quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Oculto óbvio

"Como poderia ser remapeada a cartografia do crime na cidade, de forma a desfazer preconceitos quanto à ocupação sócio-econômica do espaço urbano?
ou, parafraseando Caetano Veloso: Como surpreender a todos dizendo (que sempre esteve oculto) o óbvio?"

São perguntas com que terminei um texto apresentado no Seminário Nacional - Região metropolitana: Governo, sociedade e território, na FFP/UERJ, São Gonçalo - RJ, 2003.

E o conto Cidade de Deus, de Rubem Fonseca.

Guerra particular?

Certas guerras são menos fato do que argumento.

Bato na mesma tecla: não há uma guerra, a despeito das armas e do medo. Colo abaixo um pedaço de O Brasil presente: construções-ruínas do imaginário nacional contemporâneo, minha tese de doutorado (2002):

Umberto Eco, em ensaio que comentava a Guerra do Golfo (1991), leva em consideração algumas condições de impossibilidade da guerra após experiências como a da energia atômica, da televisão, dos transportes aéreos e com as várias formas de capitalismo multinacional. Recordando Foucault, o ensaísta italiano argumenta que o poder não é mais monolítico e unidirecional, mas difuso, parcelado, feito de uma contínua aglutinação de consensos:

A guerra não põe mais duas pátrias frente a frente. Coloca infinitos poderes em concorrência. Nesse jogo, alguns centros de poder saem lucrando, mas à custa dos outros. Se a velha guerra engordava os comerciantes de canhões, e esse lucro colocava em risco a suspensão provisória de algumas trocas comerciais, a nova guerra, se enriquece os comerciantes de canhões, coloca em crise (e em todo o globo) as indústrias de transportes aéreos, de entretenimento e de turismo, as indústrias da própria mídia (que perdem publicidade comercial) e, em geral, toda a indústria do supérfulo – ossatura do sistema – do mercado da construção civil ao automóvel. (...) Na guerra, alguns poderes econômicos entram em concorrência com outros, e a lógica do conflito entre eles supera a lógica das potências nacionais. [ECO: 1998, p. 20]

Neste mesmo ensaio o autor adverte sobre o silêncio do intelectual, em tempos de guerra, por não encontrar um campo neutro para expressão, uma vez que a mídia é uma das armas da própria guerra. Mas deixa bem claro que é dever do intelectual declarar que a guerra, hoje, anula qualquer iniciativa humana e, inclusive, seus objetivos aparentes (e a vitória aparente de alguém) não podem impedir o jogo autônomo dos poderes econômicos. [IDEM, p. 17]

Quanto à Guerra deste início do século XXI, é produtivo mencionar dois ensaios produzidos “no calor da hora”, mas diametralmente opostos no que tange à atitude intelectual e à visão política do evento. Destacamos dois fragmentos de artigos de Susan Sontag e de Hans U. Gumbrecht, publicados o caderno “Mais!”, da Folha de São Paulo de 23 de setembro de 2001, que vão permitir algumas considerações:

Para esta americana, nova-iorquina, triste e horrorizada, a América nunca pareceu mais distante de um reconhecimento da realidade do que diante da monstruosa dose de realidade do último dia 11. A desconexão entre o que aconteceu e o modo como poderia ser compreendido, além do falatório hipócrita e as francas ilusões sendo vendidas por virtualmente todas as nossas figuras públicas e analistas da TV;é surpreendente, deprimente. As vozes autorizadas a acompanhar o evento pareciam ter se unido em uma campanha para infantilizar o público.
Onde está o reconhecimento de que isto não foi um ataque “covarde” contra “a civilização” ou “a liberdade” ou “a humanidade” ou o mundo livre, mas um ataque contra os Estados Unidos, a autoproclamada única superpotência mundial, ataque que foi praticado em conseqüência de certos interesses e ações norte-americanos? Quantos cidadãos norte-americanos têm consciência do corrente bombardeio do Iraque por parte dos EUA? E, se for para usar a palavra “covarde” ela poderia ser aplicada de maneira mais adequada aos que matam fora do alcance de retaliações, das alturas do céu, do que àqueles que se dispõem a morrer eles mesmos para matar outros. Em termo de coragem (uma virtude moralmente neutra), pode se dizer qualquer coisa sobre os que perpetraram o massacre, mas eles não eram covardes. [SONTAG: 2001, p.11]

Essas bombas nos acertaram e não só nos afetaram, fazendo-nos vítimas, porque não são dias para declarações enfáticas de solidariedade. Pois a que se deveria ser solidário, sem parecer ridículo com as óbvias declarações enfáticas? Poder-se-ia ser solidário à condenação desses insanos, mas dizer só isso e nada mais é quase uma ofensa aos mortos. Essas bombas acertaram nosso país, tememos num descuido aspirar o cheiro de nossos mortos queimados, e espero que ninguém tenha a paciência de negociar com os que estão ávidos em tranformar-se eles próprios em tais bombas.
Conhecer sentimentos de patriotismo, sentimento de vergonha nacional e a esperaça de uma vingança violenta em, apenas dois dias, no rápido transcorrer do acontecimento objetivo, por assim dizer, tudo isso me subjugou, me deixou orgulhoso e despertar agora, do distanciamento intelectual que exercitei durante décadas, um certo medo de minhas fortes novas reações.
[GUMBRECHT: 2001, p.12]

Os dois fragmentos se tornam mais contrastantes ainda quando se sabe tratar-se o primeiro de uma americana e o segundo de um estrangeiro recém-naturalizado. A visão crítica da ideologia que subjaz ao discurso hegemônico por parte de Susan Sontag esvai-se totalmente na apologia daquele mesmo discurso, através da estratégia de negação do distanciamento crítico, em nome de um sentimento nacionalista expresso por Gumbrecht. Demonstrar um partidarismo emocional a favor da guerra e da retaliação é afastar-se sobremaneira da função que cabe ao intelectual. O título do artigo de Gumbrecht – “Nota sobre uma guerra nada particular” ‑ ainda alude (não quero crer que involuntariamente) ao já polêmico documentário de João Sales – Notícias de uma guerra particular (1998). A indagação, ainda que involuntária, de muitos brasileiros, seria: tendo em vista a globalização do crime, especialmente através das redes internacionais de tráfico de drogas, por que só a guerra dos americanos não é particular? Sem dúvida a relação do intelectual com a mídia é complexa e perigosa, como alertara Umberto Eco.

O jogo promovido pelo mercado e pela mídia lançam as questões em torno da guerra também em uma superfície discursiva e ideológica. Embora não se trate de uma guerra que tenha o valor simbólico da antiga Guerra Fria, pois nesta guerra mata-se o “inimigo”, permanece, conforme constata Susan Sontag, permanece a distância do reconhecimento da realidade. O jogo discursivo se impõe ideologicamente e oblitera o óbvio: trata-se de uma guerra entre a intolerância fundamentalista islâmica e outra forma de fundamentalismo, que é a covardia presunçosa norte-americana, ou seja, uma guerra tão particular quanto qualquer outra que se possa declarar nesta era de individualismo e globalização. Fazem parte de um predicado que oculta a verdadeira aparência do sujeito desde a massificante transmissão mundial da imagem das torres desabando, ao crescente aumento das vendas bandeirolas americanas (além das máscaras protetoras) entre os nova-iorquinos.

As fronteiras, os espaços-duplos, o entre-lugar são instâncias que não só permanecem, como sempre existiram. O confronto com a alteridade processado como descoberta/redefinição do mesmo faz parte da experiência humana, não é à toa, que Silviano Santiago inicia seu ensaio sobre o discurso latino-americano, remetendo a Montaigne, que, pensando os canibais, remete ao rei Pirro diante dos romanos. Bárbaros são todos e ninguém. Bárbaros que hoje tendem a abandonar o sedentarismo de suas tribos e circular pelo planeta de forma livre, pois não se vai mais do mesmo ao outro, mas do mesmo ao mesmo.

Uma possível saída para esta bárbara mesmidade (ou para esta mesma alteridade), patrocinada pela mídia e pelo consumo, pode estar no que Michel Maffesoli propõe como uma deontologia, em seu Elogio da razão sensível: uma consideração das situações naquilo que elas têm de efêmero, de sombrio, de equívoco, mas também de grandioso:

Em vez de continuar pensando segundo um racionalismo puro e duro, em vez de ceder às sereias do irracionalismo, talvez seja melhor pôr em prática uma “deontologia” que saiba reconhecer em cada situação a ambivalência que a compõe: a sombra e a luz entremeadas, assim como o corpo e o espírito interpenetram-se numa organicidade fecunda. [MAFFESOLI: 1998, p. 19]

Tal deontologia leva à substituição da representação pela apresentação. Se a primeira foi o mecanismo de mediação típico da modernidade, que sempre tencionou representar o mundo em toda sua essência e pureza, a segunda consistiria em permitir ser aquilo que é, deixando sobressair o amor fati, o sim dito ao não. Maffesoli adverte, ainda, que a apresentação não é um “deixar-correr” intelectual, mas pelo contrário:

Ela requer uma ascese, a de não se fazer o jogo do demiurgo que manipula, ao seu bel-prazer, aquilo que convida a ser visto, em favor daquilo que se desejaria que fosse. (...) A apresentação é mais escrava do que senhora da realidade social ou natural. Está a serviço do dado mundano, mais do que exerce domínio sobre ele.
É em função de tudo isso que se pode propor a substituição da representação pela apresentação das coisas. Com efeito, a representação foi, em todos os domínios, a palavra mágica da modernidade. Assim para indicar brevemente, ela está na base da organização política, daquilo que se convencionou denominar ideal democrático, e justifica através desse fato todas as delegações de poder. Também a encontramos nos diversos sistemas interpretativos, procedendo por mediações sucessivas e tendo por ambição representa o mundo em sua verdade essencial. [IDEM, p. 21]

Em O Brasil presente construções-ruínas do imaginário nacional contemporâneo pretendeu-se empreender uma leitura das obras através do deslocamento da interpretação (que é ato de quem aborda representações), para tomá-las como apresentações, discursos que não são apenas portadores de uma mensagem racionalmente decifrável, mas que permitem um diálogo com a cultura e o imaginário, numa tentativa de descrever mais o continente que o conteúdo. Dessa forma, acredita-se que através da crítica literária e cultural seja possível verificar esta presença do Brasil, enquanto significante que aflora na apresentação dos discursos.

Na coxa flava do Rio de Janeiro



Fiz essa montagem em 2002. Fragmento de Carlos Drummond sobre foto de Ricardo Azoury. Para ler é só clicar e ampliar.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Tropa de elite

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
(Carlos Drummond de Andrade)

Finalmente assisti ao filme. Mas não me animo a entrar no debate, que logo fica velho e esquecido. Acompanho a discussão sobre violência policial, favela e narcotráfico, especialmente no Rio, desde os anos 80. Avançou. Mas, lamentavelmente, o avanço dos debates foi proporcional ao aumento da truculência da polícia, da hostilidade do bandido, da fragilidade dos governos e... dos lucros com o tráfico.

Sobre o filme há posições lúcidas e rigorosas, outras oportunistas (Idelber Avelar, blogueiro exemplar, listou várias). Talvez eu só esteja também aproveitando a oportunidade para publicar estas notinhas pouco rigorosas, mas sem abrir mão da lucidez:

1 - Terminei de assistir ao filme de José Padilha e, antes de ir para casa, resolvi passar na locadora e alugar Amen, de Costa-Gavras. Nada melhor para entender porque o Bope invade a favela em nome da Santíssima segurança.

2 - Depois resolvi folhear um livrinho muito útil. Para quem ainda não leu, recomendo: O narcotráfico, de Mário Magalhães, da coleção Folha Explica. Recorto trechos e acrescento uma pergunta a cada:

  • "No Brasil, comprovadamente, o narcotráfico lava dinheiro assim: nas Bolsas (o investidor não aparece, opera por intermédio de corretoras); com empresas de diversas naturezas (construtoras, táxi aéreo, comércio); casas noturnas, boates, restaurantes (especialidades das máfias italianas); companhias seguradoras; casas de câmbio; negócios com jóas, metais preciosos, objetos de arte."
Então, dá para concordar com uma idéia freqüente no filme, e achar que um "vapor" morre por causa do dinheirinho do "viciado"?
  • "É o UNDCP [Programa das nações Unidas para para o Controle internacional de Drogas], e não um grupo anticapitalista, que afirma: 'As organizações criminosas envolvidas com drogas ilícitas responde às oportunidades criadas pela globalização da economia de mercado'[...] Na prática isso significa o seguinte: ao mesmo tempo que gastam saliva para condenar e fortunas para enfrentar as ações e as conseqüências do narcotráfico, as grandes potências mundiais organizam, consolidam e aprofundam o sistema que permite à cadeia produtiva do crime organizado não só operar com desenvoltura como também se ampliar incessantemente."
Será que alguém que começou a vida do crime há uns 20 anos, como "olheiro", estará hoje diante de um teclado de computador só administrando os seus investimentos via internet?

  • "Os Estados Unidos têm incentivado a militarização do combate ao narcotráfico..." "Os governos nacionais são avaliados como tendo ou não atuação contrária ao narcotráfico. Os reprovados perdem direito a todo tipo de colaboração com os EUA, que retaliam com proibição de importações e exportações, empréstimos de organismos financeiros internacionais e penas complementares."
O ano em que meus pais saíram de férias é ótimo, mas será que escolhemos o filme certo para concorrer à indicação do Oscar?

3 - Já fui bancário muitos anos; nunca ninguém me chamou de banqueiro. Se eu fosse comerciário, quem ia me confundir com um comerciante? Preciso urgente de um especialista em língua portuguesa, para saber porque o sufixo -ANTE, passou a funcionar para traficários, uns pobres rastaqüeras, sem muita oportunidade na vida, mão-de-obra barata para investidores da bolsa, donos de empresas, donos casas de diversão, enfim, toda essa gente rica e transnacional que costuma circular habilmente entre nossos políticos?

4 - Toda a discussão partida do filme, então, sofre um desvio grave de foco. Não há problemas com o tráfico de drogas, pelo contrario, ele vai muito bem e ajuda a incrementar parte considerável da economia mundial. O problema é a existência de pobres. Pobres favelados vendedores de pó. Pobres agricultores plantadores de coca. Pobres desassistidos, que podem ser esculachados por outros pobres, milicos psicopatas ou cínicos.
Até os que roubam, muito pobres. Mas todos inocentes. Nas nas favelas e no senado, todos inocentes. Ainda ouvimos o eco da voz de nosso primeiro cronista: "Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior". E com tamanha inocência, acabamos por prescindir da justiça. Este é o problema do oculto óbvio, como aponta o meu companheiro de ofício, correspondente de Macondo, Parangolé.

5 - Prezado capitão Pimentel, em respeito à sua coragem de trazer à tona a discussão e romper com o VÍCIO do "manda quem pode e obedece quem tem juizo", ou do "quando um burro fala o outro abaixa as orelhas", das instituições brasileiras, gostaria de contradizer-lhe. Não é uma guerra particular. É uma guerra de todos. Particular é a guerra em que um império capitalista se lança às cegas contra terroristas que lhe explodiram um símbolo, que lhe expuseram a fraqueza. A guerra contra a miséria e a injustiça, prezado capitão Pimentel, não pode ser particular. E nela devemos discernir quais armas usamos. E contra quem. O cinema é uma arma forte e, às vezes, devastadora ( Hollywood que o diga!).

6 - Se bem acerto nas lições de teoria da literatura, herói se define pela identidade entre um personagem e o conjunto de valores e ideais de uma sociedade. Mas se o herói de Luciano Huck não é o mesmo herói de Ferréz, isso é sintoma de que a sociedade está partida, talvez estilhaçada. É evidente que os roteiristas, o diretor, ou o ator Wagner Moura, não construíram um herói. As críticas ao filme estão sendo apressadas, ou comprometidas, ou confundem ficção e documentário. O melhor que se pode fazer contra elas é divulgar o Ônibus 174. Desejar que esse filme seja visto pela mesma quantidade de pessoas que já viu Tropa de elite.

7 - Se o público se identificou tanto com o filme -- e isso precipitou que os camelôs vendessem por aí Tropa de Elite II e III (ao que me consta o segundo foi o título dado pelos piratas a Notícias de uma guerra particular e o terceiro, um documentário amador, que acompanha a rotina de policiais em suas investidas contra os traficários da favela -- se o público está se identificando tanto com tais filmes, eu dizia, se hoje as mães se reconhecem no medo da polícia e do bandido, é porque talvez não seja mais possível cantar uma canção, que, perto do começo dessa história toda, nos anos 80, ilustrava as notas de 50, primeiramente raras, depois surradas e hoje esquecidas.
Tropa de elite, Ônibus 174, Carandiru, Notícias de uma guerra particular, Cidade de Deus (entre outros filmes, livros e discos) são canções inimigas. Necessárias, mas inimigas: podem fazer acordar os homens, mas não deixam adormecer as crianças.