quinta-feira, 21 de junho de 2007

La vie c'est comme une dent

É a segunda tradução de faço desse poema de Boris Vian:

La vie, c´est comme une dent
D´abord on n´y a pas pensé
On s´est contenté de mâcher
Et puis ça se gâte soudain
Ça vous fait mal, et on y tien
Et on la soigne, et les soucis
Et pour qu´on soit vraiment guéri
Il faut vous l´arracher, la vie.

A vida, isso é como um dente
No início a gente nem liga
Come contente e mastiga
Depois se gasta de repente
A dor vem, mas não é urgente
A gente cuida, busca uma saída
Até que ela volta mais aguerrida
Aí preciso arrancar isto, a vida.

Acabei mexendo nele de novo por causa de uma invenção para a Oficina Literária do Texto Território. Digam aí o que acharam.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Página em construção

Estou tentando montar uma página pessoal. Digam o que acharam.

Poesia - anos 70

Fiz semana passada uma resenha do livro Noite Americana Doris Day by Night, de Ronaldo Werneck. Logo será publicada e eu mando notícias. Este é só para colar pedaço que sobrou. Idéias a se discutir:

A poesia doa anos 70, especialmente a dos pós-tropicalistas e a da chamada geração mimeógrafo, ainda carece de uma avaliação crítica que supere um tradicional procedimento comparativo e dicotômico, insuficiente para compreendê-la e largamente difundido entre o senso comum. Segundo essa tradição crítica, a poética de então abandona a dureza do verso, herança cabralina, ou recusa o rigoroso exercício experimental que tem na poesia concreta apenas uma (a de política literária mais influente) das tendências que antecederam aquela década. Ao contrário dessa leitura, pode-se entender que há outra espécie de rigor e esmero no verso que escolhe andar junto ao acaso, como se fosse a única forma (a mais verdadeira pelo menos) de a poesia mimetizar a vida. Contrariamente ao que se pode pensar de uma poética de vocação menos formalista, o verso que está à mercê do acaso é a forma mais original, porque primeira, de realizar aquela utopia poética do distante Beneditino bilaquiano: a trama que disfarça o emprego do esforço (paradoxalmente, para alguns poetas do período, realiza-se como o fingimento da dor pessoana, ou seja, disfarça tanto o esforço que de fato não emprego o esforço). Formas (e não fórmulas) constituem o diferencial que faz com que a poesia dos anos 70 reate com o modernismo de 20, unindo as duas pontas de um período que, então, apontava para o esgotamento. Depois disso, o ascetismo – o poeta abandona as ruas e vai direto para as Faculdades de Letras do Brasil.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Máquina de escrever

Criança, ainda, ia para o trabalho de meu pai. Uma seção burocrática do há muito extinto MIC - Ministério da Indústria e Comércio. 6, 7 anos e nada a fazer naquela sala enorme. Até que descobri a máquina de escrever. Catamilhava as teclas e escrevia meu nome. Depois passei a atacar a remington 22 de minha irmã, que na época fazia curso de datilografia. Ali nasceram algumas histórias que não lembro mais se aconteceram ou não.

Sinais

O que Diderot e d'Alembert não sentiriam se navegassem na Wikipedia? A utopia do conhecimento geral parece estar se realizando. Enciclopédia ciclóptica.
E Thomas Morus, entraria para o Orkut? O espaço virtual parece manifestar-se como utopia literal. Ágora plena, que contraditoriamente esvazia a praça dos corpos. Compartilhamento ensimesmado.
Uma espécie de flash mob nem tão recente assim: no memsmo dia todos vão esquecer discretamente um livro nalgum banco de praça, praça de shopping, mesa de fast food, assento de ônibus, balcão de crediário, ou outro lugar que os iguais possam compartilhar sem se conhecerem. Sintoma do tempo em que emprestar livros era uma forma de afeto. Ou de antes ainda, quando as letras precisavam de pedras ou paredes de gruta para se gravarem. Agora elas andam por aí, demoduladas e moduladas. Sinais.

Literatura Marginal

- para o Renato Bruno -

Vejo a outra margem se aproximar. Não a curtição arembepe woodstock posto nove navilouca. Também não a onda viagem bode dos que souberam fazer bom uso do desejo do excesso do sexo e já quase todos não estão aqui para perder mais. Modernidade, nada melhor que ser maldito.

Vejo a outra margem se aproximar. Não os que souberam rezar na cartilha da maldição inventores diluidores lançadores de moda gladiadores da doxa poundiana.

A outra margem. Não a de malditos. A que não cabe no centro a vergonha o gregório o pataca e o vidigal o lima bem bêbado o meio fio travesseiro último do geraldo na lâmina-mão da satã e o roberto sem erasmo e os filhos do francisco e os netos do buarque as relíquias do brasil de novo e sempre, que o recalcado nunca pára de assombrar. E o lulalá.

A outra margem. A que os bons malditos fizeram por onde banir a da vergonha a apagar da história a dos que conjugam por cima dos panos e abaixo do equador todos os modos e tempos do furtar e do foder os que descobrem a si e desnudam as nossas vergonhas.

Vejo a outra margem se aproximar. E não há de se vender e não há de senquadrar e não há de sembonecar república temporã com o perfume das francesas e não há de se lapababelizar numa esquina esquiva da joaquim silva.

Vejo a outra margem se aproximar. Escreve aí, galera, e grafita e publica põe as idéias no lugar que a musa topa traz o bodum a bíblia no sovaco traz a metraca a larica a merda a céu aberto trava o cão crava os dentes come os homens. E vê se escapa da manchete assustada do jornal nacional.
(27/05/2006)

Carioca - faixa 1

- para a Vand -

Gostei de ouvir os acordes do choro-canção. Também os queria. Mas não deixa, da mesma forma, de ser foda e falso ainda pensar a cidade assim dividida em duas. A cidade partida ficou estilhaçada e (re)parti-la em dois só é vocação racionalista e ordeira. Dessa ordem binária que se nos entranhou desde a canção do exílio: vamos mapeando nossos cá e lá internamente, como se pudesse ser saudosa a velha belíndia.

Não me parece ser mais assim. Há segregação dentro da segregaçãodentrodasegregação. E está tudo aí: enumeração aleatória produzidas em retinas arrombadas mais para carioca do que para subúrbio. Mas manteremos a circunspecção enquanto as balas do exílio mandam para o outro lado policiais, favelados e o vizinho. Repetiremos ainda não é comigo, como naquele filme de Mathieu Kassovitz, O ódio. São Paulo, por exemplo, de novo na vanguarda, armas na rua e celulares nas prisões. Dessa vez foi menor o silêncio sorridente. Mas os cariocas ainda podem dizer "até aqui tudo bem".

Mas volto aos acordes do choro-canção. Em busca do paraíso perdido, do tempo da delicadeza. Tenho uma amiga, chamada Amélie Poulain, que lançou a campanha "Amélie Poulain para a presidência" (não a minha amiga, mas aquela da Audrey Tautou, embora às vezes elas sejam as mesmas). Ótima idéia. Só falta chegarmos ao consenso de que a vocação humana não é sonhar só, mas realizar os sonhos coletivamente. Há outros sonhos na faixa 2.
(30-05-2006)

Rosebud

Balbucio. Toda última palavra de moribundo.
Lembro um trecho de Roland Barthes: "Ao falar, não posso usar borracha, apagar, anular; tudo que posso fazer é dizer 'anulo, apago, retifico', ou seja, falar mais. Essa singularíssima anulação por acréscimo, eu a chamarei de 'balbucio'".
Ou das vantagens de só existir por escrito.

12 anos

Para o Pedro Miranda

Impasses que a obra de Chico Buarque não pára de impor.
Pensei bem e acabo concordando: pipoca é a melhor escolha, talvez a única. Diz mais com o que não diz. Diz da rima sugestiva, diz da história e da cesura, diz de um modo nelsonrodigues de lidar com o erótico-pornográfico, diz de dentro do modernoarcaico complexo que é o Brasil.

Queria escrever sobre "coisa com coisa", mas ouvi-lo é melhor que ler sobre ele. Só adianto: o melhor CD de samba que ouvi nos últimos tempos foi o "samba é minha nobreza". Acho que é aquele projeto a cartilha do "coisa com coisa", que vai ocupando o segundo lugar em mim. Tipo acertar na mosca do samba que eu quero ouvir/re(des)cobrir.

Salve Wilson das Neves e Paulo Cesar Pinheiro!
(21-06-2006)

Teresa Cristina e Grupo Semente cantam (e são) Chico Buarque

para Leinimar

Belíssimo show. O repertório afeta por si, mas a interpretação o transforma, redimensiona as canções, e afeta mais e diferente. Senti (e tento compreender agora) dois afetos: um, o da composição, já cristalizada no sistema nervoso, incorporada ao repertório do ouvinte, tipo alicerce do inconsciente (coletivo, no caso de Chico Buarque); outro, o das cores, do movimento e da emoção que surgem de dentro da voz de Teresa Cristina. Exemplos não faltam: a sobriedade com que toca as alturas e encorpa o refrão de “Estação derradeira” (nesta o arranjo das cordas é uma história à parte, de quem é o arranjo?); a dignidade com que sustenta a inocência da mãe do “Meu guri”; a divisão diabólica que ela e Pedro Miranda contracantam em “Biscate”, são só alguns dos pontos altos.

As melhores homenagens que se prestaram ao compositor foram as em que os intérpretes “falaram” sobre suas canções, sem cair na ingenuidade de achar que se pode deixar a obra falar por si (então não se deve perder também Cida Moreira e um pouco do Oswaldo Montenegro, coisas bem diferentes entre si, que falam de Chico). É nesse sentido que fragmento três imagens do meu afeto no show:

1 – Antes de provocar com uma interpretação sensual (como deve ser!) de “Sem fantasia”, ela conta com humor de quando não entendia bem a censura paterna se ela cantava, menina distraída, versos como “dia útil ele me bate, dia santo ele me alisa”. Habilmente, a cantora, com essa “despretensiosa” historinha, tira de si e de um lugar íntimo do Brasil (das mulheres do Brasil, dos subúrbios do Brasil), outra personagem buarquiana.

2- Mulher, negra e suburbana, à frente de pandeiro cavaquinho e violão de músicos escolados, todos com jeitinho zona sul. O grupo e a cantora são possíveis como personagens fortes da cena cultural brasileira, porque são de uma geração cujo imaginário foi também e bem nutrido pelas canções de Chico Buarque. E independentemente do show e da homenagem, “Teresa Cristina e o Grupo Semente” podem ser um evento de alguma utopia social brasileira que, se há desde Ismael/Noel, ou do Opinião, chegou até nós filtrada pelo cancioneiro de Chico Buarque.

3 – Finalmente: para pôr mais lenha na fogueira da discussão entre ser sambista x ser cantor de MPB, é obrigação de quem quiser entrar nessa briga, ouvir Teresa Cristina cantando “A história de Lili Brown”, de preferência com o sax especialíssimo de Marcelo Bernardes.

Quem não viu, veja!

Vai saber...

Para a Adriana e Marisa, agradecido

Trabalho: releio palestra do poeta Ferreira Gullar na UFJF, para livro que sai em breve. Transcrevo um trecho:

"Não havia o poema, mas ele foi feito e passou a fazer parte da vida das pessoas, passou a fazer parte do mundo. Existe o cosmo, as estrelas, os planetas, os satélites, mais o quadro que o Van Gogh acabou de fazer. Um poema de Drummond é uma coisa a mais na vida, com a diferença de que, enquanto a galáxia não fala nada, o poema nos fala, nos constitui porque fala de coisas humanas e ajuda a compor o universo humano, do qual necessitamos para viver."

Muito bom. Concordo porque sinto:

1 - É por isso que muitos poemas, quadros, canções alheios hoje são meus, porque integram esse universo humano que componho através deles.

2 - Minha última incorporação: "vai saber", de Adriana Calcanhotto, gravado pela Marisa Monte. Ficou melhor o universo ao meu redor depois desse samba.
(05-07-2006)