantidade e intensidade
Bomba de hidrogênio
Luxo para todos, todos

Mas eu nunca pensei
Que houvesse tanto
Coração brilhando
No peito do mundo, louco

(Caetano Veloso)