terça-feira, 25 de setembro de 2007

Quem somos nós? (What the Bleep Do We Know!?)

O filme me foi recomendado (é terna a lembrança de Catarina) há pelo menos uns dois anos. Meu ceticismo (ou seria cinismo?) me afastara dele. Perdi tempo.
Ou não.
Por outro caminho, mais científico, já experimentara a idéia (certeza?) de que as palavras movem e os pensamentos criam realidade. O da ficção.
Um pedaço do Anacrônicas, para os mais céticos, ainda:

Nilton não se comoveu diante de minha impotência. É simples, respondeu, enquanto descobria um quadro negro na parede ao lado da mesa, no qual desenhou três bolas. Toque nesta bola, e meu instrutor começou a traçar linhas inventando trajetos no fundo negro do quadro:

Após concluir o desenho, olhou-me com o mesmo sorriso de sempre. E então? Ofereceu, desta vez mais enfático, o taco. Olhei as bolas inertes sobre a mesa e imaginei novamente os corpos em movimento. Já não tinha certeza se devia acreditar no atestado que o Doutor me dera. Meu desejo era inventar outro jogo a partir daquele. Abandonar os tacos, deixar as bolas sobre a mesa e falar. Tinha certeza de que várias carambolas se reproduziriam quando o jogador falasse a palavra certa. Como convencer nilton a jogar este novo jogo?

Não sei se posso compartilhar minhas agulhas, respondi, e o meu pau, tantas vezes erguido em nome da paz e do amor, agora tem que se cobrir com escudos de borracha. Nilton ficou sério: como assim? indagou.

Agora eu ditava as regras: largue o taco, moveremos tudo com palavras, diga a palavra certa e as bolas começarão a se tocar. Nilton, mais sério ainda, talvez com medo, resolveu entrar no jogo. Nos posicionamos em volta da mesa.
Falávamos. Eu comecei a circular, me aproximando de meu adversário e ele se afastava de mim. Rodávamos em volta da mesa falando. Falávamos tudo, palavras somente, sem sintaxe: anda vai move paga bate voa fala cruza salta queima – o bilhar foi proibido na Idade Média – nilton me informou; não dei ouvidos, era minha vez de jogar: singra corta encosta beija lambe fela grita urra – e urrávamos diante das bolas paradas. Abandonei os verbos: ação – e ele me imitou: vento.

Caldo quente quando peixe sonho vida ano campo cria muda paralelepípedo desencontro morte diva condado ás hipócritas tróia eco frio charme lenço deus dama xadrez puta tempo – interrompemos a ciranda alucinada em torno da mesa e nos olhamos cansados. Ele queria que eu estivesse decepcionado, acreditando que as palavras não moviam nada, mas continuava sério. Sei que as palavras não movem, respondi com meu olhar, mas ainda assim falamos. E aguardei a sua tacada: rosa – será que ele se referia ao meu conto? Fiquei sem palavras por alguns segundos e revidei: fim.

Não sim – me olhou, meu lance foi de um taco-forte, ele ficou em sinuca e repetiu a tacada: não – e eu: léu.


– Boa noite. Outra luz se acendeu na sala de jogos.

Tudo parou.

Nilton voltou-se para mim, para a mulher que entrava, para mim novamente e disse esta é ana, minha mulher.
Ana não me reconheceu, mas nilton percebeu que só recuperaria o sorriso quando eu não estivesse mais ali.

Eu iria apertar a mão de ana, mas resolvi dizer outra palavra. E ele me olhou cego, falou-me mudo, ouviu-me surdo, até perder todos os sentidos, quando eu disse a palavra que não existia em nenhum dicionário do mundo e as esferas sobre a mesa se deslocaram, se buliram suavemente, e a bola vermelha inventou uma caçapa por onde caiu como
uma maçã.