segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Poesia e Vida: Anos 70


Lançamento em Juiz de Fora: 11/03/08. Faculdade de Letras, UFJF. 19:00

cena da sangue no altar da igreja da sé

Na missa pelos 454 anos de São Paulo, Benedito do Pagode, bêbado, invadiu a Catedral da Sé, com uma faca de cozinha enferrujada e um cavaquinho.

A notícia de fato me impressionou. A indiciação mais ainda. Como comete tentativa de homicídio um sujeito que grita "Mata eu, São Paulo. Eu não quero morrer de fome."?

Quer chamar a atenção. E tem motivo para isso. Não, não é só a fome. É o cavaquinho.

Fiz hoje esse poema:

cena de sangue no altar da igreja da sé

Alexandre Faria
numa das mãos faca de cozinha


foi-se infiltrando
o bafo da onça
(benedito do pagode, vulgo Benedito de Oliveira, 45)
e dos famintos
à boa gente de geolhos


desavergonhados mulatos
governadores e conselheiros
(são paulo me fez assim)
papas e papisas
abades e outras bestas

a cuca dos bêbados
o fósforo mole
(mata eu são paulo eu não quero morrer de fome)
o bodum das ruas
imiscuiu-se


(rendido preso indiciado por tentativa de homicídio)


na outra cavaquinho

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Antéchrista

Ceux qui croient que lire est une fuite sont à l'opposé de la verité: lire, c'est être mis en presence du réel dans son état le plus concentré - ce qui, bizarrement, est moins effrayant que d'avoir affaire à ses perpétuelles dilutions. [Amélie Nothomb: Antéchrista]

Antéchrista (2003) é o segundo livro de A. Nothomb que leio. O primeiro foi Dicinário de nomes próprios [Robert de noms propres (2002)] De ambos ficaram isso: por trás de histórias de adolescentes complicadas o real vai sendo cada vez mais intensamente percebido como um abismo de diluições sucessivas (simulacros?) que talvez levem osujeito a experimentar uma vertigem do raso. O ritmo da escrita muitas vezes colabora para isso.

O fato de as personagens serem meninas enfrentando os impasses típicos da adolescência, tentando descobrir/construir identidades, parece-me apontar para um problema de todos que, hoje, possam estar preocupados com a formação/educação de jovens. As tramas revelam (a despeito de uma delas ser biográfica, o que pelo contrário atesta a leitura) que ocorre não o eterno "conflito de gerações", nem uma "revolução juvenil" como a dos anos 60, mas uma mudança paradigmática nas condutas para a qual é urgente uma (nova?) ética.

Resta saber se são significativas, para se pensar essa profunda mudança de paradimas, as opções estéticas de Nothomb. As narrativas tendem à valorizar demais o drama interior das personagens, mas nisso não podem ser bem sucedidas devido não a superficialidade da questão (que não seria empecilho), mas o ritmo da prosa. Em contrapartida, a opção pelo drama interior sacrifica certa ironia social, que a despeito de ser pouco incisiva, existe e me parece o melhor gancho para leitura dos dois livros.