quinta-feira, 31 de maio de 2007

Clarice

--- Para a turma de Português IX ---

E porque não cabe o mundo aqui, remanso. Decanto a leitura por fazer, queda sem chão, ânsia insignificância da única chance, solércia da letra, franja entre a fala e o canto, memento mori em que começa o cabelo branco, átimo entre a inércia e o câncer, trizquexaspera, o que não foi convidado mas fica e contenta e dispensa o que explica, o NÃO que se diz (que sempre se diz) ainda quando se dá a mão-esmola no sinal, ressurreição sem morte, certeza infame: ninguém sabe nem cala o que funda esse abismo poço sem fundo ímã de húmus, máquina de sonhos que esfarrapa o cogito e esgarça o svm.
E porque não cabe o mundo aqui, descanso. Deponho as armas onde explode o silêncio. (07/07/2006)

Detran

--- Para Maura ---

I

Sinal de apito
(Carlos Drummond de Andrade)

Um silvo breve: Atenção, siga.
Dois silvos breves: Pare.
Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna.
Um silvo longo: Diminua a marcha.
Um silvo longo e breve: Motoristas a postos.
(A esse sinal todos os motoristas
tomam lugar nos seus veículos para
movimentá-los imediatamente.)

II

E quebro porque impreciso. E requebro e danço e freto desatinos ao futuro.

Por que duro, por que neutro, por que impávido colo impassível osso o flerte com o destino?

Atravessa o ritmo domado. Desarma o istmo do medo. Arrisca mais, que o porvir não é um vermelhovintessete e só um grande NÃO pode abrir muitos sim-talvezes.

E duro porque quebro. E amarelo e agradeço e aconteço ao sonho do compasso. Por que preciso, por que incisivo canino na artéria da vida, corda no pescoço do verbo?

Vaga por desprecisar de fio. Sai do trilho, rapa do trânsito. Petisca o de dentro do mistério, que é sincero o amparo dos vãos e afeuosos os braços que esperam

do outro lado do salto.

Mário Quintana

Umas coisas que disse ao telefone para a Fernanda Fernandes fazer matéria na Tribuna de Minas (30/07) por conta do centenário do poeta:

Em textos do próprio Quintana, a poesia é colocada como algo dramaticamente emocional. Ele se destaca em formas como o hai cai e o epigrama, que funcionam como explosões dramáticas.
Antes de conversar com a reportagem, Alexandre questionou seus alunos sobre o poeta e constatou que muitos sabiam de cor poemas de Quintana. O professor acredita que muito desta popularidade se deve ao tom prosaico. No entanto, Alexandre pondera que o forte apelo nem sempre acerta na construção de uma linguagem poética. Para ele, há rigor poético nos versos de Manuel Bandeira, porém o mesmo não acontece em Quintana, cuja obra é estável, oferecendo o mesmo tipo de poesia do começo ao fim. “Acho que ele deveria ser mais lido em sua prosa, nas pequenas reflexões que produziu para a imprensa. No entanto, ele é quase sempre lembrado como poeta.”

Zuzu Angel no Cinema

Mais importante do que assistir ao Zuzu Angel, talvez seja prestar atenção à fala da garotada que sai do cinema.

Longe de ser uma obra de arte, o filme vale pela produção de memória. Há episódios vergonhosos de nossa história que merecem, a despeito do tratamento romântico e folhetinesco que sofrem, ser revistos sempre. Houve, há algum tempo, Olga e, agora, este Zuzu Angel parece padece do mesmo mal: a construção de uma imagem infantilizada do militante da esquerda. É a falta de jeito para o impulso erótico ou afetivo, para o pathos motor do personagem folhetinesco, que o desqualifica diante do público novelesco. No caso do filme que estreou neste fim-de-semana, um agravante: a forte imagem cazuza, que o ator Daniel Oliveira agregou e fez pouca questão de descaracterizar, sem falar do conflito mãe/filho que remete à também recente biografia filmada por Sandra Werenck e Walter Carvalho. Uma imagem compõe a outra na aparência, mas são no fundo bastante opostas: o projeto revolucionário dos 60/70 não pode ser comparado (nem subliminarmente) ao make it yourself dos 70/80. A abertura com "Dê um rolê" (Moraes e Galvão), cujo arranjo ficou deslumbrante, apenas comprova esse desajuste de foco histórico-cultural.

Mas nada disso me interessa agora. Pasmei foi com os comentários dos meninos e meninas que saíam do cinema: quase incapazes de distinguir o filme a que assistiram de um Batman ou qualquer outro justiceiro hollywoodiano. Não por se demonstrarem insensíveis à violência física, à da tortura e do assassinato, tão bem representadas no filme, isso já era de se esperar. O que é pior: estão ANESTESIADOS PARA A INJUSTIÇA e alheios aos engodos do poder - a cena chave do filme é a do julgamento que o tribunal militar faz de um morto.

Queria agora poder contratar uma pesquisa para catalogar por faixas etária e sócio-econômica a reação que os espectadores de Zuzu Angel manifestam diante das atrocidades políticas que o filme recorda. Na falta disso, intuo, sem perder da memória um artigo de Karel Kosik (O século de Grete Samsa: sobre a impossibilidade do trágico no nosso tempo - http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/arquivo03.htm),
intuo a indiferença e o cinismo com que Grete Samsa varre da memória o inseto-irmão morto. Prestemos atenção no que dizem, que pensam, que falam, o fãs do Big Brother e analfabetos da novilíngua. Talvez isso nos leve à intranquila conclusão de que a hegemonia do capitalismo neo-liberal e "democrático" não deixa nada a dever ao nazi-fascismo. E que faz pouca diferença se as ALTERNATIVAS são minimizadas como caprichos de um filhinho-de-mamãe ou caladas na escuridão do mar.

Ato falho da professora de grego

Letícia cadastrou
Sua alegria no Letes.

Virem video

Não saio do silêncio como deixam a casa as coisas furtadas. Perdi o susto e atabalhoei a língua, gago infinito.
Sempre fica noutro lugar o edifício demolido.
Emprenham a memória os posts que não postei:
e férias em paraty-trindade e colóquio e teses e reuiniões e arguições e bancas e revisões que pensem que digam que falem que fui seguido por tantos olhos num só, oswaldo felipe bárbara daniel, que talvez virem vídeo esses meses em branco. (09/11/2006)

Banca

- para André Rangel Ramos -

E não saber o que se sabe. Aprender sempre. Duro este sempre sem magister - só a vida pela frente e os companheiros de liberdade (o regime é semi-aberto): sair de si para ir ao trabalho - compartilhar o pão do ensimesmamento, uma vígula aqui, uma rima acolá - lágrima maldisfarçada. Além o riso dos padres e a desconfortável sensação de que nunca me abandonou a escolástica (ou nunca a abandonei?). Meio ossos do ofício quando não vem à tona louco a se (in)dispor - mão no caldeirão da cultura - a dizer que não se sabe. E cantar e pular e dançar como um Deus. Não estes que, ex-machina, sobem à cruz, põem banca. E nos condenam ao amor agradecido e rancoroso dos maus fiéis.
Não saber o que se sabe. Aprender sempre. Dura este sempre.

PS: Este tirei do caderno, datado 30/08/2006. Não sei porque não passei antes. Depois li Kant em coma . Quem não leu, deve. Achei que tinha alguma coisa a ver. Daí dedico. E logo vira senha.

Monsuetudine

- para o Oswaldo e a Wal -

assim mesmo
sem curvas metafóricas
filosofia mera rasa alcova. educação começa entre as
pernas. evitar a dor, jamais. evitar a rima é muito mais

assim mesmo
sem retrato do cabral
cura epicurista nó molhado. certeza de dar o beiço no
morfeu. se há samba foi a vida quem nos deu.

assim mesmo
sem pesar na peneira
cosmogonia de cabras. é dar no couro e salvar a
tela. no batuque do silêncio o farrapo da intriga

assim mesmo
a negra lira
a entrega sem emprego. sonho de comer boceta de óleo sobre
pele. o solo da batucada nó na madeira
dó de peito
nó na garganta
espécie inofensiva de de toma que o filho é seu de cócoras

assim mesmo
sem logos
assim mesmo
sem mitos
assim mesmo
sem epos
assim mesmo
no pau
assim mesmo
no pé
assim mesmo
essa mulher

assim mesmo (abocanhada)
assim mesmo (descacetada)
assim mesmo (desintegrada)
assim mesmo (naviloucada)
assim mesmo (atomizada)
assim mesmo (esfomeada)

cosmicaos

não se apavore
é só morar na jogada


Aquecimento Global

Os mais preocupados hoje indagam: "Como se conservará o homem?" Zaratustra, porém, foi o primeiro e único que indagou: "Como se superará o homem? (Nietzsche)

Demasiado Humano

Se aquela coisa tivesse durado mais um segundo, o polícia estaria morto. Imaginou-o, assim, caído, as pernas abertas, os bugalhos apavorados, um fio de sangue empastando-lhe os cabelos, formando um riacho entre os seixos de vereda. Muito bem! Ia arrastá-lo para dentro da caatinga, entregá-lo aos urubus.

Ainda faltava, então, um golpe final. Um golpe a mais? Eu não a olhava, mas me repetia que um golpe ainda me era necessário – repetia-o lentamente como se cada repetição tivesse por finalidade dar uma ordem de comando às batidas de meu coração, as batidas que eram espaçadas demais como uma dor da qual eu não sentisse o sofrimento. E não sentiria remorso. Dormiria com a mulher, sossegado, na cama de varas. Depois gritaria aos meninos, que precisavam de criação. Era um homem, evidentemente.

Até que – enfim conseguindo me ouvir, enfim conseguindo me comandar – ergui a mão bem alto como se meu corpo todo, junto com o golpe do braço, também fosse cair em peso. Fixou os olhos nos olhos do polícia, que se desviavam. Um homem. Besteira pensar que ia ficar murcho o resto da vida. Estava acabado? Não estava. Mas para que suprimir aquele doente que bambeava e só queria ir para baixo? Foi então que vi a cara da barata. Ela estava de frente, à altura da minha cabeça e de meus olhos. Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira e insultava os pobres! Não se inutilizava, não valia a pena inutilizar-se. Guardava a sua força. Por um instante fiquei com a mão parada no alto. Depois gradualmente abaixei-a.

Vacilou e coçou a testa. Havia muitos bichinhos assim ruins, havia um horror de bichinhos assim fracos e ruins.

Interações

Dependência total da escrita. Por outro lado, ainda aprendo a lidar com o suporte digital. Blog em especial. Já abri alguns e abandonei todos.

Acho que agora começo a entender. Nunca gostei de diários, mas sempre tive cadernos de notas. Algumas impublicáveis de tão... furiosas, ruins?. Talvez eu abandone de vez o caderno e aprenda a acalmar de primeira as notas furiosas. Ou não. Além do mais, hospedado no TextoTerritório, as coisas ficam mais do meu jeito.

Aqueles textos iam direto pra gaveta ou viravam poemas e contos que tinham o mesmo destino, depois de lidos por dois ou três amigos, no máximo. Hoje em dia, um texto mal se acaba e já vai para o blog, já é público. A noção de acabamento que orientava a publicação impressa foi muito transformada. Fica tudo rápido demais, e transitório quase sempre. As interações com o leitor também são outras. Às vezes penso que post pode se tornar um novo gênero literário.